Partido Democrata começa a escolher o rival de Trump em 2020. Entenda

Fragmentado em 20 pré-candidatos, o Partido Democrata começa os debates para escolher quem, afinal, disputará a presidência dos Estados Unidos em 2020

Uma das questões que chamou a atenção durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016 foi a longa lista de 17 candidatos Republicanos que se apresentaram para a disputa das primárias do partido, um recorde até então. A última vez que o partido teve tantos candidatos foi em 2008, quando 12 Republicanos disputaram as primárias em que John McCain saiu vitorioso.

Esses números ajudam a colocar em perspectiva os (até agora) 24 pretendentes Democratas que disputam a nomeação do partido para enfrentar Trump em 2020. Com duas dúzias de competidores, o partido tem enfrentado alguns problemas logísticos. Um deles é como organizar um debate com esse número de participantes.

Os pré-candidatos do Partido Democrata

A solução encontrada pelo comitê do partido foi estabelecer critérios mínimos para participação nos debates, como desempenho em pesquisas de opinião e número de doadores para a campanha, o que diminuiu a lista para o debate essa semana em Miami para 20 nomes. Como ainda era um número grande, decidiu-se por dividir o evento em duas partes, com 10 participantes aleatoriamente distribuídos em cada noite.

Dos 20 candidatos que se apresentarão diante dos eleitores essa semana, entretanto, apenas 8 parecem até esse momento ter alguma chance de vislumbrar a nomeação: o ex-vice-presidente Joe Biden, os senadores Bernie Sanders, Elizabeth Warren, Kamala Harris, Cory Booker e Amy Klobuchar, o prefeito Pete Buttigieg, e o ex-deputado Beto O’Rourke. Não é impossível que os debates dessa semana mudem isso e algum outro nome desponte, mas é pouco provável.

O grande favorito: Joe Biden

Até o momento, Biden tem liderado com folga as pesquisas. Ainda que faltem cerca de 6 meses para o início das primárias, do ponto de vista histórico a liderança do ex-vice de Obama é significativa.

Desde o começo do moderno sistema de primárias no partido Democrata, candidatos que ocupavam as primeiras posições nas pesquisas a essa altura com frequência acabaram por levar a nomeação.

Foi assim com Hillary Clinton em 2016, Barack Obama em 2008 (que estava isolado em segundo lugar em meados de 2007, quando Hillary liderava as pesquisas), e Al Gore em 2000, por exemplo. John Kerry foi nomeado em 2004 apesar de não liderar as pesquisas em 2003, mas naquelas primárias não havia nenhum nome que estava claramente à frente a essa altura.

Três exceções importantes foram George McGovern em 1972, Jimmy Carter em 1976 e Bill Clinton em 1992. Todos tinham índices pouco encorajadores no semestre anterior ao início das primárias, mas acabaram por receber a nomeação do partido.

O caso de Carter é especialmente extraordinário já que o ex-presidente era até então um desconhecido governador do Estado da Geórgia, registrando menos de 1% nas pesquisas no início do segundo semestre de 1975.

Portanto, a liderança expressiva de Biden não deve ser desprezada, ainda que seja perfeitamente plausível dentro do fluido contexto político atual algum candidato Democrata repetir os feitos de McGovern, Carter e Clinton.

Outro fator que conta a favor de Biden é o fato de que, historicamente, ex-vice-presidentes costumam se dar bem em primárias. Foi assim com Richard Nixon (1960), Hubert Humphrey (1968), Walter Mondale (1984), George Bush (1988), e Al Gore (2000).

Um empecilho relevante para Biden, entretanto, é ser um centrista em um momento que o partido Democrata tem se movido rapidamente para a esquerda. Isso tem levado ex-vice-presidente a adaptar algumas de suas posições no passado para se aproximar mais da média atual do partido, como por exemplo na questão de financiamento federal para o aborto, tema em que teve que voltar atrás recentemente.

O Democrata já vem recebendo uma quantidade expressiva de fogo amigo por parte da imprensa mais liberal que prefere ver outros candidatos com posições mais progressistas representando o partido em 2020. Além disso, aos 76 anos, a vitória de Biden seria um risco para um partido que costuma vencer eleições com candidatos mais jovens como Kennedy, Carter, Clinton e Obama.

A ameaça Bernie Sanders

O segundo colocado nas pesquisas tem sido o senador pelo Estado de Vermont Bernie Sanders, que também ocupou essa mesma posição na corrida pela nomeação em 2016. Muitos Democratas ainda hoje acreditam que se Sanders tivesse vencido Hillary Clinton e fosse o candidato do partido em 2016, Trump talvez não estivesse na Casa Branca agora.

Ocorre que em 2016, Sanders, que é oficialmente registrado como Independente e se define como um “socialista democrático”, representava um evidente contraste com a candidatura de Hillary Clinton, representante do establishment do partido Democrata. Isso lhe permitiu capitalizar o apoio da ala mais à esquerda do partido.

No entanto, ao contrário de 2016, o eleitor Democrata que rejeita posições mais centristas tem hoje um vasto leque de escolha, e o senador de Vermont disputa esse grupo com uma série de outros nomes. Sua estratégia tem sido ignorar os demais candidatos e estabelecer uma contraposição com Biden da mesma forma que fez com Hillary.

Uma oportunidade para verificar isso em prática será dada nessa quinta-feira, já que Biden e Sanders foram sorteados para a mesma noite de debate.   Note-se também que Sanders, que faz 78 anos em setembro, é ainda mais velho que Biden. Se eleitos, tanto Biden como Sanders bateriam o recorde de Trump como o presidente mais velho da história dos Estados Unidos.

Elizabeth Warren e a nova esquerda

Aquela que no momento parece representar uma maior ameaça a posição de Sanders como representante da ala esquerdista do partido Democrata é a senadora pelo Estado de Massachusetts Elizabeth Warren, que tem mostrado um lento, porém constante crescimento de sua candidatura nas últimas semanas, consolidando um terceiro lugar isolado.

Algumas pesquisas mais recentes já a colocam inclusive à frente de Bernie Sanders. Com ar professoral, a senadora Democrata é caracterizada na imprensa americana como a candidata que tem apresentado o maior número de propostas concretas de governo.

Warren, que acabou de completar 70 anos, completa o trio de septuagenários que lideram as pesquisas até o momento. Ela ainda disputa a ala mais à esquerda do partido com candidatos mais jovens como o senador por New Jersey, Cory Booker e a senadora californiana Kamala Harris.

Ex-prefeito da cidade de Newark e primeiro senador afro-americano de New Jersey, Booker é considerado um hábil orador e pretende se inspirar na vitoriosa campanha de Obama. O senador, entretanto, não tem demonstrado um bom desempenho nas pesquisas até o momento.

Harris, que tem ascendência indiana e jamaicana, chegou a ocupar a terceira posição isolada nas pesquisas ao lançar sua candidatura, mas ainda não conseguiu decolar. Um dado relevante a seu favor é que sua campanha foi uma das que mais atraiu doações individuais até o momento, sendo superada apenas pela de Bernie Sanders.

Centristas e jovens na disputa

No campo mais ao centro, a senadora por Minessota Amy Klobuchar é outro nome que merece destaque, mas ela tem encontrado dificuldades para ultrapassar a barreira de 2% das intenções de votos. Klobuchar foi a primeira mulher do Estado de Minessota a ser eleita para o senado e ganhou destaque no ano passado durante a audiência de confirmação do juiz Bret Kavanaugh, acusado de assédio sexual, para a Suprema Corte dos Estados Unidos.

A vantagem de Klobuchar sobre nomes como Kamala Harris e Elizabeth Warren é ser senadora de um Estado do centro-oeste americano crucial para as pretensões Democratas em 2020, e que Trump levou em 2016 por uma margem incrivelmente apertada de cerca de 10 mil votos em um universo de mais de 5 milhões de eleitores. Harris e Warren, por outro lado, vêm de Estados já solidamente no campo Democrata e que deram a Hillary Clinton vitórias bastante folgadas nas últimas eleições.

O ex-deputado texano Beto O’Rourke e o prefeito da cidade de South Bend na Indiana, Pete Buttigieg, são os concorrentes mais jovens dessa lista. Teoricamente, ambos representam o perfil do candidato Democrata jovial e carismático que costuma animar a base do partido e ser bem-sucedido em eleições presidenciais.

O’Rourke ganhou atenção nacional pelo seu surpreendente desempenho na campanha ao senado do Texas no ano passado, quando ficou muito próximo de derrotar seu adversário Republicano Ted Cruz, o que seria um feito em um Estado que nunca elegeu um senador Democrata nesse século.

Considerado uma estrela em ascensão no partido, O’Rourke tem tido um desempenho decepcionante até agora. Sua aura de novidade parece ter sido capturada por Pete Buttigieg que, aos 37 anos de idade, está apenas um pouco acima do limite legal de 35 anos para disputar a presidência.

Buttigieg, ou “Prefeito Pete”, como prefere ser chamado para driblar a dificuldade de pronunciar seu sobrenome, seria o candidato mais jovem da história e o primeiro prefeito a concorrer à presidência. Seria também o primeiro candidato a presidente abertamente homossexual.

De quase um desconhecido, Buttigieg passou a ganhar atenção na imprensa americana, teve um expressivo crescimento nas pesquisas e hoje já disputa o terceiro lugar com Warren e Harris. O’Rourke, por outro lado, nunca chegou a ostentar índices compatíveis com a expectativa gerada ao lançar-se candidato.

Os debates dessa semana serão a primeira oportunidade para muitos eleitores que não tem acompanhado de perto a disputa até agora terem contato com os candidatos. De acordo com a divisão feita pelo comitê Democrata, dos oito nomes aqui mencionados, quatro debaterão na quarta e outros quatro na quinta.

Na quarta ficaram Brooker, Klobuchar, O´Rourke e Warren, e na quinta, Biden, Sanders, Harris e Buttigieg. A eles se juntarão outros 6 candidatos por noite, como o prefeito ne Nova Iorque Bill de Blasio, a deputada Havaiana Tulsi Gabbard, a senadora nova-iorquina Kirsten Gillibrand, e o empresário Andrew Yang.

O desafio desse, e dos outros onze debates programados, será como se destacar no meio de tantos candidatos, e conseguir aquela frase de efeito ou momento que vai viralizar nas redes sociais.

Em 2015, Trump descobriu uma fórmula que se provou bem-sucedida: falar o maior número possível de barbaridades, o que incluía insultar e atribuir apelidos juvenis aos colegas de partido, de modo que a pauta fosse sempre ele. O presidente, aliás, já avisou que vai tuitar ativamente durante o debate.

Pesquisas recentes têm mostrado que, mais do que posições políticas específicas, o atributo mais valorizado pelo eleitor Democrata nesse ciclo eleitoral é a capacidade de vencer Trump. Aparentemente, mesmo no debate Democrata, o atual presidente deve continuar sendo o centro das atenções.

*Carlos Gustavo Poggio é professor dos cursos de relações internacionais da FAAP e da PUC-SP, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas, e coordenador do NEPEU – Núcleo de Estudos sobre a Política Externa dos Estados Unidos.