O que traz felicidade para um país?

Brasil é 25° país mais feliz do mundo dentre 155 nações, segundo levantamento da Gallup World Poll; saiba como se calcula o índice de felicidade de um país

São Paulo – O índice de Felicidade Interna Bruta (FIB) foi o foco de uma discussão realizada ontem, na sede da ONU. Segundo o secretário geral da organização, Ban Ki-Moon, indicadores puramente econômicos, como o PIB (Produto Interno Bruto), falham ao não considerar os custos sociais e ambientais do chamado progresso. Durante o encontro, o secretário geral defendeu a necessidade de um novo índice, que leve em consideração esses fatores na busca pelo desenvolvimento sustentável. 

Introduzido no começo dos anos 1970, pelo Butão, o FIB é um dos indicadores que procuram atender essa demanda. O índice coloca em primeiro plano o bem estar das pessoas em vez da produtividade econômica e da riqueza de um país. 

Levando em conta 30 anos de pesquisas sobre o assunto, um relatório sobre a felicidade mundial elaborado por Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia; John Helliwell, da Universidade de British Columbia e Richard Layard, da London School of Economics, aponta alguns elementos responsáveis pela felicidade de um país. 

Fatores externos e internos determinam o bem-estar. Entre os fatores externos, destacam-se salário, trabalho, comunidade e governança e valores e religião, além de liberdade de escolha e participação política. Fatores mais pessoas incluem saúde mental e física, experiência familiar, educação, gênero e idade. Alguns desses fatores têm uma relação de via dupla com a felicidade, como a saúde física, por exemplo – ela aumenta a felicidade ao mesmo tempo que a felicidade a aumenta.

Para um país que queira aumentar seu índice de felicidade, é importante observar principalmente os fatores externos, já que são esses que podem ser influenciados por ação do governo. 

Veja, a seguir, alguns dos critérios que determinam a felicidade de um país:

Renda 

A renda sempre aparece como um fator importante para a satisfação com a vida em um país – apesar de não ser o mais importante, segundo o estudo. A renda relativa também importa, especialmente na comparação com os pares.


A estabilidade econômica é essencial para as sociedades, especialmente porque a raiva que as pessoas sentem ao perder dinheiro é maior que a alegria por ganhar a mesma quantidade. Já o crescimento econômico no longo prazo tem menos impacto na felicidade das pessoas do que os relacionamentos com as outras pessoas. 

Trabalho

O trabalho não é apenas uma fonte de recursos, mas também uma fonte de significados para a vida das pessoas, que se sentem úteis e aptas a contribuir. O lado negativo – onde entra a atuação dos Estados – é quando as pessoas não conseguem emprego, ou conseguem um trabalho que não as satisfaz.  

A China, por exemplo, tem uma posição ruim no ranking geral de felicidade dos países do Gallup World Poll (122 de 155), apesar do elevado crescimento econômico. Uma das razões são as condições de trabalho pouco favoráveis – casos de suicídios em fábricas no país são notórios. 

O desemprego não impacta apenas na renda, mas também na perda de status, auto-estima e vida social, entre outros fatores. Na aposentadoria, o relatório mostra que trabalhadores com maior acesso a educação experimentam aumento no bem estar. Já os que tem menor acesso a educação vivenciam a queda. 

Capital social

A quantidade e a qualidade de relações sociais em uma comunidade forma o chamado capital social. A felicidade individual também depende das relações entre as pessoas. Essa categoria incluis a confiança, o nível de relacionamentos entre pessoas iguais e diferentes, a liberdade dos indivíduos e a igualdade.

Valores e religião

A felicidade de um indivíduo depende de seus valores e também dos valores daqueles ao seu redor, segundo o relatório. O Gallup World Poll indica que a religiosidade é mais comum em países onde a vida é mais difícil (com menores salários, expectativa de vida, educação e segurança), por exemplo. 


Não há uma diferença na satisfação com a vida entre os habitantes de países mais ou menos religiosos, mas onde a vida é mais difícil, há mais emoções positivas e menos emoções negativas entre aqueles que são religiosos. Nos países onde a vida é “mais fácil” não há essa diferença, segundo o relatório. 

Saúde

A saúde física e mental está diretamente relacionada à felicidade, e também ao sistema de saúde de um país. A pesquisa encontra relações entre baixos índices de bem estar e doenças do coração, enfartos, suicídio e a duração da vida. Tanto para a saúde física quanto para a mental, quanto antes forem feitos os diagnósticos, mais rápido será feito o tratamento. 

Na maior parte dos países desenvolvidos, apenas um quarto das pessoas com doenças mentais estão em tratamento – em comparação com três quartos das que sofrem de doenças físicas. O relatório que afirma que a situação é ainda pior nos países em desenvolvimento. 

Família

Casamento e filhos entram nessa categoria. Nos países estudados, estar casado – mais do que solteiro, divorciado ou viúvo – está fortemente associado a uma indicação de felicidade mais elevada. Já no caso dos filhos, a presença deles não está necessariamente associada a uma maior satisfação. O aumento de felicidade que vem da experiência de ter filhos depende da idade da criança, da qualidade dos cuidados dos pais e do contexto social – incluindo ter tempo para aproveitar a família. 

Educação

A educação não tem uma relação direta com o nível de felicidade, mas ela o afeta indiretamente, por causa de sua relação com a renda – quanto maior o nível de educação, maior o nível de renda e, portanto, maior a felicidade. Além do dinheiro, mais anos nos bancos escolares indicam, geralmente, um aumento na possibilidade de obter emprego, maior segurança no cargo e a possibilidade de promoções, outros fatores que contribuem para a felicidade. A educação também tem uma colaboração indireta na participação política, pois auxilia na formação de um eleitorado informado e, nos países pobres, ajuda a reduzir as taxas de natalidade e mortalidade. 

Gênero e idade

As mulheres são mais felizes em países onde a igualdade de gêneros é maior. Nos países mais desenvolvidos, elas apresentam maior satisfação e felicidade do que os homens. A idade também está relacionada com a satisfação. Com o aumento da idade, a satisfação vai caindo – até atingir seu ponto mínimo na meia idade, entre 40 e 50 anos, e depois sobre novamente, para voltar a declinar entre 70 e 80 anos, com uma possível piora na saúde.