Por que tantos países torcem para o Brasil em Copa do Mundo

Apesar dos escândalos domésticos, a influência do Brasil mundo afora segue forte. Entenda as facetas do poderoso soft power brasileiro

São Paulo – Todos os anos, especialmente aqueles de Copa do Mundo, a torcida pela seleção canarinho se espalha para além das fronteiras brasileiras. E essas demonstrações de apoio global à equipe são o exemplo mais claro de como o futebol desempenha um papel importante para moldar a imagem do Brasil no exterior — uma imagem que vai muito além do esporte. Num momento em que o país está manchado pelos escândalos de corrupção, a violência e a grave crise econômica, o apoio à seleção ajuda a chamar a atenção para os aspectos positivos do país.

Ao mesmo tempo que desperta simpatia pelo Brasil, a seleção leva alegria até aos povos afetados por guerras ou situações econômicas difíceis. Um exemplo é a Síria, país assolado por uma guerra civil que já dura sete anos. Nas redes sociais, vídeos publicados na última semana mostram demonstrações de apoio à seleção canarinho em diversas cidades do país. Cenas de carreatas, buzinaços e bandeiras do Brasil se tornaram comuns nas ruas, distraindo, ainda que por um instante, a população síria do sofrimento diário do conflito.

Na Jamaica no último dia 2 de julho, dia da vitória do Brasil ante o México, a festa pelo Brasil foi tão grande que desavisados poderiam pensar que a comemoração era por um bom desempenho jamaicano. Em Bangladesh, na Ásia, celebrações também foram registradas, assim como na cidade cubana de Bauta, que desde 2006 decora suas ruas com as cores da seleção.

É difícil encontrar traços em comum entre esses países: estão localizados em continentes distintos, têm histórias diversas e enfrentam realidades diferentes. Em comum, está justamente a paixão pela seleção brasileira de futebol, campeã absoluta dentro de campo, com suas cinco taças.

A boa fama da camisa verde e amarela vai além do contexto doméstico no Brasil ou o sucesso nas Copas, mas tem a ver com o soft power que o país exerce na esfera internacional. Elaborado pelo cientista político americano Joseph Nye, esse conceito se refere a capacidade de um país em se manter influente sem que seja necessário o uso do poder político, militar ou econômico.

Identificação, reconhecimento

Pedro Costa Júnior, professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e especialista em política externa brasileira, vê que o soft power brasileiro traz à tona dois pontos estruturais que, juntos, explicam esse fenômeno. O primeiro, inegável, é o de que o Brasil é o maior campeão da história e um celeiro de craques para esse esporte. O segundo diz respeito à imagem dos brasileiros como um povo cordial e simpático.

“A seleção brasileira é um retrato do país miscigenado que é o Brasil e isso facilita uma identificação geral, seja na Síria ou na Jamaica”, diz o professor. “As pessoas nesses países que estão na periferia do capitalismo se reconhecem quase que inconscientemente com nossos jogadores e suas histórias de vida. Isso não seria tão forte se outra seleção fosse tão campeã quanto à do Brasil, mas menos diversa, como a da Argentina”, avalia o professor.

Para Kai Kenkel, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e especializado em geopolítica do esporte, ver países que sequer se qualificaram para a Copa do Mundo torcendo para o Brasil é uma prova do soft power brasileiro. “O Brasil é a maior força do futebol e tem a reputação de jogo bonito. A seleção, com rostos de todas as cores, é uma mensagem poderosa”, diz ele ao lembrar que o futebol é historicamente associado à ideia de mobilidade social, uma vez que qualquer um pode se tornar um craque. Não à toa, a maioria dos que celebram os sucessos da seleção brasileira, além dos brasileiros, é claro, são, em sua maioria, países pobres ou em desenvolvimento.

É fato que os brasileiros são bem vistos mundo afora pelo futebol em razão de questões de identidade, reconhecimento e talento. No entanto, a tradição diplomática é outro ponto do soft power que contribui para que outros países olhem para os brasileiros com mais simpatia, especialmente pela forma “amigável” por meio da qual o país se relaciona com seus pares.

“Os países europeus têm de escolher um lado na geopolítica, mas o Brasil, não. E isso contribui para que o país não tenha inimigos. Além disso, a dinâmica colonial nesta Copa está muito forte e o Brasil tampouco foi um país colonizador, e isso ajuda a fazer com que países pobres e em desenvolvimento olhem com simpatia para o país”, diz Kenkel.

Soft power por um país melhor

Em um momento em que o Brasil se prepara para realizar eleições presidenciais após anos de turbulências, o soft power exercido por meio do futebol poderia ser uma ferramenta para mudar a reputação do país no âmbito internacional, explica Pedro Costa Júnior, das Faculdades Integradas Rio Branco.

“A questão é como aproveitar isso, mas isso depende, também, de um presidente popular que possa potencializar esse efeito”, diz. “O ‘poder’ do soft power é limitado pela condição do governo. Numa conjuntura em que os líderes são questionados e altamente reprovados, não sobra espaço para que o esporte faça esse papel”, diz.

A constatação de que a força da influência brasileira trazida ao campo internacional pelo futebol perpassa questões conjunturais, crises e escândalos, impressiona. O que os governantes, atuais ou futuros, farão para aproveitar essa virtude em prol do país é outra história.