O recomeço após tsunami em províncias japonesas

Na cidade de Natori, onde morreram 11.260 pessoas, o cenário local é de um planalto de lodo coberto por neve e restos de madeira

Sendai – A província de Miyagi, no Japão, luta para recuperar suas florestas, dizimada pelo devastador tsunami ocorrido em março de 2011, enquanto pequenos grupos de agricultores e pescadores retornam gradativamente a sua vida normal após terem perdido tudo.

Na cidade de Natori, na província de Miyagi, a mais afetada pela catástrofe, onde morreram 11.260 pessoas, o cenário local é de um planalto de lodo coberto por neve e restos de madeira originários da floresta que cobria o local antes do tsunami.

Nos últimos meses, o governo limpou as zonas onde antigamente existiam bairros residenciais, fábricas e áreas de cultivo, e agora só ficaram os alicerces de algumas casas destruídas, cemitérios arrasados e estradas.

A passagem do tsunami sumiu com 230 quilômetros de costa e destruiu mais de 3.600 hectares de florestas, o que deixou à mostra toneladas de escombros de madeira, que nesta região de Miyagi estão empilhados em montanhas quilométricas que servem como uma barreira natural contra o vento e a areia.

Em Natori, onde morreram mais de 900 pessoas, a floresta separava há quatro séculos a população do mar como uma barreira. Durante o tsunami, a vegetação diminuiu a força e velocidade da massa de água e permitiu que muitos moradores conseguissem se salvar.

‘No passado não valorizávamos a floresta, mas com o desastre compreendemos como é importante ter esta barreira que protegeu nossas vidas durante anos’, explicou Eiji Suzuki, colaborador de um projeto para reflorestar a costa realizado por uma ONG japonesa.

O plano é plantar cerca de 500 mil sementes de pinheiro negro japonês no litoral de Miyagi para proteger a zona, transformar a terra estéril em campos férteis de cultivo e oferecer trabalho às comunidades desabrigadas.


A casa do próprio Suzuki, de 71 anos, é uma das poucas que se mantém em pé na localidade, mesmo que em ruínas, após ter conseguido resistir às investidas do mar.

‘Quero que a casa permaneça assim, como uma lembrança do que aconteceu’, afirmou, enquanto mostrova uma revista com imagens de sua casa tragada pelas ondas.

Na tarde de 11 de março ele se encontrava num hospital próximo quando sentiu o terremoto de 9 graus e decidiu retornar para sua casa para comprovar se sua família estava bem.

Durante o trajeto ele não escutou o alerta de tsunami, e ao descer de seu carro para entrar na casa, praticamente só teve tempo para ver o mar abrir caminho violentamente entre as árvores.

Suzuki salvou sua vida ao buscar refúgio no aeroporto vizinho e só conseguiu encontrar sua família três dias depois. ‘Se não tivesse seguido pela floresta, o tsunami teria sido muito mais destrutivo’, comentou.

As ondas, que de acordo com ele viajavam a 100 quilômetros por hora, não só arrasaram casas e fábricas, mas também cerca de 10 mil estufas, fonte de receitas para a maioria dos moradores.

Kiyoshi Mori é um dos agricultores que tinha uma área de cultivo no arrasado bairro de Kitakama, em Natori. Mori decidiu começar do zero e criar, com vários companheiros, uma pequena empresa agrícola.


Com ajuda do governo, eles construíram quatro estufas a cerca de 15 quilômetros das zonas arrasadas, em terras abandonadas onde agora começaram a ver os primeiros resultados.

‘Perdemos tudo: dinheiro, maquinaria, terras, casas. Agora demorará quatro ou cinco anos para retomar a vida de onde estávamos. E sem a floresta, não será possível voltar a cultivar’, assegura Mori, que no entanto vê o futuro com otimismo.

Ao norte de Sendai, em pequenas localidades pesqueiras como a de Ozashi, o porto tem um aspecto renovado e os primeiros navios se lançaram de novo ao mar há apenas cinco dias.

‘Há um ano ninguém podia pensar que agora estaríamos trabalhando de novo’, diz Katsuya Sasaki, um coletor de algas de 55 anos que trabalha no porto coberto pela neve, onde um grande cartaz velho alerta para o risco de tsunamis.

Em Ozashi, só um idoso não conseguiu escapar das ondas, já que o os moradores correram para as montanhas quando escutaram o alerta de tsunami, o que não impediu que um terço da frota pesqueira ficasse destruída, relatou Sasaki.

Embora a principal atividade do local comece a ressurgir pouco a pouco, um ano depois do tsunami ainda faltam armazéns e máquinas para processar o que foi pescado, por isso muitas pessoas ainda deixam a região em busca de outras maneiras de ganhar a vida.