Pastor, da Univ. Navarra: a eleição e o futuro da Espanha

Ao que tudo indica, um governo de coalizão será finalmente formado na Espanha. Em declaração nesta segunda-feira 27, o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy disse acreditar que um acordo ocorrerá em no máximo um mês. Seu partido, o conservador PP, saiu fortalecido das eleições do último domingo 26, em que a legenda obteve 600.000 votos a mais do que na votação anterior, em dezembro. Na ocasião, nenhum dos quatro maiores partidos do país – PP, PSOE, Podemos e Ciudadanos – obteve maioria suficiente para governar.

Em entrevista a EXAME Hoje, o professor Alfredo Pastor, especialista em União Europeia e economia espanhola da escola de negócios IESE, da Universidade de Navarra, falou sobre os desafios de um novo governo Rajoy e analisou como o impasse político na Espanha e a ascensão do Podemos reflete os movimentos populistas em crescimento na Europa – e o que tudo isso tem a ver com o Brexit aprovado no Reino Unido na última quinta-feira 23.

O que acontece depois destas eleições? O PP conseguirá finalmente governar?
O PP não obteve a totalidade dos assentos necessários no Parlamento e não conseguirá assumir o governo com uma maioria. Mas, de qualquer forma, sai como grande vencedor dessas eleições – ninguém esperava uma aprovação tão grande. Agora, os partidos farão um acordo. Isso é preciso. Não há condições de mais uma eleição acontecer.

Como será feito esse acordo?
O PSOE está numa posição muito difícil. Por isso, para eles, entrar num governo com o primeiro-ministro Rajoy é a melhor alternativa. Se ficarem na oposição, serão engolidos pelo Podemos. Já uma coalizão entre Podemos e PSOE é impossível. Claro que, como PP e PSOE são rivais, um governo de coalizão com o PSOE pode ser um risco ao PP no futuro. Mas nesse momento, todo mundo precisa se responsabilizar por formar um governo e agir como um. Em termos de estabilidade para a Espanha, essa coalizão PP/PSOE é a melhor opção. Não existe alternativa, e qualquer coisa fora disso seria apenas um conflito desnecessário.

A expectativa do Podemos nessas eleições era ser o segundo partido mais votado e se tornar a principal força da esquerda – o que não aconteceu. O partido sai enfraquecido?
Eles estão certamente mais fracos agora do que nas eleições de dezembro, uma vez que nem a coligação com outras forças da esquerda [formando a coligação Unidos Podemos] foi o suficiente para ultrapassarem o PSOE. É claro que o Podemos vai ser o líder da oposição e como terceira força do Parlamento, terá, sim, bastante voz. Mas o terceiro lugar no domingo foi um pouco surpreendente. Muitos dos votos do Podemos são de protesto. Mas isso está diminuindo. O partido é forte na Catalunha e no País Basco, mas não tem uma base consistente em muitas partes da Espanha.

A Espanha viveu um modelo de bipartidarismo entre PSOE e PP desde a redemocratização. Sair desse formato foi bom para o país ou causou apenas instabilidade?
Um governo de maioria absoluta nem sempre é bom. Nos últimos quatro anos, o PP usou sua maioria para fazer o que bem entendesse. Ter pessoas razoáveis num governo de coalizão é muito melhor. Há muitos países que possuem um governo de coalizão eficiente, como a Alemanha, por exemplo. Não vai ser fácil, mas a Espanha também pode fazer isso.

O Podemos e o Ciudadanos nasceram em 2014, como fruto do descontentamento causado pelos efeitos da crise de 2008. Em que sentido seu surgimento é reflexo dos movimentos nacionalistas na Europa, como o próprio Brexit?
O Podemos cresceu com base no descontentamento de muitas pessoas com os partidos tradicionais e usa alguns dos argumentos populistas e nacionalistas que estão sendo disseminados em diversas partes da Europa. E muitos desses argumentos foram usados também pelos defensores do Brexit. Da mesma forma, o Podemos é um movimento populista com propostas que não são necessariamente realistas ainda que o programa seja muito bem feito. A diferença entre o Podemos e o restante da Europa é que eu não vejo movimentos de esquerda tendo essa força, com exceção do 5 Estrelas [partido que ganhou as eleições municipais em Roma, na Itália]. Mas o programa do 5 Estrelas é baseado puramente em críticas, enquanto o do Podemos é mais positivo e embasado.

Existe a possibilidade de acontecer na Espanha uma discussão nacionalista similar à do Brexit?
Sair da União Europeia nunca foi e nem será uma questão na Espanha. O Podemos até tinha ideias nessa linha ultranacionalista, mas há muito tempo, na época de seu surgimento. De lá para cá, nunca mais se mencionou isso. O que a esquerda propõe agora é uma negociação com a União Europeia para atingir termos fiscais menos rígidos.

Uma negociação com a União Europeia será levada adiante num novo governo Rajoy?
Rajoy não vai confrontar a União Europeia. Ainda estamos numa situação muito delicada: nosso déficit, por exemplo, é muito maior do que deveria ser. O principal de Rajoy é criar empregos melhores e com maior remuneração. Houve uma reforma trabalhista no ano passado que flexibilizou as leis de contratação, similar ao que ocorreu na França. Eu não acredito que a reforma esteja errada, mas ela precisa ser lapidada e melhorada, e isso só pode ser feito com a ajuda de todos os partidos. Essas coisas levam tempo, não existe fórmula mágica. Há muitas pessoas que não estão contentes com o governo Rajoy, mas, no geral, as condições estão melhores do que em 2011.

O Brexit pode impulsionar movimentos separatistas como na Catalunha? O descontentamento só cresce na Catalunha e é preciso dar um fim nisso. Rajoy precisa sentar e ouvir, ao invés de apenas dizer “não” para tudo. Podemos ter consultas sobre temas específicos, talvez uma melhor participação financeira e aprovação nacional de medidas votadas no Parlamento catalão. Do contrário, em breve um referendo separatista pode ser inevitável. E com a situação que estamos presenciando no Reino Unido, essa é a única coisa que não queremos. Você divide o país em dois, e depois, o governo não consegue fazer nada pois sempre terá metade da população contra si. Tudo vira uma bagunça.

(Carol Oliveira)