Para entender os estupros na Índia, ela foi à fonte: os estupradores

A violência contra as mulheres motivou a indiana Madhumita Pandey a se debruçar sobre o tema. Em entrevista a EXAME, ela conta o que descobriu

São Paulo – O dia 16 de dezembro de 2012 ficará para sempre marcado na memória da Índia. Foi nessa data que Jyoti Singh foi brutalmente estuprada por um grupo de homens dentro de um ônibus na capital Nova Déli. A jovem estudante, que tinha 23 anos e sonhava em ser fisioterapeuta, morreu em decorrência dos ferimentos cerca de duas semanas depois.

Seus agressores foram presos, sua história virou documentário e o legado da sua luta pela sobrevivência motivou protestos pelos direitos das mulheres em todo o mundo. Desde então, cresceram os debates sobre violência de gênero e a pressão fez o governo indiano endurecer as leis para o estupro. Ainda assim, casos como esse seguem acontecendo.

As notícias e os números pintam um retrato dramático sobre a situação das mulheres na Índia. Só no último mês, três episódios diferentes envolvendo adolescentes que foram estupradas e queimadas por seus algozes chamaram a atenção mundo afora. Em 2015, o país registrou 35 mil casos de violência sexual, mas é possível que esse número seja muito maior.

Como tantas outras pessoas, a indiana Madhumita Pandey, pesquisadora do Departamento de Criminologia da Universidade Anglia Ruskin e professora de criminologia da Universidade Sheffield Hallam (Reino Unido) lutou com perguntas sobre o que está por trás desses ataques brutais e transformou a sua inquietude em uma tese de doutorado, ainda a ser defendida.

Para tentar desvendar essas questões, Madhumita entrevistou estupradores condenados em Nova Déli. Apesar desse recorte, as constatações da pesquisa trazem elucidações para fortalecer a luta pela erradicação da violência contra a mulher, um fenômeno global: em 2017, mostra a ONU, 35% das mulheres do planeta foram vítimas de violências físicas ou sexuais.

Por e-mail, Madhumita concedeu a seguinte entrevista a EXAME e contou o que descobriu sobre o assunto até agora:

EXAME – O que a motivou a conduzir essa pesquisa sobre os estupradores na Índia?

Madhumita Pandey – Fiquei muito emocionada com os protestos e as demonstrações públicas a favor da segurança das mulheres na Índia após o caso do estupro coletivo de Jyoti Singh em 2012. Como tantas pessoas, lutei com essa pergunta na minha cabeça: “Por quê? Por que esses homens cometeram esse crime? ”

Eu queria entender a resposta para essa pergunta diretamente da fonte – homens condenados por estupros. E também queria entender como a transição de poder em nossa sociedade, causada pelo papel mais liberal das mulheres hoje em dia, está nos conduzindo a respostas tão extremas.

Do ponto de vista acadêmico, enquanto há muitas pesquisas na Índia sobre as vítimas de abusos sexuais, políticas e reformas penais sobre violência sexual, há uma escassez severa de literatura envolvendo estupradores condenados. Eu acho que há muito o que se aprender explorando essa população e estava determinada a assumir essa tarefa.

EXAME – Quais são os maiores desafios na Índia hoje para garantir um ambiente seguro para as mulheres? Como eles se relacionam com outras partes do mundo?

Madhumita – A Índia é um país enorme. Geograficamente, culturalmente e religiosamente, cada estado é único e acho que o maior desafio é o de garantir que todas as preocupações sejam ouvidas e incluídas.

Minha experiência enquanto uma jovem mulher em Nova Déli não é a mesma daquela que vive em Jharkhand – um estado muito pobre e que enfrenta uma insurgência de grupos naxalitas-maoístas. Na última semana, vimos casos de violência nesse estado nos quais as vítimas foram queimadas depois de estupradas.

Assim como outros países em desenvolvimento (como o Brasil), a Índia enfrenta uma série de desafios como o crescimento populacional, pobreza, analfabetismo, fatores que têm papel crucial na formação de um ambiente seguro para as mulheres. Contudo, creio que precisamos focar em objetivos realistas e que podem ajudar a combater a questão no longo prazo.

Precisamos entender que a violência sexual é contínua. Pelo fato de o estupro estar em um extremo desse espectro, tendemos a prestar mais atenção nesses casos e considerá-los mais graves. No entanto, esses atos acontecem justamente pela vista grossa que é feita do outro lado, aquele do dia a dia em que ouvimos piadas sexistas, linguagem degradante sobre as mulheres, o assédio – coisas que não são vistas como ameaças e são mais socialmente aceitas.

Nosso foco também deve estar nessas questões “menos ameaçadoras” que eventualmente conduzem aos atos de violência extrema ou ajudam a construir a tolerância em torno deles.

EXAME – Recentemente, você falou sobre como a “culpa da vítima” está presente na narrativa dos agressores em Nova Déli, um comportamento também observado no Brasil. Por que isso acontece? É possível reverter essa lógica?

Madhumita – Por muitos anos, nas sociedades dominadas pelos homens, as mulheres sempre foram acusadas por sua vitimização. Isso pode ser atribuído aos mitos do estupro, como “meninas boas não são estupradas” ou “as mulheres provocam os homens com suas roupas”, que nascem dos estereótipos culturais, servem para justificar a violência sexual e atribuir a culpa à vítima.

Mesmo na amostra de estupradores condenados que avaliei, a maioria dos homens não entendia o que era consentimento. Como esperamos combater o estupro se as pessoas sequer entendem ou respeitam espaço e autonomia pessoal?

Sempre enfatizo a importância da educação sexual. Não sei como esse tópico é tratado no Brasil, mas na Índia, crianças praticamente não recebem informação que as prepare para uma vida sexual saudável quando adultos. Discussões abertas sobre sexo estão ausentes das escolas e dos lares – duas instituições fundamentais para o desenvolvimento das crianças.

Em um mundo dominado pela internet e pela mídia, há muitos caminhos para que uma criança aprenda e forme juízos negativos sobre a sexualidade e gênero, então a educação sexual desempenha um papel importante na prevenção da violência.

Por outro lado, sinto que hoje temos uma conscientização maior sobre o assunto e as pessoas estão finalmente se dando conta de que os estupros não acontecem apenas com mulheres que usam saias curtas e caminham por becos escuros depois da meia-noite e são cometidos apenas por homens desconhecidos.

EXAME – A violência contra mulheres na Índia vem acompanhada de números dramáticos, com mais de 35 mil casos de estupro registrados em 2015 e Nova Déli apelidada de “capital do estupro”. O que está por trás desse fenômeno?

Madhumita – Sim, as estatísticas são perturbadoras, mas nós finalmente abraçamos a questão e estamos na vanguarda dos debates. Resultados não aparecem da noite para o dia, mas esforços estão sendo feitos na direção correta.

Termos como “capital do estupro” não me incomodam, pois servem apenas para manchetes chamativas. Assim como Déli, Malmo, na Suécia, também recebeu esse apelido no contexto da Europa. E isso mostra que a violência sexual é global.

De acordo com números recentes da polícia, o número de estupros registrados cada ano em Déli cresceu 277%, de 572 em 2011 para 2.155 em 2016. Isso pode parecer alarmante, mas vejo dois pontos positivos escondidos.

Primeiro, os dados mostram que mais sobreviventes estão denunciando os crimes. As leis mais severas, a cobertura da imprensa e a maior conscientização da sociedade estão fazendo com que essas vítimas sofram menos com os estigmas que acompanham a violência sexual. Segundo, um papel melhor da polícia em registrar os casos.

Agora, é impossível responder em poucas linhas o que está por trás desse fenômeno, pois é uma rede intrínseca de fatores culturais, religiosos, sociais e políticos. O estupro já foi estudado sob diferentes perspectivas (se vem de uma “necessidade biológica” ou se é sobre “poder e patriarcado”, por exemplo) e creio que existem diferentes tipos de estupro e estupradores.

O meu trabalho está centrado em como o sistema patriarcal, os papeis tradicionais dos gêneros e as atitudes ante as mulheres contribuem para a violência sexual endêmica na Índia. Quero chamar a atenção para as mudanças estruturais da sociedade que podem impactar a assimetria das relações de poder entre os homens e mulheres.

EXAME – Você entrevistou homens condenados por estupro em Nova Déli. Quem são eles e quais traços têm em comum?

Madhumita – Durante a pesquisa, interagi com muitos estupradores condenados e minha pesquisa incluiu, ainda, assassinos condenados como grupo comparativo.

Demograficamente, todos esses homens vêm de um background econômico-social baixo e não são escolarizados. Muitos são imigrantes de estados como Bihar, Jharkhand, Uttar Pradesh e Haryana. Há traços comuns em cada grupo, assim como entre os grupos. Mais importante que isso, talvez, é o fato de que os estupradores não entendem a ideia de consentimento ou culpabilidade das vítimas. Infelizmente, no momento, não posso dar mais detalhes, pois ainda não defendi a minha tese.

EXAME – Como eles reagiram às perguntas? Sentiram alguma culpa dos estupros cometidos?

Madhumita – Num primeiro momento, ficaram receosos, mas assim que o relacionamento se consolidou, começaram a se abrir. Todos se comportaram bem e não me senti nem um pouco ameaçada. A maioria deles acreditava estar preso injustamente, assim como a maioria deles usou uma série de justificativas e desculpas para neutralizar suas ações. Todos eram relutantes em chamar os crimes de “estupro” e não queriam ser associados ao termo “estuprador”.

EXAME – Quais casos mais te chocaram?

Madhumita – Todas as narrativas eram únicas e chocantes. Eu escrevi particularmente sobre um homem, pois sua narrativa me ajudou a destacar os casos de abuso sexual contra crianças. Ele foi condenado pelo estupro de uma criança de 5 anos. Mas o que mais chamou a minha atenção foi fato de que ele mostrou remorso pensando poder se casar com a vítima quando saísse da prisão.

Por mais que isso tenha sido desconcertante de ouvir, há países em que homens escapam da prisão simplesmente se casando com as vítimas. E na Índia esse argumento absurdo já foi ventilado por magistrados experientes. É isso que ajuda a perpetuar a noção misógina de que as mulheres são meras mercadorias e que a finalidade delas é a de manter a castidade.

Recentemente, um tribunal da sharia (lei islâmica) na Malásia sugeriu que um estuprador deveria se casar com a vítima, assim ela “pelo menos teria um marido”. Da mesma forma, no ano passado, vários países do Oriente Médio atualizaram leis que antes perdoavam esses criminosos, caso se casassem com suas vítimas.

As pessoas esquecem que o estupro é muito mais do que a violência física e que as sobreviventes são tratadas da mesma forma que indivíduos que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático.

EXAME – Como mulher, como você se sentiu durante essas entrevistas? Como essa experiência a impactou?

Madhumita – Como mulher, acho que consegui trazer uma certa sensibilidade e empatia para as entrevistas, e isso fez com que esses homens dividissem suas histórias, assim como os detalhes dos crimes e vítimas.

Por vezes, me senti sobrecarregada, para ser sincera. Não é fácil desligar, esquecer o que ouvi, mas a interação com esses homens também traz à tona questões que subvalorizamos. Alguns choraram muito após as entrevistas e gostaria de acreditar que o processo tenha sido um momento emocional para eles.