A ilusão da independência

Liberdade. É o que almeja a metade dos britânicos que, nesta quinta-feira, defende nas urnas a saída da União Europeia. Para os apoiadores do Brexit, deixar o bloco significa a retomada de autonomia para reger o próprio país, com liberdade para fechar os próprios acordos comerciais – e as próprias fronteiras. Mas até que ponto a independência representaria alguma mudança real no tabuleiro?

No primeiro trimestre, as exportações para a União Europeia representaram 47,5% dos bens vendidos pelo país. Cerca de 55% das importações também são negociadas dentro do bloco. Todo esse tráfego, que acontece sem cobrança de taxas, precisaria ser renegociado – com a própria União Europeia. “Os britânicos acreditam que podem levar o livre comércio até as últimas circunstâncias, colocando em prática um modelo isento de impostos, atrativo para fechar novos acordos”, diz o economista Paulo Sérgio Wrobel, doutor em relações internacionais pela King’s College de Londres e professor da PUC-Rio.

Outro calo do qual o Reino Unido não se livraria é a questão dos imigrantes. A política europeia para lidar com a crise de refugiados é desaprovada por 70% da população britânica, de acordo com pesquisa do Pew Research Center. Mas a maioria dos imigrantes que procuram a ilha não estão fugindo da guerra. Em 2014, 30% dos pedidos de asilo no país vieram de indianos e paquistaneses – ex-colônias inglesas. E, em 2015, o país aprovou apenas 90.000 pedidos de assentamento, uma queda de 60% em relação a 20109.

Além disso, o turismo é o setor que mais cresce no Reino Unido desde 2010 e, atualmente, representa 7% do PIB, com uma receita de quase 130 bilhões de dólares por ano. Em 2015, o país recebeu mais de 36 milhões de pessoas, sendo franceses, americanos e alemães os principais visitantes. Entre os 10 países que mais mandam turistas para o Reino Unido, apenas Estados Unidos e Austrália não estão na União Europeia. Sair do bloco representaria um tiro no pé no seu mercado mais promissor e limitaria o trânsito dos próprios britânicos. A dúvida é se tudo isso pesará nas urnas.