Romero, da Llorente Cuenca: 2018 de eleições na América Latina

Oito países da região vão às urnas em 2018. O combate à corrupção e a busca por novos caminhos de crescimento serão temas decisivos nos debates

O ano de 2018 será crucial para a América Latina: oito países da região irão às urnas, o que representa cerca de 420 milhões de eleitores e mais de 80% do PIB da região. O calendário eleitoral começa com a Costa Rica em fevereiro, seguida de El Salvador em março, Paraguai em abril, Colômbia em maio, México em julho e Brasil em outubro. Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro prometeu que vai cumprir a lei e convocar eleições, embora ainda não tenha especificado a data.

Embora cada país tenha suas pautas próprias – o acordo de paz com as Farc na Colômbia, o Nafta no México, a crise política, econômica e humanitária na Venezuela ou a Lava-Jato no Brasil -, há muitos tópicos que unem os pleitos em todos esses lugares, como a corrupção, as reformas estruturais e a luta por melhores serviços públicos. Para Alejandro Romero, presidente para América Latina da consultoria de comunicação Llorente & Cuenca, o mercado assistirá com atenção aos desdobramentos na região no ano que vem. “É hora de ver se os países da região mantêm o respeito às insitituições, à democracia e à independência dos três poderes”, diz. Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida por Romero a EXAME.

Como o mundo está olhando para as eleições de 2018 na América Latina?

As eleições acontecem nos dois mercados mais importantes da região, que são México e Brasil. É 85% do PIB da região. São duas eleições em que estão em jogo para ambos, sobretudo, a força das instituições. É hora de ver se os países da região mantêm o respeito às instituições, à democracia e à independência dos três poderes. O que todos querem é que o Judiciário seja independente, que o Legislativo faça seu trabalho de legislar e que o Executivo faça seu trabalho de executar os planos de governo e fazer crescer a economia dos países. E 2018 será crucial para ver como a região se comporta.

Como os dois maiores mercados latino-americanos, o que Brasil e México terão em comum nas eleições do ano que vem?

No México, temos uma situação única na história, em que o PRI [Partido Revolucionário Institucional, do atual presidente Enrique Peña Nieto e que elegeu quase todos os presidentes desde 1929] está atrás nas pesquisas ante o modelo rupturista de Manuel Lopez Obrador [do Movimento Regeneração Nacional, à esquerda]. Os dois candidatos são muito diferentes, mas em ambos coincide o respeito às instituições, que deve existir para que o país possa avançar. No caso do Brasil, diria que essa discussão sobre o papel das instituições está ainda mais evidente. A grande pergunta da eleição até agora é se Lula poderá ou não ser candidato, e isso tudo é fruto do trabalho independente do Poder Judiciário.

Que temas serão chaves no debate eleitoral? Com grande parte dos países envolvidos em esquemas de corrupção com a empreiteira Odebrecht, a corrupção deve ser um dos principais tópicos?

Há três temas chave na agenda da maior parte da região. Diria que o primeiro é romper a lacuna da educação, é a principal prioridade que permite formar profissionais mais preparados na maior parte dos mercados, para enfrentar as metas de crescimento econômico que cada país tem. O segundo é o acesso à Justiça, uma Justiça para todos, igual, que não seja para pobre e para ricos. Isso segue pautando as tendências na região. E isso tem a ver com o terceiro principal tema, que é a luta contra a corrupção. Esse é uma agenda comum na maior parte dos países.

Após quase uma década de crescimento econômico, o PIB da América Latina não cresce desde 2014. Quais são as saídas para que a região volte a crescer?

Primeiro, eu diria que nem todo mundo parou de crescer. Há uma América Latina a duas velocidades. Uma é a dos países da Aliança do Pacífico, México, Panamá, Colômbia, Chile e Peru, que apesar da crise, seguem crescendo acima de 3 ou 4%, e alguns até acima de 7%. E a América Latina do Mercosul, que parou de crescer e sai prejudicada desse ciclo, em países como Brasil, que estava em recessão, Argentina, Equador, Bolívia e mesmo Venezuela – que nem há o que dizer. Então, não há uma América Latina unificada em termos de parâmetros econômicos.

Quando se fala do crescimento da América Latina há quatro anos, era um cenário de alta no preço das commodities. Se nossas economias são básicas e dependentes do preço das commodities, no minuto em que os preços vão ao chão, os índices de crescimento da região também vão ao chão. A conclusão? Não podemos depender dos preços dos commodities. Precisamos de indústrias de valor agregado, passar da maquiagem no crescimento à produção real. Isso significa também aumentar a arrecadação, e que haja uma melhor distribuição da riqueza.

O senhor fala em aumentar a arrecadação. Como fazer isso em países cuja carga tributária já é alta? 

Acredito que o tema passa, sim, por reformas tributárias, mas reformas de fundo, que permitam aos países arrecadar mais e melhor, e que isso seja investido corretamente. É muito difícil que as pessoas queiram pagar mais impostos quando veem todos os atos de corrupção que se produzem ao redor do dinheiro público. Portanto, há um círculo vicioso que não depende só de uma coisa. É um conjunto de reforma tributária, política social, redução de corrupção, aí sim vai funcionar. Do contrário, os governos continuarão se desviando dos reais objetivos.

A região saiu de uma década dominada por governos mais à esquerda, e após vitórias de candidatos como Mauricio Macri na Argentina, em 2015, ou Pedro Pablo Kuczynski no Peru, neste ano, havia a percepção de que a esquerda latino-americana havia perdido força. Contudo, no Chile, vimos a frente de esquerda conseguindo muitos votos, ao mesmo tempo em que Lula lidera as pesquisas no Brasil. Quais as perspectivas para os movimentos de esquerda em 2018?

A América Latina, na teoria, está sofrendo um giro na direção de partidos tidos como mais conservadores, ou de direita. Mas eu não acredito que haja, na América Latina, políticos de direita ou de esquerda na concepção tradicional. Todos os políticos que governam nesses países têm políticas sociais muito desenvolvidas, independentemente do partido. No fim, as posições estão indo muito mais em direção ao centro. Acredito que a diferença está mais na criação de ambientes de disciplina econômica global. O que houve nesses países em alguns desses governos nos últimos anos é inviável: hiperinflação, geração de pobreza, falta de investimento, descapitalização da classe média, tudo isso gerou um desastre social.

Quando esses partidos chegam de fato ao poder, a tendência é que se movam em direção ao centro? Isso pode acontecer em 2018, com uma possível volta de Lula no Brasil ou vitória da esquerda no México? 

Totalmente. Por isso insisto na desaparição dessas ideologias, por isso existem grupos que dizem que Lula não é de esquerda. Esses partidos, no fim, não têm políticas muito diferentes. A diferença é sobre como se executa. E para os mercados, o que faz diferença não são as ideias, mas a execução. Está claro que Lula se entendia com a parte progressista, mas também com a parte conservadora. Se há algo que podemos dizer sobre ele é que tirou milhões de pessoas da pobreza no Brasil. E isso, para mim, não é de direita nem de esquerda. É o que tem que fazer todo governo que tenha 11 milhões de pobres. Quando pensamos nos Estados Unidos, só há conservadores, mais ou menos conservadores, mas não tem o que possamos chamar de esquerda. É um pouco do que estou tentando dizer: o dilema na América Latina hoje é sobre como gerar sociedades de bem-estar social. Se há pobres, preciso trabalhar para os pobres, porque isso também é bom para o mercado, vai gerar consumo e melhorar a economia. É preciso gerar estabilidade social, melhorar a educação, tirar as pessoas da pobreza. No mundo de hoje não há mais como defender ideologias; eu defendo governos eficazes, que tenham exito em resolver os problemas de seus países.

Diante da corrupção como tópico comum entre os países da região, os outros latino-americanos vivem o mesmo tipo de descontentamento com a política tradicional que é visto no Brasil? 

Estamos vendo cada vez mais na América Latina um fenômeno que chamamos de “empoderamento do cidadão”. Vemos cidadãos cada vez mais conscientes de seu voto, de como exercer esse poder. E se está buscando, na maior parte dos países, a criação de uma nova geração de políticos, com os fenômenos dos independentes ou dos outsiders fora dos grandes partidos, além de limitação de mandatos e alternância de poder. Vimos um grande exemplo no Chile, que possivelmente é uma das democracias que mais avançou, e onde se conseguiu alternar entre partidos de diferentes tendências políticas. Mas acredito que, como nos outros países, ainda falta no Chile novas lideranças. E isso é uma das chaves: não podemos seguir sempre com os mesmos candidatos. Então, precisamos pensar, por que eles não surgem?

Nessa busca pelo novo, o surgimento de candidatos mais radicais, como o próprio deputado Jair Bolsonaro no Brasil, é uma tendência na região?

Teremos que ver nas urnas no ano que vem. De fato há um descontentamento nas sociedades. Há o Bolsonaro no Brasil, na Colômbia tem o Timochenko [líder das Farc, que negociou um acordo de paz com o governo colombiano], que também teremos que ver se vai se apresentar como uma possibilidade real. Em muitos países temos outros outsiders de tendências radicais. Mas a atual estrutura política de nossa região ainda é muito dependente dos partidos, e torna muito difícil que alguém que não tenha um partido e o financiamento público desse partido tenha possibilidade real de ganhar. Se existe um candidato “independente”, entre aspas, ou mais radical, sem uma estrutura de partido, é muito difícil ganhar. Mas, de qualquer forma, eles se convertem em movimentos sociais que têm algo a dizer. No caso do Movimiento Ciudadano [social-democrata], no México, pouco a pouco está capitalizando um apoio interessante, e a ver como vão desempenhar nas eleições regionais no ano que vem. Mas são movimentos que vão gastar anos e crescer e até poder consolidar-se. Neste momento, não vejo um espaço real para movimentos radicais; talvez apenas uma renovação dos partidos tradicionais e o surgimento de partidos novos, mais modernos, como o caso do Morena, também no México, que vai a sua primeira grande eleição.

A integração latino-americana e o futuro do Mercosul podem mudar de panorama dependendo de quem ganhar as eleições em 2018?

O futuro do Mercosul tem que ser repensado, porque neste momento ele está no leito de morte. Principalmente com as mudanças políticas de partes dos países que estavam no Mercosul, não há interesse nem político, nem econômico e nem ideológico de fazer o Mercosul funcionar. Está mais interessante o que acontece nos países do Pacífico do que no Mercosul. Os países querem estar nos clubes que funcionam, que tragam benefício. Não estou dizendo que a América Latina não deva se integrar: sou um amante da região e vivo há 20 anos na América Latina, e gostaria de algum dia ver uma completa união americana, como a União Europeia, juntando, inclusive, os países do Pacífico com os do Mercosul. Mas acredito que o Mercosul precisa repensar sua função e numa nova estratégia, com lideranças renovaddas, e aí terá sentido. Atualmente, não tem.