Para estes dez jogadores, a Copa do Mundo é mais que futebol

Guerras, totalitarismo, crise de refugiados, divisões políticas, racismo. São temas que vão dividir os holofotes com a bola na Rússia

A lista dos jogadores de mais destaque da Copa incluirá obrigatoriamente Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar, Neuer. Mas, com o impulso das redes sociais, um número crescente de atletas usa sua influência para tratar de temas que vão muito além das quatro linhas. Selecionamos dez jogadores que levantam seis bandeiras de temas que estão todos os dias no noticiário. Para eles, a Copa do Mundo é muito mais do que futebol.

1. Mohamed Salah (Egito)

No Egito, a estrela do Liverpool é muito mais do que um jogador de futebol talentoso (tão talentoso que foi eleito o melhor do campeonato inglês depois de marcar 44 gols em 51 jogos).  Seu rosto estampou lanternas tradicionais para o Ramadã, o feriado religioso mais importante para os muçulmanos e que termina, coincidentemente, nesta quinta-feira, quando começa a Copa do Mundo.

Seu nome apareceu rabiscado em milhares de cédulas de votação durante a eleição egípcia, realizada em março, como forma de protesto (mais de 1 milhão de eleitores —cerca de 5% do eleitorado— rasuraram suas cédulas de votação no pleito que reelegeu Abdul Fattah al-Sisi, com 92% dos votos). E a foto de Salah como um Faraó foi compartilhada por milhares nas redes sociais.

O jogador começou a despontar durante um período turbulento no país, quando, no início de 2011, os egípcios tomaram as ruas para tirar o ditador Hosni Mubarak do poder, durante o movimento que ficou conhecido como Primavera Árabe. No ano seguinte, Salah foi vendido ao clube suíço Basel e ganhou o mundo, inspirando uma geração de jovens egípcios. Seus laços com o país de origem também geram admiração.

Por meio de uma fundação de caridade, ele investiu recursos e fez doações para construir escolas e comprar equipamentos hospitalares no vilarejo onde nasceu, o que lhe rendeu o apelido “o fazedor de felicidade”. Agora, ele deve liderar os Faraós, como é chamada a seleção egípcia, depois de ter marcado, em dezembro do ano passado, o gol de pênalti contra o Congo que garantiu a classificação do Egito para o Mundial pela primeira vez em 28 anos.

2. Son Heung-min (Coreia do Sul)

O sul-coreano foi eleito duas vezes o melhor jogador da Ásia e, como atacante do time inglês Tottenham Hotspur, se tornou o maior artilheiro asiático na Premier League, a principal da Inglaterra. Mas Heung-min tem preocupações que vão além da pressão por ser considerado a promessa da seleção da Coreia do Sul.

No país, todos os homens devem cumprir 21 meses de serviço militar antes dos 28 anos —herança da Guerra das Coreias que, agora, depois de 65 anos, pode chegar a um fim oficial com a assinatura de um tratado de paz pelo líder norte-coreano Kim Jong-un e o presidente sul-coreano Moon Jae-in. Os dois líderes se reuniram em abril pela primeira vez para discutir a paz entre as nações e a desnuclearização da península —uma das exigências dos Estados Unidos.

Para Son, que faz 26 anos em julho e ainda não entrou no Exército, a regra significaria dois anos longe do gramado no que é considerado um período crucial na carreira dos jogadores. A esperança para Son está em dois torneiros: a Copa e, na sequência, os Jogos Asiáticos, que serão realizados em agosto na Indonésia. Pela lei coreana, atletas que recebem medalha de ouro internacional são liberados do serviço militar pelo governo.

Na Copa, claro, é mais difícil. Em 2002, quando a Coreia do Sul sediou o evento junto com o Japão e sua seleção chegou às semifinais, os jogadores receberam a licença. Com Alemanha, Suécia e México no grupo, um resultado desses na Copa deste ano é improvável e Son reconhece o desafio: “Nós somos o time mais fraco no grupo, então precisamos trabalhar mais que eles, correr mais que eles —e, então, podemos surpreender as pessoas”, afirmou à revista TIME.

3. Dejan Lovren (Croácia) e Pione Sisto (Dinamarca)

As histórias do defensor Dejan Lovren, da Croácia, e do atacante Pione Sisto, da Dinamarca, foram marcadas por guerras civis que forçaram a fuga de milhares de pessoas de seus países de origem. No caso de Lovren, o conflito foi a Guerra da Bósnia (1992-1995), que forçou a fuga de sua família de Zenica, cidade da extinta Iugoslávia (hoje parte da Bósnia e Herzegovina), quando ele ainda era criança.

Em um documentário produzido pelo Liverpool, time no qual Lovren atua como zagueiro, ele relembra como sua família fugiu em direção à Alemanha, numa viagem de carro de mais de 800 quilômetros. “Mudou tudo da noite para o dia – guerra entre todos, entre três culturas diferentes. As pessoas mudaram – nós ouvimos tantas histórias no rádio e na televisão”, diz ele no filme. Anos depois, a falta de documentação fez com que a família buscasse novo refúgio, dessa vez na Croácia, país pelo qual Lovren veste a camisa agora no Mundial.

Pione Sisto nasceu já como refugiado em Uganda, em fevereiro de 1995, apenas alguns meses depois de sua família ter fugido do Sudão, por causa da guerra civil no país. Iniciada em 1983, a Segunda Guerra Civil Sudanesa só terminou em 1995 e, seis anos depois, levou à independência do Sudão do Sul, atualmente também em guerra civil.

De Uganda, a família de Sisto partiu com ele, ainda bebê, para a Europa, onde acabaram por se instalar em um vilarejo remoto na Dinamarca, país com tradições e uma cultura completamente diferente da sudanesa, além de possuir maioria branca. Mesmo assim, a família de Sisto manteve seus costumes. Em 2014, quando ele foi convocado para a seleção sub-21 da Dinamarca, seus pais invadiram a coletiva de imprensa e fizeram um ritual de boa sorte tradicional da região onde nasceram usando trajes típicos e pintura corporal.

No final de 2016, cerca de 5,2 milhões de pessoas alcançaram a Europa fugindo de guerras e perseguições em seus países de origem. “Eu entendo que as pessoas queiram se proteger, mas os refugiados não têm casas. Não é culpa deles, eles estão lutando por suas vidas para salvar seus filhos. Eu passei por isso e sei pelo o que algumas famílias estão passando. Deem uma chance a eles”, diz Lovren.

4. Mesut Özil e Ilkay Gündogan (Alemanha)

Uma polêmica envolvendo os dois jogadores alemães chegou a eclipsar os momentos finais da seleção antes do início da Copa do Mundo nesta quinta. No mês passado, Özil e Gündogan, ambos nascidos na cidade alemã de Gelsenkirchen, mas de origem turca, tiraram uma foto ao lado do presidente turco Recep Tayyip Erdogan, durante uma passagem do líder turco por Londres. A foto gerou críticas de fãs, celebridades e até do presidente da Federação Alemã de Futebol, Reinhard Grindel.

As relações entre a Turquia e a União Europeia estão cada vez mais distantes desde que a Alemanha, Holanda, Áustria e Dinamarca proibiram ministros turcos de realizar atos de campanha dentro de suas fronteiras antes de um referendo constitucional na Turquia, que dá mais poderes a Erdogan, em abril de 2017.

Depois da foto, Özil e Gündogan foram vaiados no amistoso contra a Áustria no começo deste mês. O tratamento se repetiu na vitória contra a Arábia Saudita na semana passada. Após a partida, Gündogan ficou abalado e teve que ser incentivado pelos companheiros de time, conforme contou o técnico alemão Joachim Löw. Em entrevista a um canal alemão, Gündogan afirmou que o encontro com Erdogan “nunca foi uma declaração política” e que ele e Özil honram “100% dos valores alemães”.

Diante da hostilidade, a própria chanceler alemã, Angela Merkel, saiu em defesa dos jogadores. “Eu acredito que eles não consideraram o impacto que a foto com Erdogan teria”, afirmou ao canal ARD no início desta semana. “Eles nunca quiseram desapontar os fãs alemães”.

5. Blaise Matuidi (França)

A trajetória do volante francês Matuidi faz com que sua atuação no campo também transcenda o futebol. Seu pai, um angolano, conheceu sua mãe, francesa, ao se mudar para Toulouse no início dos anos 1980 fugindo da Guerra Civil Angolana. O conflito é considerado um dos mais sangrentos da história da África e se estendeu até 2002, com um rastro de mais de meio milhão de mortos. Matuidi cresceu falando português (idioma oficial da Angola) e francês. Em 2006, recebeu um convite para jogar pelo país de origem de seu pai. “Eu tive que fazer uma escolha difícil ao optar pelo time francês. Eu nunca esqueci minhas raízes angolanas, e dou muita importância a elas”, afirmou em 2014.

Em janeiro deste ano, o volante francês do Juventus foi vítima de racismo por parte da torcida durante dois jogos da série A italiana, contra o Hellas Verona e o Cagliari. “Pessoas fracas tentam intimidar com ódio. Eu não odeio as pessoas e só posso sentir muito por aqueles que dão exemplos ruins. O futebol é um meio para espalhar a igualdade, paixão e inspiração e é por isso que eu estou aqui”, escreveu em um post no Facebook na ocasião.

Em entrevista ao jornal britânico “The Guardian”, Matuidi afirmou que abandonar uma partida da Copa em caso de racismo pode ser a atitude mais correta a se tomar. “Mas vamos esperar que não chegue a isso”. A Rússia é conhecida como um dos países com mais episódios de racismo entre seus torcedores.

6. Sergio Ramos e Gerard Piqué (Espanha)

Os zagueiros Sergio Ramos e Gerard Piqué simbolizam a divisão entre espanhóis e catalães, apesar de serem bons amigos. O primeiro é o símbolo do Real Madrid e considerado orgulho nacional na Espanha. O segundo é a estrela do Barcelona e já foi visto várias vezes em manifestações pela Catalunha, sua terra natal.

No ano passado, Piqué foi convocado para jogar pela seleção espanhola pelo técnico Julen Lopetegui um dia depois de postar uma mensagem no Twitter defendendo a realização de um polêmico referendo popular pela independência da Catalunha. Na ocasião, o capitão espanhol Ramos afirmou que o tweet não era a melhor estratégia para quem não quer ser vaiado. “Talvez não seja o melhor para o grupo, mas cada um é livre para dizer o que pensa”, disse Ramos.

Agora, a divisão entre catalães e espanhóis dentro da seleção pode trazer problemas na Copa com a demissão, na véspera do início do torneio, do técnico Lopetegui. Ele foi demitido após ter sido anunciado como futuro treinador do Real Madrid, num episódio que a Federação Espanhola de Futebol considerou uma quebra de confiança. Para Pique e Ramos, considerados tão importantes no time que foram chamados para a reunião que definiu a demissão de Lopetegui, é hora de segurar as pontas e tentar unir a casa.

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