Samsung: um líder em apuros

David Cohen

O ano começou com boas notícias para a Samsung. Seu relatório preliminar do último trimestre de 2016 apontava um lucro de 7,2 bilhões de dólares, o melhor resultado em quase três anos. Parecia ser a prova de que os problemas – principalmente o fiasco de seu celular Galaxy Note 7, cuja bateria superaquecia com risco de explosão – já estão controlados.
A maior parte do resultado positivo veio das divisões de semicondutores e componentes de telas para celulares, computadores e TVs, auxiliados por uma desvalorização do won, a moeda sul-coreana, em relação ao dólar. Mas os números indicam que a divisão de smartphones pode estar se recuperando mais rápido que o previsto do recall de cerca de 5 bilhões de dólares do Note 7.

O período de incertezas poderia estar ficando para trás… não fosse pelo pedido de prisão do líder da empresa, Lee Jae-yong, conhecido como Jay Y, feito por um promotor de justiça na semana passada, depois de um interrogatório de 22 horas. O pedido acabou sendo negado por uma corte do país, na quarta-feira 18, por falta de evidências, mas é provável que a controvérsia perdure pelo ano todo, ainda mais por envolver o impeachment da presidente Gun-Hye Park. Na sexta-feira 20, os promotores convocaram para interrogatório o vice-presidente executivo do grupo, Hwang Sung-soo.

A acusação é de que Jay Y tenha dado 36 milhões de dólares em propina para a presidente e sua assessora especial, Soon-sil Choi. Em troca, o fundo de previdência nacional, acionista de várias empresas do grupo Samsung e dirigido pelo governo, apoiaria a controversa fusão entre duas filiadas do grupo – uma movimentação que daria a Jay Y mais ações com direito a voto na holding e o posicionaria para suceder seu pai no controle da Samsung. O presidente do fundo de pensão, que era ministro da saúde, também foi indiciado por ter supostamente pressionado a entidade a apoiar a fusão.

Entre dois escândalos

O caso de Jay Y está na intercessão de dois escândalos. O primeiro é o que levou ao impeachment da presidente Park, em dezembro, ainda pendente de confirmação pela Corte Constitucional do país. Park Gun-Hye, filha do ditador Park Chung-hee, foi criada sob a influência de uma espécie de Rasputin da Coreia do Sul, Choi Tae-min, líder de um culto espírita que era assessor especial do presidente. A filha de Choi, Soon-sil, tornou-se amiga íntima de Gun-Hye – e, quando esta se tornou presidente, virou sua assessora especial.

Soon-sil é a chave do escândalo que derrubou Park. Quando se descobriu que ela achacava grandes empresas, multidões passaram a ir às ruas pedir o afastamento da presidente. Até onde se sabe, ela arrecadou 69 milhões de dólares para suas duas ONGs. A presidente Park seria uma cúmplice do esquema. As duas negam, e as empresas se dizem vítimas de extorsão, não corruptoras.

A Samsung era a maior “colaboradora” de Soon-sil. Além de doar 17 milhões de dólares para as suas ONGs, assinou um contrato de 18 milhões de dólares com uma empresa de gestão esportiva que ela dirigia na Alemanha, para financiar o treinamento de amazonas – especialmente a filha de Soon-sil.

O segundo escândalo é uma suposta troca de ações entre empresas do grupo por um preço abaixo do mercado, prejudicando acionistas minoritários. É disso o que reclama principalmente o fundo Elliott Management, do investido ativista Paul Elliott Singer. Essa troca estaria embutida na compra, em 2015, da Samsung C&T, uma empresa de construção, pela Cheil Industries, uma holding da família Lee que controla boa parte do grupo Samsung, por 9,3 bilhões de dólares.

O negócio ocorreu quando ficou claro que Kun-Hee Lee, o presidente do grupo, não voltaria ao trabalho após um ataque cardíaco (ele está há dois anos sob cuidados médicos). Jay Y, de 48 anos, foi criado para suceder o pai. Desde criança, assistia a reuniões do conselho, segundo um ex-diretor da Samsung. Em 1991, ele começou a trabalhar na Samsung Electronics, tornando-se seu presidente em 2009, e vice-presidente da companhia em 2013.

Embora não de direito, de fato Jay Y tem dirigido o império Samsung, que tem uma receita de 229 bilhões de dólares e cuja principal empresa, a Samsung Electronics, é responsável por cerca de 20% das exportações de todo o país. O toma-lá-dá-cá, se tiver acontecido, seria uma forma de assegurar uma transição suave de poder entre as gerações. Jay Y continua a tradição do pai – inclusive nos problemas com a Justiça.

Lee foi condenado por suborno em 1996 e por evasão de impostos em 2009, mas nunca foi para a cadeia. Seus mandados de prisão foram suspensos e transformados em multas. Curiosamente, a acusação de 2009 era de que seu pai, Lee Byung-chull, o fundador da Samsung, transferira fundos para ele secretamente, além de ajudá-lo a comprar ações de uma subsidiária do grupo por preços ilegalmente baixos.

Aparentemente, o que está em jogo no caso Samsung é se a Coreia do Sul vai manter ou não suas práticas obscuras de negócios. A prisão de Jay Y seria um marco na luta contra a corrupção associada aos poderosos conglomerados familiares do país, conhecidos como chaebol.

Por outro lado, o ambiente de incerteza deve postergar o movimento de reestruturação iniciado no final do ano passado, com a prometida separação do grupo em duas partes, uma holding e uma companhia operacional – uma demanda de investidores como a Elliott Management.

E, é claro, o caso poderia dar um sentido completamente novo à velha questão sobre como controlar o uso de celulares na cadeia.