Os fatores que explicam a força que Maduro ainda tem na Venezuela

Maduro ganhou com 67,7% dos votos contra 21,2% do rival, Henri Falcón. Abstenção chegou a 52%, a mais alta da era democrática do país

Sua morte política foi antecipada desde que chegou ao poder, mas o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, voltou a jogar por terra essas previsões ao ser reeleito no domingo (20) até 2025.

Na Venezuela de Maduro, comida e remédios somem das prateleiras de mercados e farmácias, não há salário que resista a uma inflação brutal, e o isolamento internacional cresce, enquanto os Estados Unidos aumentam sua pressão.

Esse coquetel de fatores talvez tivesse custado o cargo de um presidente em um outro país, mas Maduro segue enfrentando uma oposição fragmentada que desconhece os resultados eleitorais.

Nesse contexto, nenhum especialista se atreve mais a especular sua data de saída. O que explica essa força?

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– Controle institucional

Maduro perdura, graças ao controle institucional que o governo exerce, com os militares à frente, ocupando 14 de 32 ministérios.

A Força Armada também conta com um amplo poder econômico que inclui o controle da petroleira PDVSA, que aporta 96% da receita do país.

“Parte fundamental da receita é o controle dos militares. Ao comprá-los e compartilhar com eles o poder, neutralizou qualquer desafio das Forças Armadas”, avalia o diretor do Interamerican Dialogue, Michael Shifter, falando de Washington, onde fica o instituto.

A influência de Maduro se estende aos demais poderes públicos, salvo o Parlamento, de maioria opositora, mas travado por decisões judiciais.

Estende-se ainda a uma Assembleia Constituinte integrada apenas por governistas, que vigora com poderes absolutos. Na prática, esse órgão deslocou o Legislativo.

Maduro “continua governando, porque aplicou um pacote ditatorial”, diz o cientista político Luis Salamanca.

– Fratura da oposição

Depois do esplendor de sua vitória nas eleições parlamentares de 2015, que pareceu deixar para trás um passado de divisões e derrotas, a oposição agrupada na Mesa da Unidade Democrática (MUD) voltou a se fraturar.

O motivo foi a decisão dos principais dirigentes de negociar com o governo, tentativa que fracassou no início de 2018. Depois, a Constituinte antecipou as presidenciais.

A ruptura se aprofundou com a decisão do dissidente do chavismo Henri Falcón de se apresentar às eleições, afastando-se de um boicote da MUD.

“Maduro se beneficia de uma oposição fraca e fraturada e da falta de resolução de outros governos latino-americanos para fazer algo além da retórica”, diz Shifter.

Maduro ganhou as eleições com 67,7% dos votos contra 21,2% de Falcón. A abstenção chegou a 52%, a mais alta da era democrática venezuelana, que começou em 1958.

– Falta de liderança –

Apesar de 75% rejeitarem sua gestão, segundo o instituto Datanálisis, Maduro “é o líder chavista com mais aprovação e a aposta mais segura para o regime” para o futuro, opina Shifter.

Para Salamanca, o herdeiro de Hugo Chávez “é o menos ruim” da cúpula governista.

“A Venezuela é um país destruído e vai continuar a ser durante um tempo, o que pode aumentar o atrativo da mensagem chavista”, comentou o presidente do Interamerican Dialogue.

Ele advertiu que Maduro lançou um movimento “com a intenção de marginalizar as facções chavistas que não estão diretamente alinhadas com ele”, o que “pode se transformar em um grande erro e, finalmente, explodir na sua cara”.

– Maquinário clientelista

Para amenizar a escassez de alimentos, Maduro lançou em 2016 um programa de venda de comida subsidiada em zonas populares, que beneficia 12 milhões de pessoas segundo estudos privados.

Outro instrumento é o “Carnê da pátria”, documento de leitura eletrônica entregue a 16 milhões de pessoas e requisito para ter acesso a programas sociais e bônus. A oposição o denuncia como um “mecanismo de controle social”.

Falcón o invocou como argumento para desconhecer os resultados eleitorais. Perto dos centros de votação, o partido de governo instalou os chamados “pontos vermelhos”, barracas onde os portadores do documento reportavam seu voto, escaneando o carnê. Lá, segundo o candidato, era-lhes oferecido dinheiro.

É uma política social com fins partidaristas, criticou Falcón, referindo-se a um método que já foi usado em três outras eleições.

Maduro “tenta ampliar sua estrutura clientelar para se perpetuar”, observa Salamanca.