ONGs ficam insatisfeitas com relatório do ataque a hospital

Mas a MSF considera que, fora o erro, a tragédia é uma violação dos direitos da guerra

O fato de os Estados Unidos terem admitido um “erro humano” no bombardeio que matou em 3 de outubro 30 pessoas em um hospital do norte do Afeganistão não foi suficiente para várias ONGs, que exigem uma investigação independente.

“O trágico, mas evitável acidente foi causado principalmente por um erro humano”, declarou na véspera o general John Campbell, que dirige as forças da Otan no Afeganistão, ao referir-se ao bombardeios em Kunduz contra um hospital da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Mas a MSF considera que, fora o erro, a tragédia é uma violação dos direitos da guerra.

“O aterrador acúmulo de erros revela a grosseira negligência das tropas americanas e as violações do direito da guerra”, reagiu o diretor da MSF, Christopher Stokes.

Para a Human Rights Watch (HRW), “uma investigação independente continua sendo urgentemente necessária. O relatório do general Campbell justifica uma investigação penal por possíveis crimes de guerra”, acrescenta a HRW.

As convenções de Genebra, base do direito humanitário internacional, proíbem todo tipo de ataque contra centros médicos.

A MSF exige uma investigação imparcial e independente, mas o general Wilson Shoffner, porta-voz da Otan, que falou depois do general Campbell, assegurou que investigação americana era “exaustiva e imparcial”.

O general John Campbell, que comanda 13.000 soldados estrangeiros da Otan no Afeganistão além das tropas americanas no país, falou na véspera à imprensa sobre o ataque.

“O centro médico foi identificado erroneamente como um alvo militar”, declarou o militar ao anunciar os resultados da investigação sobre o ocorrido.

“Os soldados acreditaram que estavam atacando outro prédio a centenas de metros de distância, onde foram informados que havia combatentes”, acrescentou.

Duas outras autoridades americanas familiarizadas com a investigação evocaram uma cadeia de erros humanos, violações de procedimentos e falhas técnicas, segundo o jornal americano New York Times.

Inicialmente, o ataque tinha como alvo um edifício dos serviços de inteligência afegãos em Kunduz (norte), conquistado pelo Talibã.

“Mas os membros da tripulação não puderam contar com as ferramentas de navegação da aeronave para localizar o alvo”, indica o jornal.

“Desta forma, basearam-se na descrição do local pelas tropas terrestres” e atingiram “por engano” o hospital localizado nas proximidades.

Mas desde 3 de outubro, a direção da MSF refuta categoricamente o termo “erro”. Sua presidente Joanne Liu chegou a evocar “suspeitas de crimes de guerra” e exigir uma investigação internacional independente, assegurando não confiar no Pentágono.

A ONG, duplamente atingida pelos bombardeios contra seu hospital de Kunduz e em 27 de outubro contra o de Haydan, no Iêmen, publicou na quarta-feira fotos e uma breve biografia de seus 14 funcionários, todos os afegãos, mortos em Kunduz.

O foco do relatório americano reside na atribuição de responsabilidades nas falhas na cadeia americana de comando.

Imediatamente após o atentado, o general Campbell indicou que o ataque americano havia sido realizado por solicitação do exército afegão, segundo o qual combatentes talibãs estavam escondidos no interior do hospital.

Ele também assegurou perante uma comissão do Congresso americano que suas forças “não visavam” hospitais, mesmo tendo inimigos em seu interior.

Na época, as forças afegãs estavam envolvidas em violentos combates com o Talibã em Kunduz, grande cidade do norte do país, então nas mãos dos insurgentes.

A MSF admitiu que 20 talibãs recebiam tratamento em seu hospital, mas garantiu que transmitiu as coordenadas GPS do hospital para os exércitos afegão e americano antes do ataque.

A organização também alertou as autoridades assim que as primeiras bombas caíram, o que não impediu que o bombardeio continuasse por quase uma hora.