O triste fim da Leica

A lendária empresa de máquinas fotográficas agoniza. Seu erro: acreditar que qualidade basta

A revolução digital que vem mudando de forma vertiginosa as características do mundo dos negócios atropelou a Leica, a mítica marca alemã que criou, no início do século passado, o primeiro modelo de câmera fotográfica compacta. O maior pecado da empresa, dona de uma marca poderosa e de um produto reconhecido por sua qualidade, foi ignorar as evidências de que o mercado mudou. Permanecendo fiel ao formato analógico, a Leica perdeu espaço para concorrentes que investiram pesado nos últimos tempos em equipamentos digitais. Como fruto de sua resistência, as vendas despencaram e a companhia colheu prejuízo recorde de 20,1 milhões de dólares no ano passado. Resultado: agora a Leica corre o risco de fechar as portas. Para escapar da falência, a empresa está fazendo uma grande reestruturação financeira e planeja lan çar sua primeira linha de produtos digitais. Os especialistas, porém, acreditam que essa manobra veio tarde demais.

Quem está no comando da empresa desde maio é o suíço Josef Spichtig, um perito em tirar companhias da UTI. Outra iniciativa para tentar reequilibrar as finanças da Leica é a aprovação de uma ampliação de capital, com a venda de novas ações aos atuais acionistas no valor de quase 28 milhões de dólares. A Leica deve acelerar também o lançamento de um adaptador digital para duas câmeras analógicas de seu portfólio de produtos. O equipamento vai custar quase 6 000 dólares. Por fim, para o próximo ano, a empresa anuncia a chegada de uma câmera completamente digital. Os fãs da marca torcem para que não seja muito tarde para a velha Leica embarcar no mundo dos pixels.

Os ciclos tecnológicos possuem características darwinianas e vão varrendo da liderança do mercado empresas cujos carros-chefes não acompanharam a evolução da espécie. Um caso clássico é o da Olivetti, que vendia um produto obrigatório em todos os escritórios (as máquinas de escrever, lembram-se?). Até que, num espaço relativamente curto de tempo, sua tecnologia se tornou jurássica diante dos computadores. O caso da Leica vem sendo encarado de forma diferente, pois a marca tem um significado especial para a história da fotografia. Para várias gerações de profissionais, do americano Robert Capa ao brasileiro Sebastião Salgado, a Leica é referência de qualidade fotográfica. Um dos monstros da fotografia mundial, o francês Henri Cartier-Bresson, definia a Leica como “uma extensão do meu braço direito”. Mas o fato é que nem mesmo a qualidade irretocável e o aval de celebridades conseguem salvar uma empresa da obsolescência.