ONU é acusada de ter “cultura de impunidade” com casos de assédio

Jornal entrevistou funcionários e ex-funcionários das ONU, que revelaram haver uma "cultura do silêncio" dentro da estrutura da organização

Londres – A ONU permitiu a proliferação de casos de assédio e agressão contra suas funcionárias em todo o mundo, o que instalou uma “cultura de impunidade” dentro da organização, afirma uma investigação divulgada nesta quinta-feira pelo “The Guardian”.

O jornal britânico entrevistou diversos funcionários e ex-funcionários das Nações Unidas, que revelaram haver uma “cultura do silêncio” dentro da estrutura da organização e um sistema ineficaz de proteção das vítimas de abuso sexual.

Entre os entrevistados, 15 funcionárias garantiram ter passado ou denunciado situações de abuso ou agressão sexual nos últimos cinco anos. Os casos vão desde assédio verbal a estupros.

O “Guardian” afirma que sete dessas mulheres denunciaram formalmente terem sido vítimas desses crimes, mas esse tipo de acusação raramente é feita. As pessoas que sofrem o abuso temem perder seus empregos ou já estão convencidas de que as medidas adequadas para remediar a situação não serão tomadas.

“Se você denuncia, sua carreira praticamente acaba, especialmente se você for um assessor”, indicou de forma anônima uma dessas funcionárias, que disse ter sido vítima de assédio por parte de um supervisor enquanto trabalhava para o Programa Mundial de Alimentos.

A ONU reconheceu que considera preocupante o fato de incidentes desse tipo não serem denunciados. Em nota, a organização afirmou que o secretário-geral António Guterres “priorizou a abordagem ao assédio sexual e adoção de uma política de tolerância zero” contra esse tipo de caso.

O jornal britânico conversou com trabalhadores de mais de dez países diferentes. Três das mulheres ouvidas pelo “Guardian” que denunciaram serem vítimas de assédio sexual revelaram que, desde então, perderam seus empregos ou foram ameaçadas com a recisão de seus contratos no último ano.

Por outro lado, segundo a investigação, os supostos agressores continuam em seus cargos.

Uma das vítimas, que denunciou ter sido estuprada por um superior durante uma missão em uma localidade remota, afirmou que, apesar de apresentar evidências médicas e contar com testemunhas, uma investigação interna feita pela ONU concluiu “não haver provas suficientes” para sustentar a acusação.

Além do emprego, a mulher perdeu seu visto e passou meses hospitalizada devido ao trauma sofrido.

Em outros documentos internos obtidos pelo “Guardian”, duas mulheres mostravam preocupação com as investigações. Elas alegavam que a equipe da ONU responsável por apurar os casos errava nas transcrições dos depoimentos, permitia vazamento das informações investigadas e não entrevistava testemunhas-chave de seus casos.

O “Guardian” afirma que a ONU é criticada há anos por não investigar esse tipo de denúncia, lembrando casos de assédio ocorridos em países onde há missões da organização.

Ativistas lamentaram a existência de uma cultura de impunidade nos escritórios das Nações Unidas.