Removidos à força, trabalhadores ficam desamparados na China

Muitos chineses removidos em nome de um projeto hidráulico faraônico, com a promessa de uma vida melhor, se dizem traídos e abandonados

Nanyang – Removidos à força em nome de um projeto hidráulico faraônico, milhares de chineses receberam a promessa de uma vida melhor, longe de seus vilarejos submersos, mas hoje muitos se dizem traídos e abandonados.

A água deve começar a correr neste mês pela monumental infraestrutura de 65 bilhões de euros das reservas aquíferas que vão do centro da China às regiões áridas do norte.

Vítimas do “Projeto de transposição de águas sul-norte”, uma boa parte dos deslocados segue em situação precária, sem emprego, em péssimas moradias e sem a indenização prometida.

Jia Xinlong lembra do dia, há três anos, em que todo seu povoado teve que carregar, sob chuva torrencial, seus móveis e ferramentas agrícolas em caminhões que os levaram para 300 quilômetros dali. Ao verem suas novas moradias, alguns começaram a chorar.

Sacrificados pelo país

“Estávamos preocupados. Estas casas foram construídas depressa, os tetos já estavam rachados”, lembra Jia, apontando para as rachaduras da sua casa.

“Fizemos grandes sacríficios pelo país. E perdemos tudo”, completa Jia Zhangjun.

As obras do ambicioso complexo de engenheria hidráulica começaram em 2002 e terão três itinerários distintos partindo do rio Yangtsé para levar a Pequim bilhões de metros cúbicos de água por ano.

As regiões do norte da China, que ocupam um quinto do território nacional, concentram a metade da população e do PIB, mas só contam com um quinto dos recursos aquíferos, segundo o Banco Mundial.

E os problemas se agravam: o nível de reservas de água em Pequim caiu para 120 metros cúbicos por pessoa, menos do que na Argélia e o mesmo patamar do Iêmen e de Israel, países em grande parte desérticos.

Os deslocamentos em massa foram dolorosos: pelo menos 330.000 pessoas tiveram que abandonar seus domicílios nas províncias de Henan e de Hubei, onde se localiza a parte central do projeto, segundo a imprensa oficial.

“Não tivemos escolha”

A AFP encontrou algumas dessas pessoas removidas em suas novas habitações. Suas terras natais foram submersas pelas águas do grande reservatório de Danjiangku, que alimenta a capital chinesa por canais de 1.264 km.

“O Estado mandou que fôssemos embora. Não tivemos escolha”, diz Xu Zhenyan, um senhor mais velho, deslocado a 150 quilômetros, até “o novo vilarejo de Liangzhuangdong”.

“Aqui não há trabalho e temos muito menos terras do que antes”, lamenta Huang Jianchao, de 50 anos, que se queixa que sua renda caiu drasticamente.

A prefeitura de Nanyang, que supervisiona o local, assegurou à AFP que todas as pessoas removidas receberam pelo menos 700 m2 de terras “produtivas” e que contam com uma ajuda anual de 600 iuanes (78 euros) durante 20 anos.

Dezenas de deslocados consultados pela AFP afirmaram que não receberam um centavo da indenização.

“Não recebemos absolutamente nada. As medidas previstas eram boas, mas não foram colocadas em prática”, lamenta em Liangzhuangdong Liang Qingfeng, de 40 anos.

Milhões de chineses têm sido deslocados à força nas últimas décadas por projetos de infraestruturas, geralmente sem qualquer tipo de consulta prévia.

Mais de um milhão de pessoas tiveram que deixar suas casas para as obras da hidrelétrica de Três Gargantas, que entrou em operação há dez anos. Em 2012, o governo reconheceu que suas condições de vida continuam sendo um “problema urgente”.

“Os vilarejos e comunidades no entorno do reservatório de Danjiangku são ínfimos em termos econômicos e políticos comparados aos interesses da região de Pequim”, avalia Britt-Crow Miller, professor de geografia da Universidade da Califórnia.

Dona Liu, de 71 anos, observa no horizonte as águas azuis que cobrem seu antigo povoado. “Sentimos falta da nossa casa, onde foram enterrados nossos ancestrais. Mas ninguém se preocupa se estamos satisfeitos ou não. Trata-se de uma política nacional”, diz em uma mistura de resignação e orgulho.