Rússia: provocações nucleares

Ruptura de um acordo de desarmamento nuclear, mobilização de mísseis russos, sanções econômicas por causa da Ucrânia, suspensão das negociações sobre a Síria, suspeitas de interferência de hackers do Kremlin nas eleições americanas: as relações entre Estados Unidos e Rússia vivem o pior momento desde o fim da guerra fria. Os interesses entre as duas potências nucleares sempre foram conflitantes, mas elas sempre recuaram para evitar que a situação fugisse ao controle. Agora, parece que as disputas ganharam uma dinâmica própria, retroalimentando umas as outras, e nem os presidentes Barack Obama e Vladimir Putin querem ou podem mudar o seu curso.

Putin assinou no dia 3 um decreto suspendendo um acordo firmado entre os dois países em 2000, que prevê que cada um queime em seus reatores 34 toneladas de plutônio, evitando assim que o combustível seja usado na fabricação de armas nucleares. De acordo com o Departamento de Estado, as 68 toneladas de plutônio somadas serviriam para construir 17 mil ogivas. O acordo havia sido renovado em 2010. No decreto, Putin acusa os EUA de “ameaçar a estabilidade estratégica, com suas ações não-amistosas”. E acrescenta que seu governo precisa adotar “medidas urgentes para defender a segurança da Federação Russa”.

Em abril, o presidente russo havia denunciado que os EUA não estavam cumprindo o compromisso de descartar o plutônio, mas reprocessando o combustível de forma que pudesse ser reaproveitado depois em armas nucleares. O governo americano negou a acusação.

Deixando clara a vinculação desse tema com outras disputas de interesses entre os dois países, Putin impôs duas condições para a retomada do acordo: a redução da presença militar americana nos países do Leste Europeu, antes sob a influência russa, que ingressaram na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a partir de 2000; o levantamento de todas as sanções impostas pelos EUA contra a Rússia, por causa de seu envolvimento na Ucrânia, e indenização pelos prejuízos que causaram. As sanções, também adotadas pela União Europeia, congelaram depósitos e proibiram a entrada de empresários e autoridades ligados a Putin, como reação à anexação da Crimeia e ao apoio russo aos separatistas no leste da Ucrânia, em 2014.

O decreto de Putin foi uma retaliação antecipada a uma decisão, anunciada mais tarde no mesmo dia pelo Departamento de Estado americano, de pôr fim às negociações com a Rússia acerca do conflito na Síria. O país é o principal aliado da Rússia no Oriente Médio . Na cidade costeira síria de Tartus está a única base naval da Rússia na região, e os russos protegem militarmente a ditadura de Bashar Assad. Já os Estados Unidos e seus aliados ajudam o Exército Sírio Livre, grupo não religioso que luta contra o regime. No meio, está o Estado Islâmico, que seria o inimigo comum para Rússia e EUA, mas na prática isso não tem sido suficiente para unir as duas potências em uma estratégia comum, dadas as prioridades opostas com relação ao regime sírio.

“O governo Obama tem feito tudo o que está a seu alcance para acabar com o clima de confiança”, declarou o chanceler russo, Serguei Lavrov. “Queremos que Washington entenda que não pode adotar sanções contra nós com uma mão, onde isso pode ser feito sem prejudicar os interesses americanos, e com a outra continuar com uma cooperação seletiva em áreas interessantes para eles.”

“Quem quer realmente fazer a paz se comporta de modo diferente do que a Rússia tem escolhido”, disse, de sua parte, o secretário de Estado americano, John Kerry, ao comentar o fim da cooperação diplomática. “A Rússia fechou os olhos para o uso deplorável de gás de cloro e de barris-bombas por Assad contra o seu povo. Juntos, o regime sírio e a Rússia têm rejeitado a diplomacia e escolhido uma vitória militar sobre os corpos destroçados, hospitais bombardeados e crianças traumatizadas de uma terra com um longo sofrimento.” Ele disse que continuariam os contatos entre os militares americanos e russos para evitar incidentes nas áreas em que ambos estão atacando alvos do Estado Islâmico.

Na quarta-feira, 12, Lavrov anunciou que haveria uma nova rodada de negociações neste sábado em Lausanne, na Suíça, envolvendo a Rússia, os EUA, a Arábia Saudita, a Turquia e possivelmente o Catar, países “com direta influência no terreno”, nas palavras dele. O chanceler russo não mencionou o Irã. Kerry deve fazer depois um relato sobre a reunião aos chanceleres europeus em Londres. “Espero que seja uma discussão pragmática, não outro debate estilo assembleia geral”, disse Lavrov à CNN.

A Rússia enviou aviões e tropas para a Síria a partir de meados do ano passado, como resposta às sanções americanas e europeias contra o país, por causa do conflito na Ucrânia, além do interesse de proteger o regime sírio aliado. A Síria conta também com o apoio do Irã, que enviou oficiais da Guarda Revolucionária, juntamente com o grupo guerrilheiro xiita libanês Hezbollah e milícias treinadas no Irã, para enfrentar os insurgentes sírios e também a guerrilha curda. Conforme se aproximam as eleições presidenciais, Obama evita novas iniciativas, preferindo esperar que seu sucessor assuma com mandato para adotar suas próprias políticas externas e de defesa. Rússia, Síria e Irã estão aproveitando essa paralisia americana para criar fatos consumados no terreno. Daí a campanha sangrenta das forças leais a Assad para tentar tomar a parte leste de Alepo, a última grande conglomeração urbana sob controle do Exército Sírio Livre.

Diante disso, o governo Obama retomou uma discussão interna sobre um plano de entregar para rebeldes sírios armamento mais sofisticado, capaz de atingir aviões russos e sírios e de fazer frente à sua artilharia terrestre, segundo informou The Wall Street Journal.

Depois de suspender o acordo sobre o descarte de plutônio com os Estados Unidos, a Rússia começou a deslocar baterias de mísseis para o seu território de Kaliningrado, que fica entre a Polônia e a Lituânia. Ambos são hoje membros da Otan. Antes, a Lituânia, assim como os outros países do Mar Báltico, Estônia e Letônia, era uma das 15 repúblicas da União Soviética, e a Polônia, sua aliada no Pacto de Varsóvia, juntamente com República Checa, Eslováquia, Hungria, Bulgária, Romênia e a ex-Alemanha Oriental, além de Croácia e Eslovênia, antes pertencentes à antiga Iugoslávia. Todos se tornaram membros da Otan, causando enorme percepção de perda e de ameaça entre os nacionalistas russos, sentimentos explorados por Putin, ex-espião da KGB.

Os mísseis, da classe, Iskander-M, carregam tanto ogivas nucleares quanto convencionais. Seu alcance é de 500 km, suficiente para atingir a área protegida por um tratado de 1987, que impede a presença dessas armas. A Rússia afirma que o deslocamento é uma manobra de rotina. A medida é parte da resposta russa aos planos dos Estados Unidos de instalar a partir de 2018 na Polônia baterias de mísseis interceptadores da classe SM-3 — precisamente para proteger o aliado e seus vizinhos de uma eventual incursão russa.

Noutra frente, o FBI tem identificado na invasão de bancos de dados e no vazamento de emails da ex-secretária de Estado e atual candidata a presidente Hillary Clinton os mesmos métodos adotados por hackers a serviço do governo russo. De acordo com o deputado democrata Adam Schiff, membro da Comissão de Inteligência da Câmara, “não há dúvidas” de que a Rússia está por trás de tentativas de invadir as redes que conectam urnas eletrônicas e bancos de dados de votação de alguns Estados americanos. O objetivo seria comprovar as alegações do candidato republicano Donald Trump, segundo as quais haveria fraude nas eleições de 8 de novembro.

O próprio Trump chegou a pedir, em tom de gozação, aos hackers russos que revelassem o conteúdo de 30 mil emails trocados por Hillary quando era secretária de Estado (2009-2013) e apagados pela sua equipe de seu servidor privado: “Rússia, se você estiver ouvindo, espero que seja capaz de encontrar os 30 mil emails que sumiram. Acho que provavelmente você será poderosamente recompensada pela nossa imprensa”, disse ele em um comício em Doral, na Flórida, dia 27 de julho.

Em meio a uma torrente de vazamentos de emails de auxiliares de Hillary pelo site Wikileaks, o principal assessor da candidata, John Podesta, afirma ter encontrado um indício de envolvimento da equipe de Trump. Em agosto, quando o Wikileaks começou a vazar os emails — que sugerem tráfico de influência da Fundação Clinton no Departamento de Estado sob a gestão de Hillary —, Roger Stone, assessor de Trump, tuitou que “a hora de Podesta” estava chegando. Os emails de Podesta foram vazados agora. Stone reconhece que teve contatos com Julian Assange, fundador do Wikileaks, mas nega sua participação nos vazamentos.

O imbroglio ganha um colorido especial pelo fato de Trump ter, no passado, manifestado admiração por Putin, endossado a anexação da Crimeia, por ser o desejo da maioria dos russos étnicos que moram na península, e declarado que não defenderia os aliados da Otan no Leste Europeu contra uma eventual incursão russa se eles não pagassem o custo da operação militar. Além disso, seu ex-coordenador de campanha Paul Manafort fez marketing político para Viktor Yanukovich, ex-presidente ucraniano apoiado pelo Kremlin.

O porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, disse que o governo americano está estudando respostas “proporcionais” às supostas invasões dos hackers russos. Putin negou o envolvimento de seu governo. “Houve toda uma histeria sobre isso, mas não há nada que seja de interesse da Rússia”, afirmou ele, em um fórum sobre investimentos em Moscou, no dia 12, quarta-feira. “O objetivo de toda a histeria é fazer a América esquecer a manipulação da opinião pública. Ninguém está falando disso. Todos querem saber quem fez isso. Mas o importante é o conteúdo.” Os emails sugerem também que a direção do Partido Democrata favoreceu Hillary em detrimento de Bernie Sanders, seu rival nas primárias.

O líder nacionalista russo Vladimir Zhirinovsky, que apoia o governo Putin, adverte que os eleitores americanos devem votar em Trump para evitar uma guerra nuclear. “Os americanos precisam perceber que votarão pela paz no Planeta Terra se votarem em Trump”, diz Zhirinovsky, conhecido por suas declarações exageradas, mas que foi condecorado por Putin pelo desempenho de seu Partido Liberal-Democrata da Rússia, que ficou em terceiro lugar, com 11,67% dos votos nas eleições parlamentares de 18 de setembro. “Mas se votarem em Hillary, é guerra. Haverá Hiroshimas e Nagasakis por toda parte. As relações entre a Rússia e os Estados Unidos não têm como piorar. Só se começar uma guerra.”

As disputas entre os dois países afetam até mesmo o preço do petróleo. A Rússia resiste em ceder às pressões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) para reduzir a sua produção, de modo a permitir o aumento do preço da commodity. Igor Sechin, presidente da Rosneft, a gigante estatal responsável por 40% da produção de petróleo russo, disse na segunda-feira, 10, que a Rússia não vai reduzir sua produção. Depois de argumentar que a Arábia Saudita, o Irã e a Venezuela iam aderir da boca para fora mas não pôr em prática a medida, Sechin voltou a advertir, como já fizera outras vezes, que uma alta do preço estimularia o aumento da produção do petróleo de xisto dos Estados Unidos, que tem um custo mais alto: “Os americanos são os que mais querem o barril a US$ 50, já que os projetos de óleo de xisto se tornam lucrativos com esse preço. E US$ 60 resultará em mais projetos de óleo de xisto.”

“Putin só aceita construir relações com o Ocidente em seus próprios termos, não nos termos ocidentais”, disse a EXAME Hoje Andrei Kolesnikov, pesquisador do Centro Carnegie, em Moscou. “De fato isso não é guerra fria”, avalia Igor Zevelev, ex-diretor da Fundação MacArthur na Rússia. “É uma situação muito mais perigosa e imprevisível.” O ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev considera que as tensões EUA-Rússia levaram o mundo a “um ponto perigoso”, e que “isso precisa parar, e o diálogo, ser retomado”.

“Em termos da política interna, este é mais um conflito para continuar a mobilização do povo em torno da bandeira”, explica Kolesnikov, que tem estudado a forma como Putin exacerba sentimentos nacionalistas para angariar apoio popular e isolar a oposição. “Isso é importante, em face das futuras eleições presidenciais (em março de 2018).” Esse é o drama: por toda parte, políticos populistas se mostram dispostos a brincar com fogo, se isso servir para suas estratégias de poder.