Renegociação argentina não será modelo para outros países

Mesmo que o governo argentino obtenha bons descontos na renegociação de sua dívida externa, outros países em desenvolvimento não seguirão seu exemplo, segundo o americano <i>The Wall Street Journal</i>

Mesmo que sejam bem-sucedidos na renegociação de sua dívida com os credores internacionais, os argentinos não se tornarão um exemplo para outros países em desenvolvimento que também lidam com pesados encargos financeiros. A avaliação é de economistas ouvidos pelo americano The Wall Street Journal.

A tentação de seguir o exemplo da Argentina é grande. Arruinado por uma crise econômica, política e social sem precedentes, o país decretou a moratória da dívida em 2001. Desde então, empenha-se em renegociar a condição de pagamento de seus títulos. Na queda-de-braço, o presidente Néstor Kirchner oferece o pagamento de apenas 30 centavos de dólar por cada 1 dólar, um desconto de 70% sobre o valor de face dos papéis, inédito na história das renegociações de dívidas soberanas. Se aceita, a proposta acarretará perdas de 103 bilhões de dólares para os investidores.

Para se ter uma idéia do tamanho do desconto que a Argentina propõe, desde 1990, foram renegociadas 20 dívidas soberanas no mundo. A taxa média de abatimento do valor foi de 36%, de acordo com pesquisa citada por The Wall Street Journal. Por isso, a conduta de Kirchner está despertando o interesse de importantes países em desenvolvimento, como o Brasil.

Os economistas consultados pelo jornal americano acreditam que é improvável que outras nações sigam o exemplo argentino, decretando o calote para depois impor pesadas condições de revisão de seus débitos. “A idéia de que o caso argentino mostra que o default tem custo zero não faz sentido”, afirma Nouriel Roubini, economista e professor da New York University. “Este é um remédio que ninguém deseja para seus países”, diz.

Mais flexíveis

Uma razão para que a Argentina não seja seguida são as próprias condições que levaram o país a suspender os pagamentos: a grande depressão econômica em que mergulhou e a crise social que sacudiu a população. Outro motivo é que os próprios investidores estão se tornando mais flexíveis em relação aos países em desenvolvimento. Nos últimos anos, os grandes investidores institucionais estão se esforçando para distinguir melhor a situação de cada nação e observam cada emergente de formas diferentes. Com isso, premiam com menores taxas de juros aqueles países cuja economia está em ordem e que demonstram um histórico de pagamento confiável. Essa postura contrasta com a visão anterior, segundo a qual as nações em desenvolvimento eram todas iguais e deveriam pagar as mesmas taxas.