Otan preocupada com militarização da Crimeia pela Rússia

Comandante-em-chefe da Otan denunciou envio de mísseis à Crimeia, península ucraniana anexada em março pela Rússia

Kiev – O comandante-em-chefe da Otan, o general americano Philip Breedlove, denunciou nesta quarta-feira em Kiev o envio de mísseis russos à Crimeia, a península ucraniana anexada em março pela Rússia, considerando que se trata de uma ameaça aos países vizinhos.

A visita do general Breedlove ocorre no momento em que as autoridades pró-ocidentais de Kiev tentam relançar o projeto de adesão à Otan, após a perda humilhante da Crimeia e a divisão da região mineradora de Donbass, no leste da Ucrânia, controlada em parte por rebeldes pró-russos que combatem o Exército ucraniano.

“Estamos muito preocupados com a militarização por parte de Moscou da península da Crimeia”, declarou o general durante uma coletiva de imprensa em Kiev.

“Os equipamentos militares russos instalados na Crimeia como os mísseis de cruzeiro e os mísseis antiaéreos são capazes de ter a seu alcance todo o Mar Negro”, afirmou Breedlove.

Nas últimas semanas, a Rússia tem reforçado sua presença militar na Crimeia. Desta forma, o Kremlin decidiu reabrir uma base de alerta antimíssil e de investir mais de 1,75 bilhões de euros até 2020 para o desenvolvimento de sua frota no Mar Vermelho.

E durante a visita do comandante da Otan, a Rússia anunciou o envio de 14 caças para a Crimeia, dez caças Su-27 e quatro Su-30 M2, segundo a agência de notícias russa TASS.

Adesão difícil

Depois de se reunir com o presidente ucraniano Petro Poroshenko e o primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk, que fizeram da adesão de Kiev à Otan uma prioridade, o general Breedlove foi vago sobre esta perspectiva, dizendo que tais decisões devem ser tomadas por políticos.

Poroshenko prometeu na segunda-feira a realização de um referendo sobre esta questão, sem indicar quando os critérios necessários serão “preenchidos”.

Mas até mesmo os aliados mais fieis a Kiev permanecem céticos sobre a perspectiva da adesão da Ucrânia à Aliança Atlântica.

A chefe do Departamento de Estado americano para Assuntos Europeus, Victoria Nuland, declarou nesta quarta-feira em uma entrevista ao site de notícias Meduza que seria “muito difícil” para a Ucrânia aderir à Otan.

Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, declarou ao jornal Spiegel que via uma “parceria entre a Ucrânia e a Otan, mas não uma adesão”.

O general Breedlove acusou repetidamente a Rússia de enviar aos rebeldes pró-russos tropas e equipamentos, o que Moscou nega categoricamente.

Sua visita ocorre no momento em que as autoridades ucranianas se preparam para abandonar o status de não-alinhados desta ex-república soviética, com vista a uma futura adesão à Aliança Atlântica.

Essa perspectiva tensiona Moscou que quer manter a Ucrânia em sua órbita e nega qualquer envolvimento no conflito no leste que já custou mais de 4.300 vidas desde o lançamento da “operação anti-terrorista” ucraniana em meados de abril.

Por sua vez, Kiev evocou nesta quarta a entrada em seu território de dezenas de caminhões transportando homens e artilharia na fronteira com a Rússia.

O porta-voz militar ucraniano, Andrii Lysenko, falou de movimentos registrados na véspera de duas colunas de equipamento militar da Rússia na direção de Lugansk, via o posto fronteiriço de Izvariné, sob o controle dos separatistas pró-russas.

“Trata-se de cerca de 40 caminhões, acompanhados por dois veículos blindados e um carro. Sete veículos transportam pessoal e mais de 20 outros artilharia”, disse ele.

Solicitadas por Kiev, as autoridades dos Estados Unidos se recusam a fornecer armas letais, mas preveem o posicionamento de cerca de 150 tanques e veículos blindados em vários países membros da Otan, incluindo alguns no leste europeu, muito preocupado com sua segurança.