Os tropeços que podem custar o cargo do ministro Carlos Lupi

Entre denúncias de irregularidades e declarações pouco felizes, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, tenta se manter no cargo e diz que tem "fé na verdade de Deus"

São Paulo – À semelhança do que aconteceu com outros cinco ministros em 2011, uma série de denúncias de irregularidades no Ministério dos Transportes e algumas declarações pouco felizes podem custar o cargo do ministro Carlos Lupi.

Segundo a revista Veja publicou no começo do mês, Lupi é acusado de envolvimento em esquema de cobrança de propina de ONGs vinculadas ao Ministério do Trabalho. Duas semanas depois, novas denúncias: o ministro teria feito uma viagem oficial em avião providenciado pelo diretor de ONGs que têm contratos milionários com o Ministério.

Entre uma denúncia e outra, o ministro tenta se defender como pode. A reação incluiu até declarações de amor à presidente Dilma Rousseff, e promessa de só deixar o cargo se for abatido a bala. Relembre os principais incidentes que deixaram o ministro Carlos Lupi na berlinda.

Propina

A reportagem publicada pela revista Veja em novembro revelava que figurões do PDT, partido de Lupi, transformaram os órgãos de controle do Ministério do Trabalho em instrumentos para extorquir ONGs.

Segundo a denúncia, assessores do órgão contratavam as entidades para oferecer cursos de capacitação profissional e cobravam propina para resolver irregularidades que eles mesmos criavam.

Uma outra reportagem, publicada pela revista IstoÉ, trouxe denúncia de um sindicalista afirmando que o Ministério do Trabalho extorquia sindicatos para desviar recursos do imposto sindical à central ligada ao PDT e a assessores de Lupi.

Mal-assombrado

Carlos Lupi é assombrado também por denúncias que o ligam a ONGs e sindicatos fantasma. A pasta comandada por ele teria repassado 3,75 milhões de reais a uma associação de artesãos do Rio de Janeiro, para cursos de qualificação para o “arranjo produtivo da indústria do Carnaval”.

No contrato celebrado com o Ministério do Trabalho constam dois endereços nos quais a ONG supostamente funcionaria. Em nenhum deles foram encontrados indícios de atividade.


Uma reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo mostrou também que o ministro concedeu registro para criação de sete sindicatos-fantasma no Amapá. As sete instituições representam setores da indústria que não existem no estado.

A criação dos sindicatos daria força aos envolvidos nas eleições da Federação das Indústrias do Estado do Amapá, cujo orçamento anual ultrapassa os 10 milhões de reais. 

O lobby do Lupi

Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo mostrou que Lupi permite a atuação de lobistas dentro do ministério para negociar a liberação do registro sindical. São ex-funcionários da pasta, alguns aliados do próprio ministro, que negociam pendências e garantem a agilidade de alguns processos mediante pagamento.

Segundo a denúncia, o esquema de lobby garante aos sindicatos beneficiados parte dos 2 bilhões de reais arrecadados por ano com o imposto sindical. 

 No avião do Adair

Novas denúncias afirmavam que o ministro havia usado um avião particular em viagem oficial. A aeronave seria de Adair Meira, um dos dirigentes da ONG Fundação Pró-Cerrado, que foi beneficiada por repasses de verba do Ministério do Trabalho.

A princípio, Lupi negou com veemência qualquer contato com Meira. “Não tenho relação pessoal com o seu Adair. Não sei onde ele mora, e nunca andei em avião dele”, disse Lupi. Dias depois, a imprensa divulgou fotos e vídeos contrariando as afirmações do ministro.


Em depoimento no Senado, Lupi voltou atrás em suas afirmações anteriores, dizendo que conhecia Meira, mas não manteve com ele nenhum contato pessoal. Ele também admitiu ter usado o avião, além de ter pago diárias com verba pública durante a viagem.

Lupi afirmou que seu erro foi não ter especificado e enfatizado a palavra “pessoal”. “Eu posso ter tido alguma relação com ele, mas não pessoal. Eu disse que não andei em avião pessoal. Pessoal. É diferente de andar em taxi aéreo, ou mandar fretar avião”, disse. 

Entre balas e beijos

Em meio às denúncias e idas e vindas em suas versões sobre os acontecimentos, Lupi disse em conversas com jornalistas que tinha apoio total da presidente Dilma Rousseff e seus aliados para continuar no cargo. Ele afirmou que só deixaria a pasta “abatido a bala”. A frase foi vista como um desafio à presidente, já que é ela quem decide quem fica e quem sai dos ministérios.

Depois, o ministro pediu desculpas pelas palavras, e afirmou que não pretendeu afrontar a presidente. E se declarou: “Presidente Dilma, desculpa se eu fui agressivo, não foi minha intenção. Eu te amo.”

Nem um pouco comovida, a presidente fez questão de transmitir sua insatisfação ao ministro por seu tom exagerado. Lupi segue se explicando pelas denúncias. No Senado, declarou que é inocente e disse que não há provas nem qualquer calúnia levantada a respeito dele.

Ao finalizar seus esclarecimentos depois de ser sabatinado por senadores nesta quinta-feira, o ministro mostrou que, no fim das contas, permanecer no cargo será questão de fé. “Eu tenho muita fé na verdade de Deus. É preciso ter paciência, mas, no final, ela vence.”