Protestos no Chile abalam legado de presidente bilionário

No primeiro ano de Piñera na presidência do Chile, crescimento foi de 5,3% no segundo trimestre de 2018. Mas, em 2019, as coisas começaram a dar errado

Quando o Chile foi invadido por manifestações em outubro, o presidente Sebastián Piñera viu sua agenda política evaporar.

Apenas 18 meses depois de assumir o poder com promessas de expandir o sistema de previdência privada, cortar impostos para ricos e combater o crime, os planos de Piñera foram varridos pela maior onda de protestos desde o retorno da democracia em 1990.

Todas suas principais políticas agora estão sendo abandonadas, revertidas ou revisadas. Com um novo ministro da Fazenda, os esforços do governo estão centrados em aplacar os manifestantes com o aumento de gastos, revertendo promessas eleitorais de reduzir o déficit fiscal.

A maior concessão de Piñera, um plano para reformar a constituição, foi negociada por congressistas de quase todos principais partidos. O presidente, que resistiu aos pedidos de renúncia, apenas endossou o projeto dois dias depois.

“Seu manifesto e suas políticas se foram, acabaram”, disse o chileno Javier Sajuria, professor assistente na Universidade Queen Mary, em Londres. “Ele pode se tornar apenas um administrador de uma agenda política definida pelos partidos no Congresso.”

Com dois anos e meio de mandato, o índice de aprovação de Piñera caiu para 12%, segundo o levantamento mais recente da Cadem. Alguns parlamentares da oposição até iniciaram um processo de impeachment, embora seja improvável que seja levado adiante.

É duro para um bilionário acostumado ao sucesso. Piñera foi eleito no fim de 2017 para um segundo mandato, não consecutivo, porque era visto como eficiente, alguém que poderia traduzir suas habilidades de negócios em um crescimento econômico mais rápido para o país.

Começou bem

No primeiro ano, tudo parecia correr bem. O crescimento foi de 5,3% no segundo trimestre de 2018 – seus primeiros três meses no cargo – e o investimento disparou. Mas, em 2019, as coisas começaram a dar errado.

A economia perdeu força, tendo se expandido apenas 1,5% no primeiro trimestre, e as reformas tributária e da previdência de Piñera acabaram paralisadas no Congresso. Pior ainda, um projeto de lei para flexibilizar o mercado de trabalho havia sido bloqueado pela oposição, que queria reduzir a semana de trabalho para 40 horas.

Então, aparentemente do nada, os protestos eclodiram e o pacote de reformas de Piñera desapareceu da noite para o dia.

Os manifestantes querem melhores pensões, educação e assistência médica, além de uma nova constituição. Mas não querem o tipo de pequenos aumentos de gastos que Piñera havia proposto: querem um estado de bem-estar adequado. Depois de 30 anos escutando que vivem na economia milagrosa da América Latina, a população quer ver os benefícios.

O presidente agora tenta lidar com as pressões da extrema direita para reprimir os protestos, e da extrema esquerda, que exige sua renúncia.

“Este não é mais o governo de Piñera, porque sua agenda acabou”, disse Robert Funk, professor de ciências políticas na Universidade do Chile. “O governo está reativo agora, mudando constantemente, dependendo das demandas nas ruas.”