Papa tem renovado Igreja, diz pai da Teologia da Libertação

"Todo retorno às fontes, à frescura do Evangelho, renova o rosto da Igreja. Francisco faz isso com valentia e criatividade", declarou Gutiérrez

O papa Francisco renova o rosto da Igreja católica “com valentia e criatividade”, retomando a essência do Evangelho: a opção preferencial pelos pobres, disse o sacerdote Gustavo Gutiérrez, considerado o pai da Teologia da Libertação.

“Todo retorno às fontes, à frescura do Evangelho, renova o rosto da Igreja. Francisco faz isso com valentia e criatividade, através de palavras e gestos inteiramente compreensíveis”, declarou Gutiérrez em entrevista à AFP em Washington, onde acompanha a visita do papa argentino aos Estados Unidos.

O teólogo peruano, que havia sido mantido nas sombras pelo Vaticano de João Paulo II até setembro de 2013, quando foi recebido pelo hoje pontífice, disse que “Francisco criou um momento de esperança e aberto ao tempo presente”.

O sacerdote considerou significativa a visita de Francisco a Cuba e aos Estados Unidos, “um apelo a uma humana e respeitosa relação entre eles”, disse o sacerdote de 87 anos.

“Todos sabemos como sua ajuda foi importante para acabar com uma situação de marginalização, que afetou sobretudo os mais fracos do povo cubano”, disse.

Lembrou que se referiram a Francisco no canal americano Fox News como “o homem mais perigoso do mundo devido ao enérgico questionamento que a encíclica (sobre mudanças climáticas) faz de uma política econômica centrada no lucro, que esquece as pessoas e atenta contra a natureza”.

Um livro de Gutiérrez, “Teologia da Libertação”, publicado em 1971, deu nome a esta corrente que nasceu na América Latina e se tornou posteriormente na “pedra no sapato” do Vaticano, que a acusou de ser marxista.

Esta teologia, que tem como princípio básico a “opção preferencial pelos pobres”, surgiu com o objetivo de renovar a mensagem central do catolicismo em uma das regiões com maiores desigualdades do mundo.

Desafios na América

O fundador da Teologia da Libertação (TL) considera que o maior problema que a Igreja Católica enfrenta na América não é a migração a outras confissões, mas a fidelidade à mensagem de Jesus: privilegiar os pobres.

“O que importa é a fidelidade ao testemunho de Jesus, sua mensagem de serviço a qualquer pessoa, a resposta ao amor de Deus, sua opção preferencial pelos pobres e marginalizados”, disse Gutiérrez.

“A primeira exigência da mensagem do evangelho não é ser um produto que se venda bem em uma espécie de mercado de religiões. Seu valor está na autenticidade, humanidade e respeito por outras posições”, ressaltou.

Segundo o teólogo, “a comunicação da ‘Boa Nova’ exige, principalmente, qualidade de vida pessoal, serviço ao outro, em especial ao mais necessitado, seja quem for. A isto, o papa Francisco convoca e isso é o que cabe à Igreja fazer”.

Gutiérrez, que comparou Francisco com o papa João XXIII (1958-1963), ressaltou que “séculos atrás foi cunhada uma fórmula que, apesar de seu caráter tradicional, muitos esquecem e que diz que ‘a Igreja está sempre em reforma’. Sempre é necessária”.

A opção preferencial pelos pobres entusiasmou em um primeiro momento Roma, sob o papa Paulo VI (1963-1978), que designou bispos progressistas na região com o maior número de fiéis católicos.

No entanto, João Paulo II (1978-2005), formado no anticomunismo, a questionou alegando que fomentava a luta de classes e poderia distanciar os fiéis de setores médios e altos.

A ofensiva do Vaticano contra a Teologia da Libertação se traduziu na nomeação de bispos conservadores e foi selada com dois documentos do então prefeito da Congregação da Fé, Joseph Ratzinger, que depois se tornou Bento XVI (2005-2013).

Uma das mudanças foi ressaltar que a Igreja optava pelos pobres, mas que não tinha uma “opção preferencial pelos pobres”, como pregava a Teologia da Libertação, uma ideia que Roma atribuía à análise sociológica e à luta de classes.

O Vaticano sancionou os que acreditavam que a Igreja deveria se reinventar de baixo, como o brasileiro Leonardo Boff ou o nicaraguense Ernesto Cardenal. Gutiérrez nunca foi censurado ou punido, mas foi convocado a prestar esclarecimentos.