O silêncio que precede o discurso

A semana vai terminar atarefada para o presidente russo Vladimir Putin. Ele adiou para sexta-feira a tradicional conferência de imprensa que realiza todo final de ano, em prol de comparecer ao velório do embaixador Andrey Karlov, assassinado na segunda-feira enquanto discursava em uma galeria de arte em Ancara, capital da Turquia.

Putin deixa cerca de 1.350 jornalistas inscritos na conferência esperando. A segurança nacional, evidentemente, deve ser o principal tema da conversa, que no ano passado chegou a durar mais de 3 horas, com o mandatário respondendo a 44 perguntas. Será a 12ª conferência do presidente. No ano passado, Putin confirmou que há agentes especiais do exército russo na Ucrânia; disse que Joseph Blatter, da Fifa, merecia um Nobel da Paz; fez severas críticas à Turquia após o país ter derrubado um jato russo na Síria; e até falou sobre uma suposta filha — que ele não assume e não nega, por razões de segurança.

Putin estava certo em alguns pontos, como a economia — a Rússia deve ter uma redução de 1% no PIB este ano, bem melhor do que a queda de 3,7% de 2015, e deve voltar a crescer em 2017. Mas se aproximou da Turquia de maneira mais rápida do que disse no ano passado — em parte graças a Karlov, um dos principais articuladores no retorno de relações entre os dois países.

Desta vez, Putin deve falar sobre a guerra na Síria, sobre a nova relação comercial com o Japão, sobre o futuro das relações com a Turquia após o atentado a Karlov, sobre os movimentos separatistas na Ucrânia e sobre a acusação de ter hackeado as eleições americanas. Pode ser que até Donald Trump ou o doping da equipe de atletismo russa surjam na conversa. Mas tudo isso só na sexta. Para Putin, hoje, é dia de dar o recado com silêncio.