Para lá de Bagdá

Como fica o mundo depois da vitória americana - e por que o Irã deve ser o próximo alvo de Bush

Depois que os Estados Unidos conquistarem o Iraque e tirarem do poder o ditador Saddam Hussein, o que acontecerá? Que tipo de conseqüência a guerra pode ter para a estabilidade da região e do planeta? A resposta não é simples, mas já se pode dizer que haverá mudança em pelo menos três planos: 1) no próprio Iraque; 2) em seus vizinhos (sobretudo Irã e Turquia); e 3) na posição americana como potência hegemônica do planeta.

A maior vítima da guerra, com toda probabilidade, será o regime imposto por Saddam Hussein há mais de 30 anos à população iraquiana. Se essa população acabará sendo fiel a Saddam ou se, como é mais provável, grandes contingentes do exército iraquiano desertarão e se renderão ao avanço das tropas americanas e britânicas pelo país, é uma questão menos importante no longo prazo. Ao fim e ao cabo, o Iraque será ocupado pelo exército americano e terá de ser reconstruído física e politicamente.

O custo da reconstrução física do país pode ficar na casa do trilhão de dólares ao longo de até dez anos (as estimativas de custo anual variam de 20 bilhões a 105 bilhões de dólares anuais, sem contar o custo da guerra propriamente dita, algo entre 60 e 100 bilhões). Tais números, por si sós, dariam um golpe no déficit público americano, previsto para fechar 2003 em 246 bilhões.

“Os Estados Unidos estão confiando na venda de petróleo iraquiano para financiar seus planos no longo prazo”, afirma um relatório da Stratfor, uma empresa de análise estratégica. “Se eles não controlarem os campos de óleo ao norte e sua produção for desviada para uso turco, a quantidade disponível declinará substancialmente.”

O norte do Iraque é habitado por cerca de 6 milhões de curdos, que reivindicam um estado próprio. A principal zona de tensão é a área petrolífera de Kirkuk, controlada por Saddam. Os separatistas curdos já colocaram seus 60 000 guerrilheiros à disposição do exército americano. Mas, embora a independência não faça parte do acordo com os Estados Unidos, não é absurdo imaginar uma tentativa de secessão no norte do país depois da guerra.


“Os Estados Unidos terão [então] de lidar com o papel dos turcos”, diz a Stratfor. “Será um dos primeiros itens da agenda do pós-guerra.” A Turquia, ao mesmo tempo que aceitava a passagem de aviões americanos em seu espaço aéreo, resolveu despachar 20 000 soldados para a fronteira com o Iraque, numa tentativa de conter qualquer rebelião que reúna curdos dos dois lados da fronteira. O objetivo é estabelecer uma zona de segurança de 30 km entre os dois lados, de modo a preservar a integridade do país.

Os especialistas vêem com ceticismo qualquer tentativa de estabelecer um governo multi-étnico no Iraque pós-Saddam, a exemplo do que foi feito no Afeganistão. “Se esse governo tivesse de funcionar realmente conforme divulgado por Washington, ele cairia aos pedaços em uma semana”, afirma a Stratfor. E o principal motivo nem são os curdos. São os 14 milhões de xiitas, concentrados sobretudo no Sul, que representam 60% da população iraquiana.

Os xiitas sempre foram perseguidos pelo governo sunita de Saddam. Na guerra Irã-Iraque, na década de 80, a maioria dos 250 000 mortos era xiita. O Iraque é importante para a seita, porque os principais santuários de adoração xiita ficam nas cidades iraquianas de Karbala e Najaf. Libertá-las do jugo do Baath, o partido de Saddam, é o objetivo de vários grupos armados xiitas, formados por ocasião da primeira Guerra do Golfo, em 1991.

O principal deles é o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque (conhecido pela sigla em inglês SCIRI). Liderado pelo aiatolá Muhammad Bakr al-Hakim, exilado no Irã, o SCIRI sempre defendeu um governo ao estilo iraniano no país vizinho. “A Sharia (lei islâmica) deveria ser a base da legislação”, afirmou Hakim à revista americana The New Yorker. “Os Estados Unidos dizem que querem mudar o regime e estabelecer a democracia no Iraque. Mas há alguma ambigüidade nessa política. Será que os americanos permanecerão no Iraque ou deixarão o povo iraquiano conduzir o seu destino?” Os países europeus que se opuseram à guerra tampouco aceitariam um governo anglo-americano em Bagdá.

Depois da guerra Irã-Iraque, Hakim formou uma milícia chamada Brigada de Badr. Hoje, essa milícia tem 10 000 homens, parte deles operando no Irã e parte no território curdo ao norte do Iraque. A revista britânica The Economist afirma que Hakim está hoje dividido entre a lealdade ao governo xiita iraniano e a sedução do invasor americano, com quem negocia a participação no futuro governo multi-étnico pós-Saddam, mas o que advirá dessa crise de identidade ainda é uma incógnita.

Para os Estados Unidos, porém, uma coisa é certa: o Irã é, depois do Iraque, a maior ameaça na região. Nesta sexta-feira (21/3), a Rússia concordou em estudar a viabilidade de construir um segundo reator nuclear iraniano. O primeiro, na região de Bushehr, está nos estágios finais e causa preocupação em Washington. Ao contrário do Iraque, cujo único reator (construído com tecnologia francesa) foi destruído por caças israelenses nos anos 80, o Irã tem um programa nuclear consistente que pode vir a servir para a construção de armas nucleares.


Além disso, o país não esconde seu apoio ao grupo terrorista Hezbollah. À luz da guerra americana contra o terror, essas são justificativas muito mais palpáveis que as exibidas para atacar Saddam Hussein. “O Irã representa o maior desafio regional para os Estados Unidos”, afirma o relatório da Stratfor. “O Irã tem um programa nuclear substancial que, de muitas formas, é mais sofisticado que o do Iraque. O Irã também tem mantido complexas e pantanosas relações com a Al-Qaeda desde janeiro de 2002.”

É importante entender que, por trás da ação americana contra o Iraque, reside a doutrina de ataques preventivos. O objetivo é transmitir um recado claro a Estados com alguma ligação com grupos terroristas, como Irã, Síria e Arábia Saudita: não haverá tolerância nem proteção de organismos internacionais como a ONU.

Na guerra contra a Al-Qaeda, vale a máxima de Maquiavel: se os Estados Unidos não podem ser amados, melhor então que sejam temidos. Desse ponto de vista, o recado é transmitido até com mais eficácia se o ataque não tiver a bênção da comunidade internacional ou das Nações Unidas. Como afirma a Stratfor: “A questão para os Estados Unidos não é se eles são amados, a questão é se o custo da resistência às políticas americanas é alto a ponto de os desafiadores serem contidos”.

Para o mundo, essa visão, a alma do que poderíamos chamar de doutrina Bush, terá conseqüências irreversíveis. Até o momento, o único país de relevo no cenário internacional que conseguiu aglutinar a oposição a Bush foi a França. “É notável que França e Estados Unidos trataram um ao outro como inimigos durante o processo diplomático da ONU”, diz a Stratfor.

“O confronto franco-americano gerou o efeito oposto do que Paris desejava. Resultou do medo da França que boa parte da Europa se alinhou com os Estados Unidos. Resultou da aparência de fraqueza que a França perdeu grande credibilidade no Oriente Médio.” Agora, os Estados Unidos terão uma política externa para a França, outra para Alemanha e Rússia e uma terceira para o resto da Europa.

E a presença de tropas americanas no Oriente Médio trará para a região o maior fator de instabilidade _ e de transformação _ desde o final da Primeira Guerra, quando os vencedores dividiram o Império Otomano nos países que ainda hoje perduram _ ou perduravam.