Os empregos que Trump não conseguiu salvar

Nelson D. Schwartz © 2017 New York Times News Service

Huntington, Indiana – Estes são os trabalhadores de Indiana que não tiveram seus empregos salvos pelo presidente Donald Trump.

Recentemente, depois de montar placas de circuitos para fornos da marca Carrier em uma fábrica local por 21 anos, Jim Sholle, de 56 anos, saiu do prédio pela última vez. Mas ainda acorda todas as manhãs às quatro e meia, pronto para trabalhar no turno das seis às duas da tarde.

“Eu sou um sujeito rotineiro e não estou chateado. Mas me sinto esgotado.”

Pat Saylors, de 57 anos, ainda tem emprego, mas seus dias estão contados, como os de outros 700 operários. A produção da fábrica deve terminar do final e dezembro, e todos os meses várias dezenas de pessoas são demitidas.

“Eu amo meu emprego”, diz Saylors, que ganha US$17,31 por hora como especialista de material. Ela entrou na empresa há 40 anos, quando ela funcionava na pequena Converse, e seguiu o emprego até Huntington quando a fábrica foi inaugurada em 1990.

Saylors é um exemplo típico da força de trabalho da fábrica, que é principalmente feminina, com idade média em torno dos 50 anos. Ela conseguiu o emprego alguns meses depois de concluir o ensino médio, assim como sua filha Amanda, de 33 anos.

“É tudo o que eu conheço”, afirma.

Durante a campanha de Trump, o destino dos mais de dois mil empregos que a Carrier pretendia mudar de Indiana para o México, incluindo os de Huntington, tornou-se o primeiro exemplo dos ataques do candidato às políticas de livre comércio de seus predecessores.

Assim, quando Trump anunciou que estava perto de fechar um acordo com a corporação proprietária da Carrier, a United Technologies, para salvá-los, Sholle e Saylors pensaram que estavam entre os americanos com sorte.

Mas não era para ser. Graças à pressão de Trump e a um pacote de isenções fiscais negociado pelo então governador e hoje vice-presidente Mike Pence, a Carrier concordou em continuar fabricando parte de seus fornos em Indianápolis, preservando cerca de 800 dos 1.400 empregos na cidade.

Mas a fábrica de Huntington, operada pela United Technologies Electronic Controls, ou UTEC, não entrou no acordo – nem pode ser ajudada pelo decreto “compre produtos americanos” para projetos de infraestrutura federais que Trump prometeu. E, no começo do ano que vem, os componentes usados para os fornos que ainda são feitos em Indianápolis começarão a vir de Monterrey, no México, onde os trabalhadores levam um dia para ganhar o que os americanos daqui recebem em uma hora.

A economia em Huntington, uma cidade de 17 mil pessoas no noroeste rural de Indiana, no entanto, é bem diferente do que o que os trabalhadores de Indianápolis precisam encarar, assim como a cultura. Apesar de alguns fechamentos importantes, várias empresas continuam funcionando, com 21 por cento dos trabalhadores locais empregados em fábricas, uma proporção maior do que em mais de 90 por cento de outras cidades do país.

E, como a relutância de Sholle em reclamar sugere, a revolta em relação à economia e contra Washington, que era tão evidente em Indianápolis e em outras partes do meio oeste em que Trump dominou, parece mais abafada aqui. Não que esteja ausente – mais de 70 por cento dos eleitores do condado de Huntington apoiaram Trump – mas a dor não é tão aparente.
A maioria dos trabalhadores não culpa Trump por não conseguir preservar seus empregos.

“Eu o apoio 100 por cento”, afirma Tami Barnett, veterano de 27 anos que saiu do emprego no final de março. “Fiquei feliz com o fato de ele ter salvado os empregos de Indianápolis. Queria que tivesse preservado o meu? Claro. Mas ele fez o que pode.”

Quando pressionado, o prefeito de Huntington, Brooks Fetters, admite estar frustrado com o fato de não ter recebido qualquer atenção do escritório de Pence depois que ligou no ano passado para descobrir por que Huntington não teria ajuda.

“Certo ou errado, é onde estamos. Não estamos no modo pânico”, diz Fetters, que é um republicano moderado.

E, de qualquer maneira, diz ele, “o estoicismo germânico está arraigado no norte de Indiana, e nós aguentamos o tranco”.

Huntington conseguiu se adaptar ao atrair recentemente novos fornecedores de peças de metal e automotivas, segundo Mark Wickersham, diretor de desenvolvimento econômico do condado.
“Nossa cidade não está morrendo”, diz ele, citando o US$1,4 milhão gastos no final do ano passado na expansão de um centro de aprendizado perto da escola secundária, onde os adolescentes e os adultos podem fazer cursos em áreas como manufatura avançada e cuidados de saúde.

Embora os novos treinamentos ofereçam apenas esperanças modestas para as pessoas com mais de 50 anos que possuem apenas um diploma do ensino médio, Fetters insiste que os trabalhadores da UTEC não precisarão encarar um futuro econômico sombrio se puderam aprender novas habilidades.

“Com o desemprego em quatro por cento, se você não está trabalhando, há um motivo e ele não deve ser muito bom. Como prefeito, não tenho empregos para pessoas que conseguem apenas usar um ancinho e uma pá. Tenho vagas para operadores de equipamentos.”

O prefeito está correto – até certo ponto. É verdade que os fornecedores locais de peças de automóveis, fabricantes de ferramentas para máquinas e outras indústrias estão contratando. Mas há apenas algumas vagas disponíveis de cada vez.

Não muito longe da fábrica da UTEC que em breve será fechada, a Ecolab está contratando. O salário por hora é igual ao que a UTEC pagava, mas existem apenas quatro empregos disponíveis na fábrica.

Além disso, não há esperanças de que a força de trabalho de 100 pessoas da Ecolab cresça significativamente, segundo Tracey Hartman, administradora de recursos humanos da empresa em Huntington.
Como outros trabalhadores de longa data, Sholle recebeu um pacote de demissão, incluindo um pagamento de US$17.700 em seu caso. Mas está preocupado com a possibilidade de não ser saudável o suficiente para começar de novo em outra fábrica, e, depois de precisar pagar US$10 mil dólares e despesas médicas, não sobrou muita coisa. Seu seguro saúde vai só até setembro.

Nos últimos anos, para aumentar os lucros em meio a um crescimento lento, a estratégia dos executivos da United Tecnologies foi diminuir a área de produção da empresa e transferir as fábricas para países onde os salários são mais baixos.

Em uma reunião recente com os analistas para discutir as previsões para 2017, o líder da divisão que inclui a Carrier, Robert J. McDonough, vangloriou-se do fato de as margens de lucro terem dobrado nos últimos cinco anos.

“Um dos motivos foi a mudança das fábricas para locais mais baratos, não há dúvida. Acho que todo mundo sabe que essa tem sido parte da fórmula para nós.”

Por que Trump teve mais sucesso em Indianápolis do que em Huntington? “Nós éramos o enteado feio e dentuço”, diz Sholle com amargura. “Nem chegamos a ser mencionados na cobertura dos eventos.”

O que Sholle diz é, em parte, verdadeiro. Mais de duas horas ao norte de Indianápolis e um pouco distante de estradas interestaduais, Huntington, como outros cantos rurais do país, raramente consegue atenção de fora.

Cerca de 100 empregos de vendas, marketing e engenharia vão permanecer na cidade depois que a fabricação acabar, e a empresa tem aumentado a equipe de funcionários administrativos aqui. Infelizmente, a maioria dos trabalhadores de linhas de produção jamais seria considerada para essas vagas porque não tem diploma universitário e outras credenciais, como experiência em engenharia.

Embora seja tarde demais para pessoas como Jim Sholle e Pat Saylors, mesmo o executivo chefe da United Tecnologies, Greg Hayes, sugeriu recentemente que os anos de cortes de custos na Carrier, fabricante de fornos e aparelhos de ar condicionado, foram longe demais, colocando os lucros de curto prazo à frente do crescimento de longo prazo.

A necessidade de permanecer competitiva foi a razão que a empresa deu para levar os empregos de Indiana para o México, mas o mercado da Carrier na verdade diminuiu um pouco no ano passado. Por isso, a empresa está fazendo uma correção de curso.

“Precisamos fazer investimentos, como disse antes, na força de vendas. Precisamos de mais gente nas ruas”, afirmou Hayes aos analistas de Wall Street em dezembro.

“Bob está focado nisso”, afirmou Hayes, referindo-se às novas ordens de McDonough para os investimentos, que soaram como uma mistura de objetivo e ameaça. “A equipe de liderança de Bob só pensa nisso, e temos que ter todo mundo da organização de olho nisso também, então, há mais trabalho para nós lá.”