Assange e os 10 anos de WikiLeaks

O mundo amanheceu tenso nesta terça-feira, à espera da coletiva de imprensa do WikiLeaks, serviço jornalístico colaborativo sem fins lucrativos que comemora 10 anos do seu primeiro vazamento de documentos. O jornalista e fundador da plataforma, Julian Assange, prometia uma alvo especial para celebrar a data: a democrata Hillary Clinton, candidata à presidência dos Estados Unidos, investigada pelo FBI por usar um e-mail pessoal no exercício da função de secretária de Estado, que exerceu entre 2009 e 2013. O que se viu não foi nada disso, pelo menos até a publicação desta reportagem às 7 horas, para grande decepção da internet. Assange mostrou apenas uma lista de publicações passadas e prometeu publicar mais documentos nas semanas seguintes.

Assange tem sido acusado de servir aos interesses russos e de apoiar o republicano Donald Trump. “Não vamos fazer autocensura simplesmente porque há eleições nos Estados Unidos”, afirmou em entrevista ao jornal alemão Der Spiegel, alegando que também já vazou documentos contra Vladimir Putin.

Sua antipatia contra a ex-secretária de Estado, porém, já era pública e permeada por ameaças. Assange chegou a afirmar seu próximo vazamento “garantiria a prisão de Hillary” e que ele “traria Hillary abaixo antes do primeiro debate” – a divulgação foi prorrogada em uma semana por supostas questões de segurança. Ao se posicionar contra a candidatura da democrata, em fevereiro deste ano, Assange afirmou que votar nela é ser a favor de uma “guerra estúpida e sem fim”, se referindo aos conflitos na Líbia. Ao longo da última década, o jornalista divulgou mais de 500 mil arquivos secretos sobre as guerras no Afeganistão e no Iraque, e mais de 250 mil correspondências diplomáticas.

A ausência de filtros e critérios na seleção do material é alvo de críticas dentro do próprio movimento. “Falta curadoria”, apontou o ex-funcionário da NSA Edward Snowden, em sua conta do Twitter. O WikiLeaks lançou um modelo de democratização da informação e já deixa crias, como a investigação Panamá Papers, que revelou escândalo de paraísos fiscais em abril deste ano. Há três anos, o polêmico Julian Assange, acusado de estupro por uma sueca, está refugiado na embaixada do Equador em Londres. Só deve parar quando for preso – ou quando derrubar o próximo presidente ou então quando suas pegadinhas, como as de hoje, deixarem de ter efeito.