Protestos estudantis no Chile deixam 800 feridos e 100 detidos

Mesmo com proibição do governo, estudantes foram às ruas para exigir educação pública gratuita e de qualidade

Santiago – Mais de 800 detidos e cerca de cem policiais lesionados foram o saldo das manifestações estudantis de quinta-feira em dezenas de cidades do Chile, informou nesta sexta-feira o porta-voz de governo Andrés Chadwick.

“O total de detidos após a marcha estudantil de ontem chega a 874 pessoas em nível nacional” e há “mais de 90 policiais feridos”, disse Chadwick à imprensa local.

Em meio aos protestos, cerca de 200 estudantes ocuparam pacificamente as instalações do canal de televisão privado Chilevisión e exigiram entrar no ar para expressar suas demandas em favor do fortalecimento da educação pública no país.

“Nos vimos afetados como canal por uma ocupação de 200 estudantes que chegaram até a emissora para um protesto”, disse a jornalista da emissora Macarena Pizarro, enquanto narrava as violentas manifestações estudantis.

As passeatas foram proibidas pelo governo, mas os estudantes e professores não recuaram. Durante a manhã, foram erguidas barricadas em 13 pontos de Santiago com pneus e pedaços de madeiras em chamas.

“Temos agido com prudência para respeitar os direitos de expressão, mas há um limite. Os estudantes não são os donos deste país”, disse o porta-voz do governo, Andrés Chadwick, à rádio Cooperativa.

Horas depois da primeira manifestação, os estudantes tentaram reunir-se na Praza Itália para iniciar a primeira das marchas anunciadas, mas a polícia os dispersou novamente com gases lacrimogêneos e carros com jatos d’água, evitando que o protesto chegasse a Alameda, que é a principal avenida da capital chilena, apurou a AFP.

“O centro de Santiago está sitiado”, disse Camila Vallejos, dirigente dos universitários. “Ninguém pode nos reprimir por nos reunirmos em espaços públicos”, disse Vallejo.

Os protestos haviam sido anunciados depois que o ministro da Educação, Felipe Bulnes, entregou na segunda-feira uma proposta de 21 pontos – a segunda oferecida pelo governo – aos líderes estudantis, que deveriam respondê-la até sexta-feira.

“Vamos dar um sinal de que estamos mobilizados e alertas e que a discussão não acaba com a resposta dada pelo ministro”, disse à imprensa na quarta-feira Camila Vallejos, uma das principais líderes estudantis.

Os estudantes se queixaram da “repressão policial” que, segundo eles, lembra as ações da polícia durante a ditadura militar do general Augusto Pinochet, que governou o Chile entre 1973 e 1990.

A repressão “demonstra que o Governo não foi capaz de entender a magnitude deste movimento. Imagino que terá sido assim há 30 anos no Chile”, disse Camila Vallejo.

Dois fortes sindicatos universitários, o da Universidade Católica e o da Universidade de Santiago, rejeitaram a proposta governamental e por isso participaram da tentativa de manifestação no centro de Santiago.

“A ideia da marcha é que não apenas estudantes possam participar e não se manifestem apenas por temas da educação, mas também pela crise no sistema completo”, disse Georgio Jackson, dirigente da Universidade Católica.

Segundo os universitários, a proposta do governo responde a uma parte de suas demandas para fortalecer a educação pública no Chile, mas só acolhe parcialmente a principal exigência, que é acabar com o lucro na educação, proibido na legislação chilena, mas burlado através de brechas legais.

A crise educacional, que já dura dois meses, mantém dezenas de universidades paradas e centenas de colégios tomados. Os estudantes já protagonizaram enormes manifestações que influenciaram na queda de popularidade do presidente Sebastián Piñera, que chegou a um mínimo de 30% em julho.