Oposição pede renúncia de Evo Morales após anúncio de novas eleições

Presidente da Câmara e ministro da Mineração renunciaram neste domingo; Morales anunciou chamada de novo pleito sob pressão por críticas de irregularidade

O presidente boliviano, Evo Morales, convocou neste domingo novas eleições, depois de uma missão de auditoria da Organização dos Estados Americanos (OEA) detectar uma série de “irregularidades” nas eleições de 20 de outubro, enquanto líderes opositores voltaram a exigir sua renúncia.

Morales fez o anúncio depois de a OEA pedir a realização de um novo pleito e a anulação das polêmicas eleições em que ele foi reeleito, como conclusão de sua auditoria.

Horas após o anúncio, o presidente da Câmara dos Deputados, Víctor Borda, renunciou ao cargo, depois de que manifestantes atacaram sua casa, no âmbito dos protestos civis que pedem a renúncia de Morales e de todos os órgãos do Estado.

“Renuncio à Câmara de Deputados (..), para preservar a integridade física de meu irmão, que foi feito de refém” durante o ataque, na cidade andina de Potosí (sudoeste), disse Borda à imprensa local.

Minutos antes, o ministro de Mineração da Bolívia, César Navarro, já havia renunciado depois que opositores queimaram sua casa, também em Potosí.

“Apresentei publicamente minha renúncia; há momentos muito duros, e é preciso preservar a família”, afirmou Navarro à imprensa, visivelmente afetado depois de que vários manifestantes, denunciou, agrediram seu sobrinho.

Após o informe da OEA, Morales decidiu “convocar novas eleições nacionais que, por meio do voto, permitam ao povo boliviano eleger democraticamente novas autoridades”, disse em uma mensagem transmitida pela televisão.

Além disso, resolveu “renovar a totalidade de membros do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE)”, como pediu a OEA.

No entanto, os principais opositores, o ex-presidente Carlos Mesa (2003-2005), que Morales derrotou no primeiro turno, e o líder regional Luis Fernando Camacho, voltaram a pedir a renúncia de Morales devido às irregularidades no processo eleitoral.

“Se lhe resta um pingo de patriotismo, (Morales) deve se afastar”, disse Mesa.

Camacho afirmou que “Morales fraturou a ordem constitucional e deve renunciar”. Além disso, exigiu a renúncia dos membros dos outros poderes do Estado boliviano.

Morales, que não esclareceu se será candidato nem estabeleceu uma data para as novas eleições, tomou a decisão após o informe da OEA e enquanto a tensão escalava no país, com protestos maciços nas últimas três semanas, aos que na sexta se somaram motins policiais.

A violência deixou até agora três mortos e ao menos 383 feridos, segundo a Defensoria Pública.

Apesar do anúncio de Morales, as manifestações e confrontos continuavam neste domingo. Ao menos três pessoas ficaram feridas, uma delas por arma de fogo, em uma emboscada em uma zona do altiplano contra ônibus de opositores que viajavam para La Paz.

“Irregularidades”

Pela manhã, a OEA emitiu em um comunicado: “O primeiro turno das eleições realizado em 20 de outubro deve ser anulado e o processo eleitoral deve começar novamente (…) assim que houver novas condições que deem novas garantias para sua realização, entre elas uma nova composição do órgão eleitoral”.

“Nos quatro elementos revisados (tecnologia, cadeia de custódia, integridade das atas e projeções estatísticas) foram encontradas irregularidades, que variam desde muito graves até indicativas. Isso leva a equipe técnica auditora a questionar a integridade dos resultados da eleição”, diz o informe.

Morales, no poder desde 2006, conquistou o quarto mandato até 2025 em primeiro turno ao obter 47,08% dos votos e superar por mais de dez pontos percentuais o centrista Mesa (36,51%), mas a oposição denunciou uma fraude e foi às ruas exigir sua renúncia.

Camacho, que se tornou após a eleição o rosto mais visível da oposição, anunciou que na segunda-feira levará à casa de governo, acompanhado por outros dirigentes opositores, uma carta de renúncia a Morales e que espera que o mandatário assine.

No Vaticano, o papa Francisco exortou neste domingo aos bolivianos a esperar em “paz e serenidade” os resultados da auditoria eleitoral.

Após Morales convocar novas eleições, os Estados Unidos pediram a OEA que envie uma missão a Bolívia para garantir que as eleições sejam “livres e justas, e reflitam a vontade do povo boliviano”, segundo um tuíte do subsecretário interino de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Michael Kozak.

A União Europeia elogiou a decisão do governo boliviano de convocar novas eleições e de renovar os juízes do Tribunal Supremo Eleitoral.

Cuba apoiou seu aliado Morales e pediu neste domingo à comunidade internacional que condene a “aventura golpista do imperialismo e da oligarquia” na Bolívia, segundo uma declaração da chancelaria cubana.

Manipulações do sistema informático

Os protestos começaram no dia seguinte à eleição na região oriental de Santa Cruz, a mais rica da Bolívia, e foram se estendendo a outras cidades, incluindo La Paz.

No sábado foram incendiadas as casas de dois governadores oficialistas, assim como a de Ester Morales, irmã mais velha do presidente, em Oruro (sul).

Mais cedo, Morales havia convocado os partidos políticos opositores a um diálogo – ao que se negaram -, excluindo os poderosos comitês cívicos regionais que o tinham cercado com protestos.

As greves causaram perdas no valor de cerca de 12 milhões de dólares, segundo cifras oficiais.

O informe da OEA aponta que “as manipulações do sistema informático são de tal magnitude que devem ser profundamente investigadas por parte do Estado boliviano para chegar ao fundo e apurar as responsabilidades deste caso grave”.

“Tendo em conta as projeções estatísticas, resulta possível que o candidato Morales tenha ficado em primeiro lugar e o candidato Mesa em segundo. No entanto, resulta improvável estatisticamente que Morales tenha obtido 10% de diferença para evitar um segundo turno”, acrescenta.

A oposição havia se oposto à auditoria da OEA porque pensava que se tratava de um artifício de Morales para ganhar tempo.

Além disso, a oposição reprova o fato de o mandatário não ter reconhecido um referendo de 2016 no qual os bolivianos rejeitaram a reeleição indefinida. Uma polêmica sentença em 2017 de um tribunal constitucional lhe permitiu ser candidato novamente.