Obama passa o bastão a Hillary

Sérgio Teixeira Jr., de Nova York

O discurso de Donald Trump na convenção do Partido Republicano, em Cleveland, será para sempre lembrado como um dos mais sombrios e aterradores da história da política americana. Trump falou em um país enfraquecido na arena internacional e acuado pelo terrorismo, pela criminalidade e pela imigração ilegal. Na noite de quarta-feira, o presidente Barack Obama transmitiu uma mensagem oposta na convenção dos democratas: “A América já é grande. A América já é forte”. Em um dos seus últimos grandes discursos na Presidência, Obama descreveu um país multicultural, aberto e pujante, que “provou nos últimos oito anos que a audácia da esperança foi vindicada”. “O que ouvimos em Cleveland não foi particularmente republicano – e com certeza não foi conservador. O que ouvimos foi uma visão profundamente pessimista de um país em que nos voltamos uns contra os outros e damos as costas para o mundo. Não houve soluções para os problemas urgentes – só um incentivo ao ressentimento, à culpa, à ira e ao ódio.”

Obama tinha três objetivos em sua fala. O primeiro era defender seu legado na Casa Branca. Ele mencionou a recuperação da economia depois da recessão pós-bolha imobiliária e do Obamacare, o programa que deu cobertura de saúde a 20 milhões de americanos. O segundo era apoiar Hillary Clinton na eleição de novembro. “Estou pronto para passar o bastão”, disse Obama. “Ela é capaz e está pronta.” O terceiro, claro, era atacar Donald Trump. “Ele não é um cara de planos. E também não é um cara de fatos. Ele diz que é um cara de negócios, o que é verdade, mas conheço vários empresários e empresárias que tiveram sucesso sem deixar um rastro de processos, funcionários não-pagos e pessoas que se sentiram trapaceadas”, disse Obama.

Um dos principais focos de Obama foi atacar as ideias nacionalistas – ou xenófobas, como argumentam alguns – de Trump. “Os Estados Unidos mudaram com o tempo. Mas os valores que meus avós me ensinaram continuam aqui. São fortes como nunca. Celebrados por gente de todos os partidos, todas as raças, todos os credos. Eles seguem vivos em cada um de nós. É por isso que quem ameaça nossos valores, sejam fascistas ou comunistas ou jihadistas ou demagogos domésticos, sempre fracassarão.”

Obama fez referência à declaração de Trump de que ele sozinho iria resolver os problemas do país. “Nosso poder não vem de um autodeclarado salvador prometendo que pode restaurar a ordem sozinho. Não queremos ser governados. Nosso poder vem das declarações imortais colocadas no papel pela primeira vez aqui na Filadélfia tantos anos atrás: ‘Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais; que, juntos, nós, o povo, podemos formar uma união mais perfeita’”. Ele também falou das imperfeições da democracia. “[Hillary] sabe que este é um país grande, diverso, e que a maioria das questões raramente são branco no preto. Que, mesmo quando você está 100% certo, fazer as coisas exige concessões. Que a democracia não funciona se demonizarmos uns aos outros constantemente”, afirmou o presidente americano.

Um dos desafios da campanha de Hillary Clinton é contradizer a ideia de mudança – afinal de contas, ela pertence ao mesmo partido do atual presidente e ocupou um cargo chave no governo no primeiro mandato de Obama. “Esta noite estou aqui para dizer que sim, ainda temos o que fazer. Para todo americano que ainda precisa de um bom emprego ou de um aumento, de uma licença remunerada ou uma aposentadoria decente, para toda criança que precisa de uma escada mais firme para sair da pobreza ou de uma educação de classe mundial”, disse Obama. Quando o presidente encerrou seu discurso, Hillary subiu ao palco, numa indicação clara de que uma vitória sua significa a continuidade das políticas do atual presidente.

Mas, como mostrou o sucesso da campanha do Brexit no Reino Unido, o desencanto com a globalização será um dos temas mais importantes da eleição de novembro. Uma parcela importante do eleitorado tem a sensação de que a abertura das fronteiras, tanto para o comércio quanto para a imigração, serviu para enriquecer alguns poucos à custa de muitos. Um dos pilares da campanha de Donald Trump é a recuperação do orgulho americano. “Estados Unidos em primeiro lugar” é um de seus bordões prediletos. Hillary Clinton agora é crítica dos acordos de livre comércio, mas ela os defendeu quando era senadora – e o governo Obama nunca teve a ousadia de dizer não à globalização.

Trump nos holofotes

Hillary sobe ao palco na noite de quinta-feira para aceitar a indicação do partido e fazer o discurso que abre de fato a campanha presidencial de 2016. Mas, na tarde de quarta, Donald Trump tentou roubar os holofotes. Ignorando a regra não-escrita de manter-se em silêncio enquanto o partido adversário realiza sua convenção, Trump deu uma entrevista coletiva durante visita à Flórida. Suas declarações, é claro, tiveram o objetivo de chamar a atenção. Ele disse contar com a ajuda dos russos para encontrar os “30.000 emails perdidos”.

Foi um golpe duplo contra Hillary: Trump fez referência ao vazamento de emails internos do Partido Democrata no último fim de semana, que teria sido obra de hackers russos, e também ao uso de um servidor privado de emails por Hillary Clinton quando ela era secretária de Estado – na investigação conduzida pelo FBI, milhares de mensagens dessa conta privada nunca foram encontrados. “Rússia, se você estiver ouvindo, espero que seja capaz de encontrar os 30.000 emails que estão perdidos”, disse Trump. “Acho que você provavelmente será recompensada enormemente pela nossa imprensa.” Trump voltou ao tema da suposta irresponsabilidade de Hillary no manejo de informações secretas – embora ela tenha sido isentada de culpa após o inquérito.

O empresário também aproveitou a ocasião para se manifestar em relação aos comentários feitos por ele no passado elogiando o presidente da Rússia, Vladimir Putin. “Por que tenho de ser envolvido com Putin?”, perguntou Trump. “Não tenho nada a ver com Putin. Nunca falei com ele. Não sei nada a respeito dele além do fato de que ele me respeita.” As investigações sobre a invasão do sistema de emails interno da liderança do Partido Democrata apontam, até agora, para hackers russos. Os emails mostravam uma preferência clara pela vitória de Hillary nas primárias. O vazamento das mensagens, às vésperas do início da convenção democrata, provocou protestos por parte dos militantes pró-Bernie Sanders, o socialista derrotado nas prévias. Mas, acima de tudo, o escândalo serviu para tumultuar o evento que deveria unir o partido em torno de Hillary. Segundo a teoria corrente, os russos teriam a intenção de enfraquecer a candidata democrata – e, por consequência, aumentar as chances de que Donald Trump seja eleito o próximo presidente dos Estados Unidos.

Trump disse novamente que durante o governo Obama – e especificamente durante a passagem de Hillary pelo Departamento de Estado – os russos “perderam o respeito” pelos Estados Unidos. “Eu não acho que ele respeite [Hillary] Clinton. Não acho que Putin tenha respeito nenhum por Clinton. Acho que ele me respeita. E espero que me dê muito bem com ele. Espero que nos demos muito bem com Putin, porque seria ótimo ter uma boa relação com a Rússia”, disse Trump.