Oposição organiza nova passeata contra escassez na Venezuela

"Convocamos uma grande mobilização nacional contra a escassez que afeta a todos os venezuelanos", escreveu Capriles em seu Twitter

A oposição venezuelana, liderada por Henrique Capriles, organiza uma nova passeata para este sábado contra a escassez de alimentos e produtos básicos na Venezuela, uma das principais reivindicações dos protestos que já deixaram 20 mortos em um mês.

“Convocamos uma grande mobilização nacional contra a escassez (…) que afeta a todos os venezuelanos”, escreveu em seu Twitter capriles, governador de Miranda (norte) e ex-candidato presidencial derrotado pelo atual presidente Nicolas Maduro.

A passeata ocorre em um clima de tensão depois de um mês de protestos violentos que deixaram 20 mortes e 300 feridos.

A mobilização em Caracas e em outras cidades foi convocada pela aliança de oposição Mesa da Unidade Nacional por ocasião do Dia Internacional da Mulher sob o tema “Protesto das panelas vazias”.

Já o presidente Nicolás Maduro – herdeiro político do carismático Hugo Chávez, falecido há um ano – anunciou em seu Twitter que o sábado será um “grande dia nacional com as mulheres”, sem especificar mobilizações simultâneas as da oposição, como tem acontecido nas últimas semanas.

Capriles tem denunciado Maduro por incitar um confronto civil, depois que o presidente fez um apelo durante um discurso inflamado a seus militantes para que “façam valer a ordem”.

Na quinta-feira, menos de 24 horas após o discurso presidencial, um civil que tentava desmontar uma barricada opositora e um policial se somaram aos mortos em um confuso incidente em Caracas, que continua nesta sexta-feira sob forte esquema policial.

Escassez e inflação

Na Venezuela, o país com as maiores reservas de petróleo do mundo e que registra 56% de inflação anual, é possível encher o tanque de gasolina com alguns centavos de dólar, mas conseguir alimentos e produtos de primeira necessidade, como leite, farinha, açúcar e papel higiênico, tem sido uma tarefa difícil, com a elevada escassez de produtos.

“Tenho me dedicado a isso, a comprar. Saio de casa às sete horas e percorro todas as lojas, passo horas em filas e volto para casa à tarde. Faço compras para as minhas irmãs e minha mãe que mora em Táchira, onde não há nada”, relara Rosa Maria, uma dona de casa.

Em Táchira, na fronteira com a Colômbia, nasceram em 4 de fevereiro os protestos que se espalharam por toda a Venezuela. As manifestações em massa em Caracas começaram em 12 de fevereiro com Leopoldo López, líder do movimento de oposição Vontade Popular, que sob o lema “Fora” convocou protestos para exigir a renúncia de Maduro.

Dialogar com setores populares

Apesar de não criticar os protestos de rua, Capriles distanciou-se abertamente da campanha pela renúncia de Maduro promovida por Lopez, que desde 18 de fevereiro está em uma prisão militar nos subúrbios de Caracas acusado de incitar a violência.

O líder da oposição já advertiu que “não há condições para pressionar a saída do governo” e optou por “canalizar o descontentamento” do povo através de manifestações pacíficas, como a que levou em 22 de fevereiro 50.000 pessoas às ruas.

“Capriles tem sido prudente, porque sabe como as coisas começam, mas não como terminam. Mas sendo a única alternativa, espalhada em todo o país, se lançou à mobilização”, comentou à AFP Mercedes Pulido de Briceño, analista política e professora da Universidade Católica.

Para a analista, a passeata de sábado pode ser uma oportunidade para setores populares, que guardam “protestos silenciosos”, dialogar com a oposição e protestar em seus bairros, sem medo de represálias dos chamados “coletivos”, simpatizantes do governo que, segundo denúncias, andam armados e atacam manifestantes.

“A escassez e a inflação são os problemas sociais mais críticos, com poucas expectativas de serem resolvidos em curto prazo”, acrescentou a analista.

Em 22 de fevereiro, Capriles ressaltou a necessidade de envolver os bairros populares nos protestos para ganhar uma força real.