Rússia: melhor esperar por Trump

Esta quinta-feira começa com mais uma incógnita envolvendo a guerra na Síria – e, por consequência, a relação entre Rússia e Estados Unidos. Ontem, num de seus últimos compromissos oficiais, o secretário de estado americano, John Kerry, se reuniu, em Hamburgo, com o ministro de Relações exteriores russo, Sergey Lavrov. Na mesa, estava a proposta de retirar todos os combatentes russos da região. Mas Moscou se mostrou relutante a fechar qualquer acordo antes de sentar para negociar com o novo presidente americano, o camarada Donald Trump. As conversas continuam hoje.

A campanha militar russa tem trazido resultados. Ontem, o regime de Bashar al-Assad, apoiado pelos russos, retomou ontem o comando da cidade velha de Alepo, ao norte da Síria. Ao longo das últimas semanas, com intensificação dos ataques e apoio do exército russo, inúmeros bairros foram reconquistados pelo governo até que os rebeldes sírios clamaram por um cessar-fogo. Mais de 80.000 pessoas deixaram a cidade, onde já não há acesso a água ou energia elétrica, nem hospitais para atender os feridos.

A atuação da Rússia nas investidas da última semana, inclusive com barreiras à entrada de ajuda internacional, foi severamente criticada por líderes ocidentais, como a chanceler alemã Angela Merkel e a primeira-ministra britânica Theresa May. “O combate contra a assimétrica ameaça do terrorismo islâmico deve ser travado em comum. Mas, ao invés disso, Rússia e Irã apoiam o regime de al-Assad em sua atuação brutal contra sua própria população”, afirmou Merkel em congresso de seu partido, na Alemanha.

As vitórias na Síria, bem como as boas relações com a China e com a Turquia, dão à Rússia a possibilidade de barganha com o Ocidente. Desde a anexação da Crimeia, em 2014, o país está sob sanções. Porém, em troca, reduziu a importação de alimentos do exterior, o que prejudica dez vezes mais as empresas europeias do que as americanas. No tabuleiro sírio, qualquer nova jogada afeta dezenas de jogadores.