Regime sírio perde mais uma província para os rebeldes

Só restam ao regime quatro províncias quase inteiramente sob seu controle desde o início da guerra

O regime sírio decidiu abandonar a província de Idleb para a Al-Qaeda e seus aliados, que tomaram a última cidade da região, a fim de concentrar sua luta em áreas que considera vitais para a sua existência.

Idleb é a segunda das 14 províncias da Síria que o regime perde depois de Raqa, que está nas mãos do grupo jihadista Estado Islâmico (EI).

Só restam ao regime quatro províncias quase inteiramente sob seu controle desde o início da guerra – Lattakia e Tartus (oeste), a província urbana de Damasco e Sueida (sul).

Este conflito começou em março de 2011, com manifestações pedindo reformas, reprimidas de maneira sangrenta. Militarizada, a revolta se transformou em uma guerra brutal e complexa, com a intervenção de grupos jihadistas, sobretudo a Al-Qaeda e o EI, que também atua no vizinho Iraque.

De acordo com uma fonte síria da segurança e uma ONG, o regime de Bashar al-Assad, que sofreu vários reveses nos últimos meses, agora prefere se retirar de certas regiões para defender seus verdadeiros redutos, como Damasco ou Lattakia.

Na quinta-feira, suas tropas se retiraram sem combate de Ariha, a última cidade que estava sob seu controle na província de Idleb (noroeste), depois de uma ofensiva relâmpago do “Exército da Conquista”, coalizão formada pela Frente Al-Nosra, o braço sírio da Al-Qaeda, e rebeldes islamitas.

Milhares de soldados foram posicionados em Ariha, de maioria sunita, e, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), combatentes do Hezbollah libanês e militares iranianos apoiam o exército.

70.000 rebeldes

“O território vital a proteger para o regime é Damasco, Homs, Hama e a costa. Idleb não está (nesses cálculos), o que explica a rápida retirada de Ariha”, afirmou à AFP uma fonte de segurança síria.

A coalizão rebelde já havia tomado a capital da província de Idleb e a cidade de Jisr al-Chughur. Há apenas algumas localidades e o aeroporto militar de Abu Duhur nas mãos do regime, mas “os rebeldes vão perdê-los”, declarou Ibrahim al-Idlebi, um ativista na região.

De acordo com o OSDH, 13 milicianos pró-regime foram executados em Ariha.

“Não houve nenhum combate real na cidade porque o regime não pode mais suportar mais perdas humanas”, disse Rami Abdel Rahman, diretor do OSDH. “Mesmo com o apoio do Irã e do Hezbollah, não pode compensar essas perdas”.

Segundo esta organização, há “70.000 rebeldes em toda a Síria, incluindo nos bastiões do regime, que se recusam a servir no exército”.

Nos últimos meses o regime sofreu uma série de reveses no noroeste e no sul para os rebeldes, armados pela Turquia e Arábia Saudita.

O jornal turco Cumhuriyet publicou fotos e um vídeo que apoiam a hipótese, até então negada pelo governo de Ancara, de fornecimento de armas aos rebeldes extremistas no início de 2014.

Atentados em Bagdá

“A prioridade agora para o regime é estabelecer linhas de defesa para proteger Lattakia e Hama. Ele não está mais numa lógica de ataque”, afirma Abdel Rahman. A este ritmo, ele “pode ​​muito bem perder Aleppo”, a segunda maior cidade do país.

Depois de sucessivas derrotas, o regime sírio enfraquecido está vendo uma partição de fato do país, limitando as suas ambições à “Síria útil”, de acordo com analistas.

Ele ainda controla algumas regiões nas províncias de Deir Ezzor (leste), Deraa (sul), Quneitra (sul) e Hasaka (nordeste), e divide o controle com a rebelião na província rural de Damasco, na de Aleppo (norte), Homs e Hama.

De acordo com o OSDH, o grupo sunita ultrarradical EI controla metade da Síria, principalmente no norte e no leste, e tem se tornado mais forte no centro após a captura da cidade de Palmira.

No vizinho Iraque, onde o EI também domina vários territórios, pelo menos nove pessoas foram mortas antes do amanhecer na explosão de dois carros-bomba em frente a hotéis luxuosos em Bagdá, disseram as autoridades.

Uma centena de km a oeste de Bagdá, as tropas iraquianas e as milícias xiitas tentam cercar os jihadistas do EI na cidade de Ramadi.