O que ler sobre a Segunda Guerra Mundial, 60 anos depois

Veja a lista de livros em inglês e português que contam a história do conflito

Amadores estudam tática e estratégia; profissionais estudam logística. O velho ditado em geral citado mais por militares da área de intendência do que de infantaria, cavalaria ou artilharia explica perfeitamente a maior guerra da história humana.

A Segunda Guerra Mundial, encerrada há 60 anos, não foi ganha por generais brilhantes na arte de manobrar tropas, como Alexandre, o Grande ou Napoleão Bonaparte, e sim pelos melhores administradores.

Os generais que venceram a Segunda Guerra eram executivos, verdadeiros gerentes de uniforme, como os americanos Dwight D. Eisenhower (1890-1969) que, não por nada, foi eleito presidente dos Estados Unidos anos depois do conflito , e George Marshall (1880-1959), mais conhecido pelo plano de recuperação econômica da Europa no pós-guerra, ao qual emprestou o nome.

Nenhum dos dois tinha a experiência de combate de seus rivais alemães. Mas isso não fez falta nenhuma. “Quanto mais eu vejo da guerra, mais eu entendo como tudo depende de administração e transporte”, declarou o marechal Archibald Wavell (1883-1950), um dos mais azarados comandantes britânicos do conflito. Wavell era um general brilhante. Mas sempre teve de lutar em inferioridade material, em situações impossíveis, com graves constrangimentos políticos e contra inimigos igualmente competentes na arte da manobra.

A citação, tirada do clássico Supplying War, um livro do historiador israelense Martin Van Creveld, que não trata apenas da Segunda Guerra, mas que é altamente esclarecedor sobre o tema, continua assim: “É preciso pouca aptidão ou imaginação para ver onde você gostaria de estar com o seu exército e quando; mas é preciso muito conhecimento e trabalho duro para saber onde você pode empregar suas forças e se você pode mantê-las ali. Um conhecimento real de fatores de suprimento e mpvimento deve ser a base do plano de qualquer líder. Só então pode ele saber como e quando correr riscos com esses fatores, e batalhas são ganhas apenas quando se correm riscos”, conclui Wavell.

Por que Eisenhower e Marshall triunfaram

O melhor livro para entender como Wavell foi infeliz, e Eisenhower e Marshall triunfaram, é Why the Allies Won, do britânico Richard Overy. Ele deixa claro que a maior pujança econômica dos aliados não significava que venceriam a guerra a história tem vários exemplos de países mais fracos economicamente vencendo, diz Overy.

Vários fatores, não apenas comparações de Produto Interno Bruto (PIB), influíram. Entre eles, uma melhor capacidade organizacional e gerencial para converter o PIB em poder de luta. Os soviéticos tinham um quarto do aço que os alemães tinham, mas produziram mais tanques, canhões e aviões que seus adversários.

Overy é um dos mais importantes historiadores da guerra atuais. Apesar de mais de meio século de literatura, consegue produzir obras com temas e conclusões originais _como Interrogations Inside the Minds of the Nazi Elite, assustador pelo que revela dos homens que poderiam ter conquistado o mundo. Só não o fizeram porque Hitler atacou a União Soviética sem ter liquidado com a Grã-Bretanha, e depois declarou guerra aos EUA.

Se tivessem lutado em apenas uma frente os alemães teriam chance de ganhar antes de o potencial industrial dos adversários ser traduzido no campo de batalha; combatendo contra EUA e a antiga URSS simultaneamente, mesmo com o auxílio do Japão, a derrota seria certa. Bastaria comparar os PIBs.

Para entender a estratégia de Hitler em um momento crucial, quando ele atacou a União Soviética antes de ter vencido a Grã-Bretanha, o livro essencial é outro do israelense Van Creveld, Hitlers Strategy 1940-1941. É um dos menos conhecidos livros do autor que tem a proeza de ter duas obras na lista de leitura obrigatória da academia militar americana de West Point como aquele sobre logística, que reescreve boa parte da história militar tendo como base o fato que deveria ser óbvio de que exércitos têm que comer, se mover e ter munição, além de combater.

Para ocidentais, o momento culminante da guerra foi o desembarque na França em junho de 1944. Há portanto uma multitude de bons livros sobre o tema. Six Armies in Normandy From D-Day to the Liberation of Paris, do historiador britânico John Keegan, é focado nas características das diferentes tropas nacionais que ali lutaram. Um excelente resumo sobre a campanha é Overlord, do jornalista britânico Max Hastings. Fica claro que os alemães tinham uma enorme vantagem na sua maior competência no campo de batalha mas que isso não bastava. Faltavam gerentes determinados.

A intensa rivalidade entre generais aliados em uma guerra é algo difícil de ser entendido pelos civis, diz Hastings. “Mas é um simples fato da vida que para soldados profissionais, a guerra oferece as mesmas oportunidades e realizações que grandes ofensivas de venda oferecem para presidentes de grandes corporações”, escreveu ele, em Overlord.

Livrão básico

Para quem quer começar a conhecer os seis anos mais impactantes do século 20, o ideal é primeiro ler um livrão genérico que resuma a história. Um dos melhores continua sendo The Penguin History of the Second World War, de Peter Calvocoressi, Guy Wint e John Pritchard.

A primeira edição do livro, de 1972, deixou muita gente curiosa, pois certos fatos não pareciam ter explicação fácil. Só em uma edição posterior, de 1989, que as grandes sacadas dos autores fizeram sentido. Durante vários anos, os aliados interceptaram as comunicações militares alemães feitas pela máquina de criptografia Enigma. O chamado projeto Ultra foi vital para os aliados planejarem sua estratégia. Calvocoressi participou do programa. Só na década de 1970 que se revelou o segredo do Ultra. Desde então, foi preciso reescrever boa parte dos livros sobre a guerra feita pelos aliados ocidentais.

O livro do trio tem em torno de 1 300 páginas. Para quem quer uma obra mais enxuta, o ideal é The Second World War, de A. W. Purdue, com 200 páginas. Faz parte de uma coleção recente de história européia e trata sucintamente dos principais temas, sem tanta ênfase nas operações militares.

Mesmo hoje, uma ótima e polêmica descrição da estratégia aliada são os seis volumes das Memórias da Segunda Guerra Mundial do ex-primeiro-ministro Winston Churchill. Ele liderou os britânicos em sua “hora mais negra”, quando quase todo o continente europeu estava em mão dos alemães nazistas. Prometeu, e cumpriu, “sangue, suor, lágrimas e trabalho”. Claro, seus livros procuram defender sua ações, e já mostram ecos da Guerra Fria que veio em seguida.

Churchill compete pelo título de maior estadista do século 20, além de ter ganho um Nobel de Literatura. O homem participou da última carga de cavalaria do exército britânico, no Sudão, em 1898; foi prisioneiro e fugiu de seus captores na Guerra dos Bôeres; chefiou o Almirantado na Primeira Guerra (1914-1918); e descende de John Churchill, Duque de Marlborough, o melhor general inglês do século 18.

Talvez por terem estado na guerra desde o começo, por terem estado entre os vencedores, e por já terem uma fortíssima tradição historiográfica, não resta dúvida de que os britânicos foram e continuam sendo os melhores autores a escrever sobre a guerra.

Historiografia na Grã-Bretanha

Um marco dessa produção britânica foi a série Ballantines Illustrated History of World War II, publicada nos anos 70 e composta por 154 títulos sobre variados aspectos da guerra (e de alguns conflitos anteriores e imediatamente posteriores). Os livros, fartamente ilustrados, foram publicados no Brasil pela Editora Renes. Tem tudo o que você queria saber sobre a guerra mas tinha medo de perguntar há um livro só sobre o jipe, um só sobre o caça britânico Spitfire, por exemplo. Os livros são divididos por temas como batalhas, campanhas, armamentos, biografias de líderes. Historiadores consagrados de ambos os lados do Atlântico participaram, como Paul Kennedy, Richard Holmes, John Keegan, Martin Blumenson, Kenneth Macksey.

Tomando carona da clássica frase de Churchill, o romancista Len Deighton escreveu um livro de não-ficção sobre o caos que foram os primeiros anos da guerra. Blood, Tears and Folly mostra como fez sentido o velho ditado de que o vencedor é aquele que comete menos erros.

Um petardo pioneiro foi a obra revisionista As Origens da Segunda Guerra Mundial (The Origins of the Second World War), do britânico A. J. P. Taylor. Alan Taylor foi um precoce historiador midiático, aparecia na primitiva TV dos anos 60 falando de história. É difícil achar alguém mais polêmico. Seu livro procurou inserir as origens da guerra na tradicional diplomacia européia, tirando o foco da figura do ditador nazista Adolf Hitler, que até então levava a culpa por tudo. Hitler virou uma espécie de demônio (e não deixava de sê-lo); foi portanto demonizado, mas Taylor quis ir além da explicação fácil. Provocou polêmica ao mostrar que Hitler não tinha planejado a guerra, que era basicamente um oportunista. O livro teve reverberações por anos se percebe ao se ler um volume de vários autores comentando, revisando e criticando a obra The Origins of the Second World War Reconsidered , editado por Gordon Martel.

Mesmo um livro antigo, “pré-Ultra”, merece ser lido; e não há melhor exemplo que The Struggle for Europe, do jornalista australiano Chester Wilmot. O livro, de 1952, revelou muita coisa até então pouco conhecida. Foi tanto um furo de jornalismo como um belo livro de história, segundo o historiador Michael Howard, autor do prefácio de uma edição recente.

Wilmot cobriu boa parte da guerra do lado ocidental, da campanha britânica no Norte da África à luta na Europa Ocidental. Viu de perto como operavam pequenas unidades: grupos de combate, pelotões, companhia. Ele se interessava sobretudo pela estratégia dos grandes exércitos. Por isso seu livro continua fascinante, apesar de um viés pró-britânico na discussão das estratégias aliadas e de ter sido muito influenciado pelo começo da Guerra Fria.

O autor achava que os aliados ocidentais cederam demais aos soviéticos. Estudos posteriores e mesmo um certo bom senso indicaram que não poderia ter sido muito diferente. Os soviéticos derrotaram de longe a maior parte do Exército alemão. Ocupar o Leste Europeu era corolário.

O livro foi extremamente influente. Infelizmente, como diz Howard, foi justamente essa parte menos sólida, da suposta “derrota política” ocidental, que teve a maior influência, graças à crescente Guerra Fria.

Apesar dessas pesquisas posteriores, também ainda é legível O Dia Mais Longo (The Longest Day), do irlandês Cornelius Ryan, que virou filme com um elenco de celebridades. Mostrando o ponto de vista dos defensores alemães, Invasion! They’re Coming!, Paul Carell, autor de vários volumes mostrando “esse outro lado”, também é igualmente legível.

Na televisão

Band of Brothers, de Stephen Ambrose, virou minissérie de TV e é um excelente relato do cotidiano do combate. Ambrose, historiador americano, tentou mostrar a eficácia das forças de seu país meio forçadamente. Pois se os pára-quedistas que ele retratou estavam entre os melhores guerreiros do Exército dos EUA, comparáveis ao que de melhor havia no inimigo, autores como Hastings mostram que isso era exceção, não regra.

A campanha na Normandia também rendeu boas memórias dos participantes. Há aquelas dos generais, que fizeram uma nova guerra sobre suas decisões e opções. Era Patton que detestava Montgomery que tinha inveja de Eisenhower e por aí vai.

O tanquista britânico Norman Smith, autor de Tank Soldier, está abaixo dessas polêmicas, e descreve com clareza o horripilante dia-a-dia do soldado. Foi o que fez para os aviadores o francês, nascido em Curitiba, Pierre Clostermann em O Grande Circo (Le Grand Cirque).

Hastings também escreveu Bomber Command, um livro fundamental sobre a principal estratégia da aviação aliada, o bombardeio da Alemanha. A polêmica e o debate moral que continua até hoje vide recentes demonstrações de alemães em Dresden, destruída, ao que parece, gratuitamente em 1945 , estão todos neste livro.

“Vencedor é quem comete menos erros”

Erros não faltaram na guerra. Para entender essas falhas de estratégia, outro britânico, Kenneth Macksey, escreveu e editou dois livros importantes: Military Errors of World War Two e The Hitler Options Alternate Decisions of World War II. Os vários autores deste último tentam mostrar o que poderia acontecer se Hitler tivesse feito escolhas diferentes, como por exemplo tentar coordenar seus ataques com os dos japoneses.

Por mais que autores como Keegan tentem realçar a importância da participação anglo-americana na guerra, não resta dúvida de que Hitler foi derrotado, principalmente, graças aos esforços dos soviéticos. E quem melhor deixa claro o quase inacreditável sofrimento dos povos da extinta URSS não foi nenhum autor russo, mas sim, de novo, o insuperável Richard Overy, em Russias War Blood Upon the Snow.

Outro britânico também mostrou em best-sellers recentes o drama da frente russa. Antony Beevor, ex-oficial do exército britânico, escreveu Estalingrado e Berlim 1945. A abertura dos arquivos russos depois do fim da Guerra Fria ajudando tanto a ele como a Overy.

Já a mais famosa descrição do drama do soldado alemão nesta frente foi obra de um francês, um natural daquela província que França e Alemanha trocavam entre guerras, a Alsácia. Le Soldat Oubli (The Forgotten Soldier), de Guy Sajer, narra o terror da frente russa de modo magistral. Tamanho é o impacto que já houve dúvidas sobre a autenticidade do relato, hoje em geral aceito como correto.

Um livro equivalente mostrando os horrores da guerra no Pacífico é With the Old Breed at Peleliu and Okinawa. São as memórias de E. B. Sledge, um fuzileiro naval que se tornou professor universitário. A selvageria dessa frente de combate foi única na guerra. Os japoneses raramente eram capturados vivos. Preferiam se suicidar à “desonra” da capitulação. O tipo de sociedade autoritária em que viviam era o perfeito caldo de cultura para criar um fenômeno incompreensível para ocidentais, os pilotos-suicida Kamikaze. Uma boa descrição deste Japão militarista por um autor japonês é The Pacific War 1931-1945, de Saburo Ienaga.

Os livros didáticos japoneses de história no pós-guerra passam uma visão açucarada das barbáries que os seus soldados cometeram na guerra, especialmente na China. Mesmo hoje políticos japoneses escorregam e enfurecem seus vizinhos com declarações insensatas.

Já os alemães fizeram uma autocrítica nacional bem mais intensa, do nazismo e de seus crimes contra a humanidade, como o massacre de eslavos, o genocídio de judeus, ciganos e a perseguição a opositores políticos e homossexuais. O livro clássico sobre o holocausto dos judeus é The Destruction of the European Jews, de Raul Hilberg.

Uma visão autêntica e honesta do impacto da guerra nos soldados, com base na experiência anglo-americana, está em Wartime, de Paul Fussell. Para ele, é óbvio constatar o dano da guerra em corpos e em objetos; menos óbvio é o dano que ela traz ao intelecto, à honestidade, individualidade, complexidade e ironia.
Fussell reclama da “romantização” excessiva da guerra. Muito disso se deve à falta de consenso sobre as guerras que vieram depois, como a desastrada intervenção americana no Vietnã.

A Segunda Guerra passou a ser a “boa guerra”, título usado ironicamente por Studs Terkel em sua coletânea de história oral, The Good War. Vencedor do prêmio Pulitzer, o livro traz entrevistas com personagens de vários países nas diferentes “frentes” do conflito incluindo mulheres que foram para as fábricas substituir os homens convocados.

Um país agrícola e subdesenvolvido não contaria muito em uma guerra entre potências industriais. O Brasil cedeu bases aos americanos, que foram úteis para o sistema global de transporte aliado e de proteção ao tráfego marítimo. E mandou 25 000 homens para a guerra na Itália. A experiência dessa Força Expedicionária Brasileira está relatada em inúmeros livros, dos quais um dos mais reveladores e importantes é Depoimentos de Oficiais da Reserva da FEB, de 16 autores, que por serem reservistas puderam ser bem mais honestos nas suas avaliações. Muitos protagonistas escreveram suas memórias, das quais uma das melhores é Senta a Pua!, do aviador Rui Moreira Lima, piloto do 1º Grupo de Caça na Itália. A experiência dos pilotos virou um ótimo documentário com o mesmo nome, mostrando que Brasil teve um papel pequeno, mas honroso na guerra.