Passageiros pagarão por desviar da Ucrânia

O custo adicional para redirecionar centenas de aviões de passageiros deve traduzir-se em passagens mais caras para os consumidores

Frankfurt e Dubai – O custo adicional para redirecionar centenas de aviões de passageiros, contornando o espaço aéreo da Ucrânia, que foi fechado depois que um voo da Malaysia Airlines foi derrubado na semana passada, deve traduzir-se em passagens mais caras para os consumidores.

“Ao ampliar as rotas é necessário usar mais combustível, então é mais caro”, disse Alexandre de Juniac, CEO da Air France-KLM Group, hoje em Paris. “No fim das contas, teremos que aumentar um pouco o preço da passagem nessas rotas. Acho que é perfeitamente justo”.

O fechamento do espaço aéreo sobre o leste da Ucrânia cortou uma artéria popular que conecta a Europa Ocidental com o Oriente Médio e a Ásia.

Centenas de aviões agora devem serpentear pela Rússia, ao longo da fronteira ucraniana, ou cruzar o espaço aéreo da Turquia, incorrendo em custos adicionais de combustível, manutenção e horas de trabalho da tripulação, o que se soma às despesas de um setor que já luta contra margens de lucro extremamente apertadas.

No total, as companhias aéreas podem incorrer em cerca de US$ 1,5 milhão por semana em gastos adicionais por desviar da Ucrânia, de acordo com os cálculos dos especialistas em aviação da ICF International Inc.

A estimativa se baseia na hipótese de 800 voos redirecionados para a Rússia, ao invés da Ucrânia, dos quais 80 por cento seriam aeronaves de fuselagem larga, com 15 minutos adicionais no ar por cada voo.

Além das despesas operacionais diretas, é necessário considerar também as taxas de sobrevoo arrecadas pelas regiões atravessadas. Para um 777-200ER da Boeing Co., o modelo que a Malaysian utiliza nos voos de Amsterdã a Kuala Lumpur, esse custo pode ser de US$ 8.370 por hora, disse Patrick Cropper, analista da ICF International, com sede em Fairfax, Virgínia. Uma hora de voo para uma aeronave de fuselagem estreita pode custar quase 60 por cento menos.

Margens apertadas

As margens operacionais de lucro, medidas pelos lucros antes de juros e taxas divididos pela receita, equivaleram a 1,1 por cento para as companhias aéreas na Europa, no ano passado, e subirão para 1,9 por cento neste ano, conforme previu em março a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).

Isso dá às operadoras europeias a segunda menor rentabilidade, depois das linhas aéreas na África, disse a IATA.

As autoridades ucranianas fecharam o espaço aéreo ao redor de Donetsk, perto da fronteira com a Rússia, em 18 de julho, um dia depois que o voo MH17, que transportava 298 pessoas, caiu após o suposto ataque de um míssil.

Os céus da Ucrânia foram utilizados por cerca de 1.700 voos por dia anteriormente neste ano, e esse número se reduziu a 600 agora, disse Brian Flynn, gerente sênior na agência de navegação aérea da Europa, a Eurocontrol. O resultado são os voos que já foram suspensos ou que estão sendo redirecionados diariamente, disse.

Voos de Israel

A Deutsche Lufthansa AG, a segunda maior companhia aérea da Europa, depois da Air France-KLM, disse que agora muitos dos seus voos vão e voltam da Ásia sobrevoando a Bulgária, a Turquia, partes do Mar Negro, a Geórgia e o Azerbaijão, o que agrega horas que os pilotos não podem compensar plenamente através de outras medidas.

As companhias aéreas contornam determinadas regiões diariamente, por razões que variam do clima e do tráfego à capacidade local para situações de segurança. Em comparação com o custo total, seus gastos de desvio são “insignificantes”, disse a Lufthansa.

As operadoras dos Emirados Árabes Unidos, que incluem a Emirates e a Etihad Airways PJSC, não sobrevoam o espaço aéreo israelense, pois não têm relações comerciais com o país, disse o diretor-geral da Autoridade Geral de Aviação Civil dos Emirados Árabes Unidos, Saif Al Suwaidi.

Embora tenha havido um aumento perceptível no tráfego aéreo sobre a Turquia e a Rússia, pois as companhias aéreas estão evitando a Ucrânia, a quantidade de voos não atingiu um ponto de saturação e há espaço para mais aviões, disse Al Suwaidi. A autoridade também está proibida de sobrevoar o espaço aéreo da Síria, disse.

“A obsessão de todas as companhias aéreas do mundo é com a proteção e a segurança”, disse Juniac, da Air France-KLM. “Não existe um compromisso econômico”.