Porto-riquenhos apoiam pela primeira vez a anexação aos EUA

O resultado da consulta realizada na terça-feira em coincidência com as eleições gerais rompe com décadas de apoio dos porto-riquenhos ao atual status

San Juan – Os porto-riquenhos disseram pela primera vez em sua história, em uma consulta não vinculativa, que querem se transformar em mais um estado dos Estados Unidos, em lugar do modelo que rege suas relações desde 1952, o de Estado Livre Associado.

O resultado da consulta realizada na terça-feira em coincidência com as eleições gerais rompe com décadas de apoio dos porto-riquenhos ao atual status, que perpetua uma relação pela qual Washington administra o território, mas não concede a seus habitantes o mesmo tratamento que aos americanos.

Do total de votantes, 61,15% optaram pela anexação aos EUA para que Porto Rico se transforme em estado, e 33,31% apostaram na no sistema de Estado Livre Associado Soberano, com uma relação de igual para igual com Washington, e apenas 5,53% defenderam a independência.

O Partido Popular Democrático (PPD), cujo candidato a governador, Alejandro García Padilla, ganhou as eleições gerais de terça-feira, havia advertido que a consulta era enganosa, porque não incluía entre as opções possíveis o atual Estado Livre Associado.

O candidato a governador derrotado e promotor da consulta, o anexionista Luis Fortuño, se negou a introduzir essa opção por entender que não havia sentido em propor algo que significava favorecer a perpetuação da colônia.

Os eleitores foram perguntados em primeiro lugar se estavam a favor ou contra manter o atual status, que permite um alto grau de autonomia, mas deixa nas mãos de Washington assuntos como fronteiras, defesa e relações internacionais.

Esta foi a primeira vez na história que a pergunta foi feita, e 53,99% disseram ser contrários ao atual status, enquanto 46,01% se pronunciaram a favor de perpetuá-lo. Em seguida, na mesma cédula, foram perguntados se, independentemente do que tivessem respondido na pergunta anterior, escolheriam a anexação, a independência ou o Estado Livre Associado Soberano.


Após sua vitória do terça-feira, o eleito García Padilla disse que abordará o assunto, sem dar mais pistas, embora enfrente o paradoxo de atender o desejo expressado na consulta pela população e, ao mesmo tempo, tentar manter a postura de seu partido, propício ao modelo atual porque considera que ajuda a manter a ‘identidade’ porto-riquenha.

O resultado da consulta, sem valor jurídico e convocada de forma unilateral por Fortuño, que concorria à reeleição, é uma mensagem a Washington em favor de acabar com mais de um século de regime colonial.

A vitória do ‘não’ é um triunfo pessoal para Fortuño, presidente do Partido Novo Progressista (PNP), que durante décadas defendeu a anexação da ilha pelos EUA.

Além disso, o resultado rompe uma tendência que remonta a 1967, quando o assunto foi consultado pela primeira vez e a opção de Estado Livre Associado ganhou com 60,4% dos votos, contra 48,6% dos que queriam se incorporar aos Estados Unidos.

Similares consultas, em 1993 e 1998, voltaram a confirmar a tendência ao imobilismo dos porto-riquenhos, que seguiram as teses do PPD, cujo fundador, Luis Muñoz Marín, negociou nos anos 50 com Washington o presente status.

A chegada de milionárias ajudas sociais a cada ano dos EUA a uma ilha cuja renda é a metade da do estado mais pobre do país e o direito de ter passaporte americano mantiveram os porto-riquenhos satisfeitos durante décadas, já que ao mesmo tempo mantêm uma identidade diferenciada.

O Executivo deve esperar agora para saber qual é a reação de Washington ao resultado, embora durante estes últimos quatro anos o Congresso americano tenha ignorado as reivindicações anexionistas do governo de San Juan.


Em março de 2010, o Grupo de Trabalho do presidente Barack Obama foi a primeira delegação americana a ir a Porto Rico para estudar uma saída para a questão da soberania.

A Constituição porto-riquenha, aprovada pelo Congresso de Washington e em vigor desde 28 de julho de 1952, define a ilha como um Estado Livre Associado, cujos cidadãos têm cidadania americana desde 1917 e desfrutam de uma autonomia administrativa parecida com a dos estados do país americano.

Os EUA decidem quais de suas leis se aplicam em Porto Rico e quais não, e seus habitantes não têm representação com voto no Congresso americano. Nem sequer participaram da reeleição de Barack Obama.