Primeiro-ministro do Egito nomeia novo gabinete

Kamal al-Ganzuri vai comandar o país de forma interina até o fim do processo de eleições

Cairo – O primeiro-ministro interino do Egito, Kamal al-Ganzuri, nomeou um novo gabinete nesta quarta-feira, encarregado de combater o aumento dos crimes e uma economia em queda, depois do primeiro turno das eleições, com uma vitória esmagadora dos partidos islâmicos.

Ganzuri anunciou sua administração depois de quase duas semanas de atrasos causados, segundo ele, por problemas em encontrar um candidato para o sensível posto de Ministro do Interior.

Ele finalmente optou por Mohammed Ibrahim Yusuf, que chefiou a polícia no distrito de Gizé, no Cairo, que fez o juramento diante do chefe do conselho militar no poder, o marechal de campo Hussein Tantawi, segundo a televisão estatal.

A polícia foi acusada de lidar brutalmente com os recentes protestos contra Tantawi, em que 43 pessoas morreram, alé de não combater adequadamente os crimes, que têm crescido amplamente desde a saída do ex-ditador Hosni Mubarak em fevereiro.

O ministro das Relações Exteriores, Mohammed Kamel Amr, foi o único mantido do antigo gabinete que renunciou em novembro em face dos crescentes protestos, enquanto Mumtaz Said foi nomeado Ministro das Finanças.

Ganzuri, falando com repórteres na terça-feira à noite, pediu a todos os partidos políticos para trabalharem juntos com a sua administração, anunciado como um “governo de salvação nacional”.

“Não podemos deixar a segurança e a economia como estão”, disse ele. “Eu peço que todos os movimentos políticos, todos os partidos e cada indivíduo se unam para o bem do país.”

A economia sofre desde o início do ano com a queda do turismo e dos investimentos estrangeiros. Um membro do Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF) alertou, na semana passada, que as reservas em moeda estrangeira do Egito estavam caindo bruscamente e que devem ser suficientes apenas para cobrir as importações até o fim de fevereiro.

Na quarta-feira, o SCAF também anunciou que concedeu a Ganzuri “poderes presidenciais”, dando a ele maior controle para governar o país, mas sem fiscalizar as Forças Armadas ou o Judiciário.


O turno de abertura das primeiras eleições desde a queda de Mubarak terminou na terça-feira, com uma vitória esmagadora de partidos islâmicos sobre seus rivais liberais desorganizados e fragmentados.

A Irmandade Muçulmana, banida durante décadas por Mubarak, afirmou nesta quarta-feira que consolidou seu avanço no segundo turno das eleições legislativas, aumentando o abismo entre os fundamentalistas salafistas.

O Partido da Liberdade e da Justiça (PJL), da irmandade islamita, pode conseguir a metade das 168 cadeiras nesta primeira fase de eleição, definida por um terço das províncias.

No amanhecer do segundo turno na segunda e terça-feira, o PLJ reivindicou 36 das 54 vagas atribuídas na votação nominal.

Sua vitória de 36,6% no primeiro turno permitiu que o partido definisse 40 cadeiras atribuídas à proporcionalidade da eleição de listas, segundo indicações provisórias.

Os resultados oficiais desta primeira fase de votação, que acontece em nove províncias das 27 existentes, entre elas as duas principais cidades do Egito, Cairo e Alexandria, ainda não foram divulgados.

As outras províncias votarão do dia 14 de dezembro até 11 de fevereiro, em seguida acontecerá a eleição da Ashura (câmara alta consultiva), do fim de janeiro até meados de março.

O conjunto de formações islamitas, incluindo os salafistas (24,4%), obteve oficialmente 65% dos votos no primeiro turno, esmagando as formações liberais e laicas.

A imprensa ressaltou que o segundo turno permitiu à Irmandade Muçulmana se distanciar dos salafistas, que foram a grande surpresa do primeiro turno.

O guia da irmandade, Mohamed Badei, quis assegurar a vitória ao afirmar que seu movimento “não deseja o monopólio do poder”, mas privilegiará a “participação”.


O futuro Parlamento deverá formar uma comissão para redigir a nova constituição, uma etapa decisiva da transição política deste país, um dos pioneiros da Primavera Árabe.

As Forças Armadas, no poder desde a saída de Mubarack, prometeram devolver o poder aos civis após uma eleição presidencial previstas para acontecer antes do fim de junho de 2012.

Apesar das garantias do Exército de que vai transferir todo o controle para os novos líderes civis, o Parlamento eleito e o novo presidente devem enfrentar uma batalha feroz pelo poder.

O SCAF já indicou que quer manter muitos dos privilégios da era Mubarak, incluindo fiscalizar a legislação relacionada ao exército e indicar pessoas para escrever a nova constituição.

A perspectiva de um parlamento dominado pelos islamitas também suscitou temores em meio aos liberais sobre as liberdades civis, o direito das mulheres e a liberdade religiosa em um país com a minoria cristã mais ampla do Oriente Médio.

A Irmandade Muçulmana enfatizou durante a campanha que os valores islâmicos eram compatíveis com a democracia e que era a favor das liberdades individuais e que trabalharia com outros partidos políticos não-islamitas.

Mas o Al-Nur, um grupo salafista que surgiu como uma poderosa nova influência e deve obter um bom desempenho nos turnos remanescentes da votação, defende uma interpretação fundamentalista do islã dominante na Arábia Saudita. O Al-Nur ganhou cinco cadeiras nas eleições, segundo o porta-voz do partido Mohammed Nour à AFP