Sankara, o “Che africano” que inspirou revolução na Burkina

O espírito de Thomas Sankara está por trás dos grandes protestos que derrubaram o presidente de Burkina Faso, Blaise Compaoré

Nairóbi – O espírito de Thomas Sankara, político conhecido como “Che Guevara africano”, está por trás dos grandes protestos que derrubaram o presidente de Burkina Faso, Blaise Compaoré.

Convocado constantemente como inspiração na histórica revolução, após três dias de intensas manifestações, o povo conseguiu derrubar o ex-líder, que em outubro de 1987 tomou o poder após um golpe de estado que acabou matando seu antecessor, o próprio Sankara.

Por isso, os burquinenses tornaram a figura do antigo presidente muito presente durante todo o processo, tanto nas ruas como nas redes sociais, onde repetidas mensagens nostálgicas lembravam o homem considerado como herói nacional.

“O espírito de Sankara sempre perseguirá Blaise Compaoré”. “Ele nos tirou um dos poucos bons filhos desta pátria”. “A revolução deve continuar onde Sankara a deixou” ou “Hoje em dia seguem existindo milhares de “Sankaras””, foram algumas das mensagens tuitadas durante os protestos.

Inclusive as míticas palavras do ex-presidente – “Pátria ou morte, venceremos” -, que aparecem no hino nacional que ele próprio escreveu, foram utilizadas pela oposição para exigir a renúncia de Compaoré.

Admirador de Che Guevara, Nelson Mandela e Fidel Castro, Sankara, com 34 anos, liderou em 4 de agosto de 1983 um golpe de Estado com apoio popular do país que, apesar de conseguir a independência da França em 1960, permanecia sob o domínio da antiga metrópole.

“O objetivo da revolução é que o povo exerça o poder”, dizia Sankara, o mesmo defendido durante os protestos vividos na última semana, que acabaram com mais de 30 mortos e 200 feridos, segundo os partidos de oposição.

Logo após chegar ao poder, Sankara demonstrou que era um homem que governava na contracorrente em sua época. Um de seus primeiros gestos foi vender a frota de veículos Mercedes Benz dos funcionários do governo e começar a se deslocar com um velho Renault 5.

Além disso, mudou o nome colonial de República do Alto Volta por Burkina Faso, palavra resultado da combinação dos dois idiomas majoritários no país. Burkina, que significa “íntegro” na língua Mooré; e Faso, que se traduz como “pátria” em Dyula.

Com políticas revolucionárias, Sankara se transformou em herói, apelidado de “Che Guevara africano”. Compromissado com os direitos da mulher, proibiu a mutilação genital feminina, os casamentos forçados e a poligamia. Fomentou também a nomeação de mulheres para os altos cargos governamentais.

Sankara também empreendeu uma reforma agrária para prevenir a crise de fome, uma campanha nacional de alfabetização para estimular a educação e a vacinação de 2,5 milhões de crianças contra meningite, febre amarela e o sarampo.

Como Guevara, Sankara era um marxista, que acreditava na revolução armada contra o imperialismo e o capitalismo. Além disso, também se inspirou estilisticamente em Che, usando uma boina com uma estrela e uniforme militar.

“Viver como africano é a única maneira de viver livre e dignamente”, repetia o militar em seus discursos.

Mas sua política anti-imperialista também teve uma grande contrapartida: debilitou enormemente as relações exteriores do país com outras potências, especialmente a França.

Compaoré, então ministro de Estado, usou esse pretexto para justificar o golpe de 15 de outubro de 1987, que matou Sankara e outros 12 membros de seu gabinete.

Após a morte do líder, que nunca foi investigada, sua viúva Mariam Sankara teve que fugir do país com seus dois filhos por medo de represálias.

Agora que Compaoré abandonou o país e se refugiou na Costa do Marfim, Mariam anunciou que voltará a Burkina Faso.

“A juventude do país reviveu o presidente Thomas Sankara. Estou muito orgulhosa de vocês, do espírito de luta”, afirmou Mariam em carta dirigida ao povo, na qual também reivindicou a necessidade de estabelecer um governo civil de transição.

Em discurso feito uma semana antes de sua morte, Sankara não só previu o que iria ocorrer nos dias seguintes, mas também nos eventos que seu país viveria 27 anos depois.

“Embora os revolucionários, como os indivíduos, possam ser assassinados, nunca poderão se matar suas ideais”, profetizou.