Obama tentará ser parceiro do Brasil em biocombustíveis, diz cientista política

Desavenças sobre a tarifa cobrada pelos EUA sobre o etanol brasileiro deverão ficar em segundo plano

Doutora em ciência política pela Universidade Harvard, Shannon O´Neill é pesquisadora do Centro de Relações Internacionais (CFR). Sediado em Nova York, o CFR é uma organização independente e a mais influente no gênero das Américas. Recentemente, Shannon dirigiu uma força-tarefa sobre a América Latina que resultou em recomendações para a política externa do novo presidente americano, Barack Obama, na região. Ela conversou com exclusividade com o Portal EXAME.

O que podemos esperar do governo Obama em termos de política de comércio externo?

Obama tem uma posição bastante nuançada em termos de política de comércio externo. Ele apoiou e votou a favor do tratado de livre comércio com o Peru. Logo, não seria correto dizer que ele é contra o livre comércio. Mas ele é a favor de acordos de livre comércio com algumas condições. Até agora ele tem se posicionado contra o tratado de livre comércio com a Colômbia. E além disso, o tratado de livre comércio com o Panamá também está pendente no Congresso americano.

Obama pretende mesmo reabrir o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, o Nafta, para incluir cláusulas ambientais e trabalhistas?

Todos os três governos envolvidos – os Estados Unidos, México e Canadá – gostariam de mudar o acordo. E é possível que haja espaço para que essas mudanças aconteçam de forma positiva. Não creio que o governo Obama poderá mudar o Nafta completamente, mas questões que dizem respeito a direitos dos trabalhadores e questões ambientais são do interesse dos americanos. Os canadenses, por sua vez, gostariam de ver limites na exploração da madeira de suas florestas. E já o México gostaria de reduzir os subsídios agrícolas americanos. Se forem resolvidas, essas questões podem resultar num acordo muito mais produtivo para todos.

Isso significa dizer que o presidente Obama será menos protecionista do que o candidato à presidência Obama?

De fato, a maioria das declarações que ele fez sobre comércio externo aconteceram na campanha para as eleições primárias, quando ele apelou à base democrata, que inclui os sindicatos que são bastante temerosos das mudanças que a globalização trouxe para a economia. Creio que o Obama é sincero quando diz que o livre comércio por si só não é uma panacéia e que tudo depende da maneira como os acordos são negociados.

O que o Brasil pode esperar do governo Obama? Seu papel como líder regional vai ser apoiado por Obama da mesma forma que Bush tem feito?

O Brasil certamente será um parceiro chave para o governo Obama em questões relativas à América Latina. Particularmente porque uma das questões que ele tem falado é a questão da segurança energética, que diz respeito ao nosso hemisfério e também a todo o mundo. E uma parte importante dessa plataforma é a dos combustíveis alternativos. E como o Brasil é um líder nesse setor, seja em biocombustíveis ou energia hidrelétrica, existe aí uma enorme oportunidade para os dois países darem prosseguimento ao que foi iniciado durante o governo Bush. É preciso que ambos os países avancem e liderem toda a região nesse esforço.

Mas o fato de Obama ser favorável à manutenção da tarifa de importação ao etanol brasileiro e de também contar com o apoio dos plantadores de milho do meio-oeste americano não será um empecilho à cooperação energética entre os dois países?

Essa certamente será uma dificuldade na relação. Será interessante ver de que maneira o novo governo vai lidar com essa tarifa, especialmente em face da agenda maior que Obama tem para segurança energética. É verdade que essa questão é bastante difícil de ser superada em função de nosso processo legislativo. Vocês brasileiros também sabem como é difícil ver matérias importantes aprovadas em seu Congresso. Mas creio que ao longo do tempo nova geração de biocombustíveis tornará o etanol de milho ainda menos vantajoso do ponto de vista econômico e essa questão perca importância em face da cooperação tecnológica entre o Brasil e os Estados Unidos.

Do lado brasileiro, uma das questões mais importantes é a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, com a inclusão do Brasil como um membro permanente. Até agora, o Brasil não conta com o apoio americano. Isso vai mudar no governo Obama?

Essa é uma questão que não depende apenas dos Estados Unidos, mas de toda a comunidade internacional. E a verdade é que os EUA não controlam a ONU. Creio que o Brasil também terá que negociar mais com os seus próprios vizinhos na América Latina e com países de todo o mundo. Creio que com Obama os EUA podem ser mais receptivos a discutir a ampliação do Conselho de Segurança. Mas creio que provavelmente o primeiro passo nessa área será o Brasil juntar-se a grandes organizações internacionais, como os principais fóruns econômicos junto às maiores potências, como o G-8 e o G-20. Certamente será mais fácil fortalecer a participação do Brasil em tais organizações do que expandir o Conselho de Segurança.

E de que forma o governo Obama vai lidar com países latino-americanos liderados por populistas, como a Venezuela de Hugo Chávez, a Bolívia de Evo Morales e o Equador de Rafael Corrêa?

Todos esses países são democracias, apesar de imperfeitas. Isso significa dizer que esses governantes foram eleitos com os votos da maioria de seus eleitores. Creio que o governo Obama vai respeitar as decisões desses líderes. É preciso acrescentar que certamente haverá discordâncias entre os EUA e esses países. Mas com Obama haverá um respeito genuíno pela democracia. Mas se tais países se afastarem da democracia, creio que os EUA irão trabalhar com os demais países na região e através de organizações multilaterais para defender direitos democráticos. Certamente o governo Obama não vê o governo Chávez como apenas uma questão entre os EUA e a Venezuela, e sim como uma questão de segurança regional.