Rica na cidade, China investe contra pobreza no campo

Depois de anunciar meta de erradicar a extrema pobreza até 2020, China aposta em turismo rural para tirar milhões da miséria

Guizhou, China – No topo dos esverdeados terraços de arroz em Danzhai, município localizado na província de Guizhou, no sudoeste da China, observa-se uma das paisagens mais deslumbrantes do leste asiático. As encostas ao redor das niveladas plantações reúnem casas de palafitas de madeira, cuja arquitetura ostenta a herança cultural milenar dos povos Miao, uma das 56 minorias étnicas oficialmente reconhecidas pelo governo chinês.

Por dentro dos vilarejos dessa zona rural encontra-se um cenário raro na era da globalização: os moradores circulam vestindo trajes tradicionais, coloridos e com marcantes detalhes prateados, e exibem ornamentações nos cabelos. A remanescência da fascinante cultura Miao no interior da China é motivo de celebração.

Mas a precária situação econômica em que essas pessoas sobrevivem revela uma amarga consequência do desenvolvimento chinês, focado nos grandes centros urbanos: o exacerbado desequilíbrio social entre o campo e a cidade.

O abismo urbano-rural foi uma das principais pautas do 19o Congresso do Partido Comunista chinês, que ocorreu em outubro do ano passado. Lá, o presidente Xi Jinping anunciou a ambiciosa meta de erradicar a pobreza no campo até 2020, quando o Partido completará 100 anos de fundação.

“Por meio desse projeto, Xi deseja obter o reconhecimento da prosperidade da sociedade chinesa até 2020, o que é um prazo extremamente apertado”, diz Fred Gale, economista sênior especializado em China do Serviço de Pesquisa Econômica do United States Department of Agriculture (USDA), de Washington D.C., Estados Unidos.

Quem transita pelos luxuosos arranha-céus de cidades globais como Xangai e Pequim não imagina que, em campos não muito distantes, existem verdadeiros bolsões de miséria. O governo determina que pessoas que vivem com menos de 0.95 dólar por dia se classificam abaixo da linha da pobreza. Esse valor é mais tímido que o estabelecido internacionalmente pelo Banco Mundial, de 1,90 dólar por dia.

Até o final de 2016, 43 milhões de chineses sobreviviam abaixo da linha da pobreza, via padrões nacionais. Estima-se que hoje ainda haja 30 milhões de pessoas nessas condições. Quando se considera um país com 1.38 bilhão de pessoas, o número talvez não assuste tanto. Porém, ao analisar a parcela da população que sobrevive com menos de 5.5 dólares por dia, o que chega perto de meio salário mínimo brasileiro, são quase 500 milhões de pessoas, ou 40% da população chinesa, e mais de o dobro da população brasileira.

Cibele Reschke
JOVENS COM TRAJES TÍPICOS EM GUIZHOU: remanescência da fascinante cultura Miao no interior da China é motivo de crescente interesse turístico | Cibele Reschke

Turismo rural

A estratégia de Xi para dar fim à miséria no campo tem chamado atenção na mídia internacional pelos empréstimos para agricultores e pelo plano de relocação de quase 10 milhões de pessoas em áreas de habitação menos remotas, entre 2016 e 2020. Pouco se tem falado, no entanto, sobre os investimentos em turismo pelos belos vilarejos habitados por minorias étnicas.

Entre 2016 e 2020, a China pretende tirar mais de 12 milhões de pessoas da extrema pobreza por meio do turismo rural, de acordo com a China National Tourism Administration (CNTA). Só em 2017, cerca de 80 bilhões de dólares foram investidos no setor, ante 55 bilhões em 2016. Os esforços incluem desenvolvimento de infraestrutura para turismo, abertura de comércio local e treinamento de mão de obra para o entretenimento.

Uma característica particularmente chinesa dessa história é que, apesar de ser um plano do governo, muitos projetos de alívio da pobreza são capitaneados por empresas privadas, como a multinacional de comércio eletrônico Alibaba e a gigante de entretenimento Wanda. “Para ter sucesso, a iniciativa privada precisa do suporte do governo, então o engajamento em ações de responsabilidade social é uma forma de estabelecer essas alianças com o poder público para conseguir melhores oportunidades de investimento no futuro”, explica Gale.

Essas companhias têm construído complexos de turismo em regiões remotas do país, com a intenção de movimentar o comércio local, gerar empregos e aumentar a renda dos locais.

A distribuição espacial da população de baixa renda na China se associa diretamente a áreas montanhosas, donas de vistas de tirar o fôlego. “Dado o riquíssimo patrimônio natural e cultural dessas regiões, investir em turismo para aliviar a pobreza pode ser uma ótima ideia”, diz Albert Park, economista especializado em desenvolvimento, e professor do Instituto para Estudos Avançados da Hong Kong University of Science and Technology (HKUST).

Cerca de 65% das montanhas do país se concentram no Sudoeste, cujo território é 72,8% acidentado, sobretudo nas províncias de Sichuan, Yunnan, Guizhou e na municipalidade de Chongqing. Essa região tem a maior incidência de pobreza no país, com 20 milhões de pessoas nessa situação em 2016.

Investir no turismo social faz sentido se considerarmos também o crescimento explosivo da indústria de turismo nacional. Com a expansão da classe média alta no país, os chineses não apenas se tornaram os turistas que mais gastam no exterior – com um desembolso de 261 bilhões de dólares só em 2016 -, como também os maiores frequentadores de atrações dentro do próprio território.

Em 2020, espera-se que a soma anual de viagens domésticas chegue a 2.38 bilhões, de acordo com o Statistics Portal. O setor criou oportunidades de trabalho: só em 2017, quase 80 milhões de pessoas foram empregadas nessa indústria.

Embora pesquisas apresentem diferentes resultados sobre qual seria a província mais pobre da China, informações do Banco Mundial do final de 2016 defendem que Guizhou, visitada por EXAME, é a mais pobre.

Dos cerca de 40 milhões de moradores dessa província, 40% pertencem a minorias étnicas e 28% vivem abaixo da linha da pobreza. Esse foi o cenário que a Wanda escolheu para construir seu primeiro complexo de turismo social, em Danzhai. Antes da implantação desse projeto, Danzhai era a comunidade menos desenvolvida de Guizhou. Agora, o município está entre os que mais crescem no estado.

Com um investimento de aproximadamente 250 milhões de dólares, o projeto consiste em uma cidade turística de 50.000 metros quadrados, construída em arquitetura Miao, com um hotel quatro estrelas, um cinema, casas de entretenimento para crianças, e lojas de produtos locais. Inclui ainda uma escola técnica também de 50.000 metros quadrados, que tem a capacidade de acolher 1.200 alunos por ano sem custo para um curso de serviços e hotelaria de três anos de duração.

O plano é treinar moradores para trabalhar na cidade turística de Danzhai. A própria Wanda promete que contratará 50% dos formandos todos os anos. Uma terço de todo o dinheiro investido foi usado para a criação de um fundo de distribuição de renda para pessoas com mais necessidade da comunidade.

“Nós não ganhamos nenhum dinheiro com isso, todo o lucro é reinvestido no projeto, para empoderar a comunidade em longo prazo”, diz um executivo da Wanda, que não quis ser identificado.

Depois de ter trabalhado por anos como migrante em outras províncias, esta é a primeira vez que Guilin Huang, 27 anos, pode morar e trabalhar perto dos filhos, em Danzhai, sua cidade natal, como vendedora em uma loja de artesanato Miao na vila da Wanda.

“A chance de trabalhar na área de turismo tem trazido muita gente de volta para casa”, afirma Huang. Youhui Chen, 24 anos, acaba de voltar da província de Zhejiang, onde ela era gerente de um hotel, para gerenciar uma loja de chá na vila da Wanda. “Antes não havia oportunidades de trabalho qualificado para mim por aqui”, afirma Chen.

A expectativa é que o complexo da Wanda gere 20.000 empregos, diretos e indiretos, já que os produtos agropecuários e o artesanato comercializados na vila são produzidos pela própria comunidade. Os artistas que fazem apresentações culturais Miao também são das redondezas.

Muitos moradores estão abrindo pequenas pousadas em suas casas, para receber turistas e aumentar a renda familiar. “Nós criamos a estrutura para movimentar a cadeia local de suprimentos, mas quem trabalha e lucra aqui são os moradores”, diz o executivo da Wanda.

Desde que foi lançada, em junho do ano passado, a vila já atraiu 3 milhões de turistas, o que significa três vezes mais do que a expectativa inicial. O potencial de sucesso desse projeto piloto é tão grande que a companhia planeja criar um segundo complexo de turismo social na província de Sichuan, em um futuro próximo.

Guizhou é anfitriã de mais de 14 projetos para alívio da pobreza apoiados pelo governo. Em 2017, cerca de 70.000 pessoas ultrapassaram a linha da pobreza na província, segundo a CNTA. Embora projetos como esse sejam iniciativas promissoras, com grande capacidade de geração de renda e estimulação do consumo, muitos ainda apresentam limitações.

A principal delas, segundo um estudo de Albert Park sobre alívio da pobreza na China, é a dificuldade de expandir os impactos para fora das áreas de foco dos investimentos. “É impossível negar que o aumento do acesso à renda traz impactos positivos, mas em muitos casos as ações de redução da pobreza tendem a beneficiar mais quem tem boas conexões, em vez de trazer melhorias de longo prazo a toda a população”, diz Park.

LOJA DE ARTESANATO EM DANZHAI, GUIZHOU: depois de ter trabalhado por anos como migrante em outras províncias, esta é a primeira vez que Guilin Huang, 27 anos, pode morar e trabalhar perto dos filhos | Cibele Reschke

Otimismo plausível

A desigualdade social na China se construiu em tempo recorde. O modelo econômico industrial, focado em exportações de larga escala, transformou a China faminta do início da década de 80 no segundo maior PIB mundial no final dos anos 2000.

Esse crescimento milagroso exacerbou a desigualdade entre o campo e a cidade, de modo que a China nesse período deixou de ser uma das sociedades mais igualitárias do mundo para se tornar uma das mais desiguais, com nível de contraste comparável ao da África do Sul, segundo estudo da Southwestern University of Finance and Economics.

Entre 1980 e 2018, a parcela da população urbana no país passou de 20% para quase 60%, segundo dados da Administração Nacional de Estatísticas. Até 2030, estima-se que mais 350 milhões de chineses se mudem do campo para a cidade, número maior do que a população inteira dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, a China tem apresentado sucesso jamais visto em planos de alívio do subdesenvolvimento. Entre 1981 e 2013, mais de 850 milhões de chineses ascenderam da extrema pobreza, segundo o padrão do Banco Mundial. Isso corresponde a 70% dos esforços de redução da miséria no mundo.

Nesse período, a percentagem de pessoas que vivem nessas condições na China caiu de 88% para 1,85%. Os números positivos não isentam o país de apresentar falhas em seu processo de desenvolvimento.

Regressos podem acontecer, e rapidamente.“Nós advogamos que a pobreza, ou o alívio dela, não é uma questão estática”, diz Agi Veres, diretora do United Nations Development Programme (UNDP) na China. “Enquanto não houver suficientes políticas de ampliação da igualdade de acesso a oportunidades, cidadãos continuarão saindo da pobreza, ao passo que outros tantos se tornarão novamente pobres”.

Quando se trata do Gigante Asiático e da escala e velocidade com que tudo é feito, nada parece ser impossível. Metas robustas são estabelecidas e, mesmo a alto custo, alcançadas. Nesse sentido, é muito provável que o plano de Xi Jinping para a erradicação da extrema pobreza, segundo padrões chineses, seja bem sucedido.

“Diferentemente de outros países, em que os planos e metas se repaginam, na China a liderança tem um comprometimento enorme e o objetivo simplesmente acontece”, afirma Veres. O desafio de agora em diante é universalizar o acesso a educação, saúde e seguridade social, apoiado por políticas de resiliência, capazes não só de extinguir a pobreza do passado, como também prevenir a reincidência no futuro. É, em suma, seguir olhando para a frente, como defende Xi.