Obsessão com câmbio na China ignora longo prazo

Foco está muito atrelado ao curto prazo e deixa escapar repercussões no regime monetário chinês, com elevação de juros<BR>

Como tudo que é implementado pelo governo chinês, o novo regime de flutuação da moeda local leva a marca do extremo gradualismo e do zelo absoluto por pleno controle da situação. Para o economista-chefe do Banco Calyon no Brasil, Dalton Gardiman, as expectativas de maior apreciação do yuan ante o dólar continuam irreais, porque teimam em desconsiderar esse aspecto fundamental da política econômica à moda chinesa. “Há nos Estados Unidos quem reivindique uma apreciação rápida do yuan de 60%, o que é simplesmente um pleito absurdo”, afirma.

Logo depois de fazer o primeiro anúncio de flexibilização do câmbio, com uma leve apreciação do yuan de pouco mais de 2% ante o dólar, os chineses se apressaram em declarar que não se tratava do primeiro passo de uma série de medidas, para não se comprometer com qualquer coisa parecida com um cronograma de implementação. Mas, assim que os ânimos arrefeceram e os críticos se conformaram, a China detalhou melhor as medidas e anunciou novos avanços na flexibilização de seu regime cambial (leia reportagem de EXAME sobre a flutuação do câmbio na China).

Diante desse padrão opaco de comportamento, tentar antecipar novos passos, além de exercício de adivinhação, leva à miopia ante processos mais determinantes. Um deles, aponta Carlos Eduardo Gonçalves, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), é o ritmo de crescimento econômico dos principais atores mundiais.

“Para os Estados Unidos, se o Japão e a União Européia crescessem 0,2 ponto percentual mais do que o previsto, o efeito seria imensamente maior do que a pífia correção cambial chinesa”, afirma o economista. O desafio estrutural americano é que o país está crescendo mais do que esses parceiros fundamentais. Expandindo como está, a economia dos Estados Unidos importa mais, naturalmente, e não serão as leves e cautelosas flutuações do yuan que vão reverter isso. “De outro lado, se Japão e UE crescerem mais forte e começarem a importar mais, não tem como os americanos não exportarem mais, reequilibrando suas contas” (leia reportagem de EXAME sobre o problema dos déficits americanos).

Olho nos juros

“A política cambial realmente não traz grandes novidades, mas abre caminho para mudança na política monetária”, diz Gardiman, do Calyon. Tudo vai depender da reação chinesa a preocupantes sinais, cada vez mais visíveis, no andamento de sua economia: intensa especulação imobiliária, redução de margens e perda de lucratividade das companhias, que aceitam prejuízos em nome da ampliação de market share. “A China não aprendeu com a crise asiática, porque não foi afetada por ela”, diz Gardiman. Para domar esse risco a seu estilo — lento e com rédeas curtas –, e agora com um câmbio não engessado, a autoridade monetária chinesa terá mais espaço para elevar a taxa de juros.

A desaceleração do gigante asiático, assim, volta à pauta de preocupações da economia mundial e do Brasil, especialmente a partir de 2006. Por aqui, o freio chinês pode afetar indústrias como a siderúrgica e de papel e celulose. Ainda que haja prejuízos localizados, porém, há um efeito positivo em toda a novela da mudança cambial chinesa. “Finalmente tirou-se da mesa um fator de incerteza, que era quando e como o país mudaria o câmbio, e consolidou-se a certeza de que será lento, gradual e seguro”, diz Gardiman. O Calyon estima que o câmbio vai fechar 2005 com a taxa de 8 yuans por dólar, e 7,9 yuans no final de 2006.