O poder verde

Para Thomas L. Friedman, autor de O Mundo é Plano e colunista do jornal The New York Times, os Estados Unidos podem ajudar a salvar o planeta se liderarem a corrida pela energia limpa. Leia, a seguir, a íntegra do artigo publicado em EXAME:

I.

Um dia, o Iraque, o nosso trauma pós-11 de setembro e a indecisão dos anos Bush vão ficar para trás na historia – e a América vai precisar, e também querer, voltar a ser a nação que era antes de todos esses acontecimentos. Vamos precisar achar um jeito de reconstruir a América no plano doméstico, refazer nossa imagem no exterior e reconduzir o país ao seu lugar natural na ordem global – como o farol de progresso, esperança e inspiração. Tenho uma idéia de como isso vai ser. Ela pode ser resumida numa palavra: “verde”. No mundo das idéias, quando se dá um nome para algo, ele passa a ser seu. Se você puder batizar um assunto, significa que você tem poder sobre ele. Uma coisa que eu sempre lembrava sobre o termo “verde” era como ele foi definido pelos seus oponentes – ou seja, pelas pessoas que queriam desprezá-lo. Quem se interessasse pelo assunto era chamado de liberal, “amante das árvores” “maricas”, “homem efeminado”, “não patriota”, “ligeiramente francês”.

Bem, eu gostaria dar uma nova conotação para a palavra “verde”. Quero que ela esteja associada a termos como geo-estratégico, geo-econômico, capitalista e patriota. Quero fazer isso porque acho que viver, trabalhar, desenhar, fabricar e projetar a América dentro de uma plataforma verde pode ser a base de um novo movimento político capaz de trazer unidade para o século 21. Uma ideologia verde redefinida, mais ampla e mais forte, não com a intenção de criar algo além das agendas tradicionais dos republicanos e democratas, mas para fazer uma ponte ligando os três assuntos que mais preocupam os americanos hoje: emprego, temperatura e terrorismo.

Como é que nossos filhos podem competir num mundo mais plano? Como eles vão prosperar num mundo mais quente? Como é que eles vão sobreviver num mundo mais perigoso? Em resumo, estas são as grandes perguntas que a América enfrenta na entrada do século 21. Mas os problemas são de uma escala tão grande que somente podem ser abordados por uma América com 50 estados verdes – não um América dividido entre estados vermelhos e azuis.

Uma nova ideologia verde, corretamente definida, tem poder para mobilizar liberais e conservadores, evangélicos e ateus, grandes empresas e ambientalistas num programa que pode unir todos e nos levar para frente. É isso que eu digo: não precisamos apenas do primeiro presidente negro. Precisamos do primeiro presidente verde. Não precisamos apenas da primeira mulher presidente. Precisamos do primeiro presidente que priorize o meio-ambiente. Não precisamos apenas de um presidente que foi endurecendo por anos como prisioneiro de guerra, mas de um presidente que seja duro o suficiente para falar a verdade ao povo americano sobre as profundas ameaças econômicas, geopolíticas e climáticas advindas do fato de estarmos viciados em petróleo – e que ele seja capaz de oferecer um plano de verdade para reduzir a nossa dependência dos combustíveis fósseis.

Depois da segunda guerra, o presidente Eisenhower respondeu à ameaça do comunismo e à ameaça “vermelha” com grandes investimentos na malha rodoviária para unificar a América. Muito da motivação do investimento era para facilitar o transporte de armas no caso de uma guerra com os soviéticos. Mas a malha rodoviária ajudou criar a cultura do automóvel nos Estados Unidos (deixando em segundo plano nossas estradas de ferro) e trouxe também a urbanização desordenada, com casas e apartamentos de poucos andares. Tudo isso fez com que a América ficasse viciada nos combustíveis fósseis e baratos, em especial o petróleo. No mundo, muitos países seguiram esse modelo. Hoje, estamos pagando os preços geopolíticos, climáticos e econômicos acumulados por ter esse tipo de América. Eu não estou propondo que devemos alterar radicalmente os nossos estilos de vida. Somos quem somos – incluindo a nossa cultura do automóvel. Mas se queremos continuar sendo quem somos, desfrutando os benefícios e podendo passar tudo isso para os nossos filhos, então precisamos de um caminho mais limpo e mais verde para o futuro. Eisenhower uniu o país na luta contra a ameaça vermelha. O próximo presidente terá que nos unir com o patriotismo verde. Assim, meu novo lema é: “verde é o novo vermelho branco e azul”.

A boa noticia é que, depois de viajar pela América no ano passado, observando como as pessoas usam a energia e o avanço das opções mais limpas, posso afirmar que a causa “verde” deixou de ser um tema de alternativos para ser uma questão que faz parte da preocupação de todas as pessoas. Essa revolução foi desenhada por conta do 11 de setembro, o furacão Katrina e a revolução da internet. O primeiro nivelou as Torres Gêmeas, o segundo Nova Orleans e a terceira, o campo econômico global. A convergência do três virou muitos de nossas suspeitas sobre o “verde” de cabeça para baixo num espaço de tempo bem curto, fazendo uma coisa muito mais urgente para muitos americanos. Mas aqui está a notícia ruim: é verdade que mais e mais americanos se identificam com a causa verde (vou chamá-los de “geo-verdes”, pois sua crença ideológica é mais forte e estratégica). Mas precisamos ir muito além disso. Certamente, o fenômeno não provocou as mudanças necessárias para preservar o nosso estilo de vida. O segredo sujo é que estamos nos enganando. Aqui na América falamos como se fossemos “a geração mais verde” da história, como definiu uma vez o escritor de assuntos de negócios Dan Pink. Mas aqui está a real “verdade inconveniente”: nós nem mesmo começamos a pensar seriamente nos custos, os esforços e a escala da mudança que serão necessários para alterar os rumos de nosso país, e até mesmo do mundo, na direção de criar uma infra-estrutura de energia limpa nos próximos 50 anos.

II.

Poucas semanas depois das forcas americanas invadirem o Afeganistão, visitei a cidade fronteiriça paquistanesa de Peshawar, um berço de radicalismo islâmico. No caminho, parei no famosa Darul Uloom Haqqania, a maior madraçal da região, como são chamadas as escolas religiosas que ensinam uma visão ultraconservadora do Corão. A Darul Uloom tem 2 800 alunos. O mulá Muhammad Omar, um dos líderes do talibã, freqüentou essa madraçal quando era jovem. Eu e um amigo paquistanês recebemos permissão de observar uma classe de jovens sentados no chão, memorizando de uma forma metódica textos do Corão em cima de uma mesa de madeira. O clima estava tão antiquado e pesado que podia ser cortado em blocos. O professor pediu a um menino de oito anos para recitar um verso do Corão para nós, o que ele fez com a elegância de um muezin experiente. Perguntei a outro aluno, Rahim Kunduz, um refugiado afegão de 12 anos, qual foi a reação dele aos ataques de 11 de setembro, e ele disse: “É mais provável que os ataques vieram de americanos, dentro dos Estados Unidos. Eu fico feliz que a América tenha passado por uma experiência tão dolorosa, pois o resto do mundo já experimentou dor nas mãos deles”. Numa placa com moldura na parede estava escrito “Um presente do reino da Arábia Saudita”.

Algum tempo depois de 11 de setembro – um improvável assassinato em massa de inocentes realizado por 19 homens, dos quais 15 eram sauditas – a causa “verde” se tornou uma questão geo-estratégica. Foi quando começamos a nos dar conta que estávamos financiando os dois lados da guerra contra o terrorismo. Estávamos financiando a máquina militar dos Estados Unidos, com nossos impostos; estávamos financiando também a transformação do Islã rumo a sua ramificação mais intolerante, comprando gasolina desses países. Há algo mais burro do que isso?

O Islã sempre foi praticado de formas diferentes. Algumas delas têm uma cara mais moderna, com uma interpretação menos estreita do Corão e a tolerância a outras religiões. Nessa categoria estão o islã Sufi ou o islã populista de Egito, Turquia e a Indonésia. Algumas ramificações, como islã salafi – praticado pelos wahhabis da Arábia Saudita e pelos membros da Al Qaeda – acreditam que o Islã deve voltar para a forma mais austera praticada no tempo do profeta Maomé, uma forma hostil à modernidade, à ciência, “aos infiéis” e aos diretos da mulher. Ao enriquecer os tesouros sauditas e iranianos com nossas compras de gasolina, estamos financiando a exportação do islã saudita puritano e o fundamentalismo xiita iraniano, empurrando o mundo muçulmano na direção da intolerância. Nas margens das sociedades muçulmanas, isso cria mais recrutas para os esquadrões de homens-bombas do Talibã, Al Qaeda, Hamas, Hezbollah e os Sunni, no Iraque; no centro da sociedade muçulmana, cria uma contingente maior de pessoas que vêem os suicidas como mártires.

O esforço de exportação do islamismo da Arábia Saudita começou a entrar em ritmo acelerado depois que os fundamentalistas extremos desafiaram as credenciais muçulmanas da família real saudita quando tomaram a Grande Mesquita de Meca em 1979 – ano que coincidiu com a revolução iraniana e um salto nos preços do petróleo. O ataque à Grande Mesquita pelos militantes islâmicos, que portavam o Corão e rifles, sacudiu muitíssimo a família real. Os sauditas responderam a esse desafio à sua legitimidade reforçando sua imagem religiosa para o consumo externo. Eles deram à doutrina Wahhabi ainda mais poder para impor sua visão do islamismo na vida pública do país. Cheios de dinheiro graças à montanha-russa dos preços do petróleo, o governo saudita e alguns benfeitores também gastaram centenas de milhões de dólares equipando mesquitas, clubes de jovens e escolas muçulmanas no mundo inteiro, assegurando aquele wahhabismo, com professores e livros pregando o tipo de islã dos sauditas. Finalmente, lembra Lawrence Wright no livro “The Looming Tower”(A torre ameaçadora, em português), obra que conta a história de Al Qaeda, “A Arábia Saudita, que compõe apenas um por cento da população muçulmana do mundo, iria sustentar 90 por cento das despesas da fé no mundo, prevalecendo sobre outras tradições de Islã”. As mesquitas sauditas e os doadores ricos também mandaram muito dinheiro para os insurgentes sunitas no Iraque. A Associated Press divulgou de Cairo em dezembro a seguinte notícia: “Vários motoristas entrevistados pela AP nas capitais do Oriente Médio disseram que os sauditas estão usando eventos religiosos, como a peregrinação hajj para Meca e outras peregrinações menores, para encobrir transferências ilícitas de dinheiro. Segundo essas mesmas fontes, uma parte do dinheiro é levado para o Iraque nos ônibus com os peregrinos voltando. ‘;Eles enviaram caixas cheias de dólares e me pediram para entregar para certos endereços no Iraque,’; disse um dos motoristas… ‘;Eu sei que está indo para a resistência e, se eu não levar, eles me matam.’;”.

Por isso, um número grande de americanos concluíram que economizar petróleo é agora uma obrigação geo-estratégica, pois significa colocar menos dinheiro nas mãos das forças hostis. A recusa do presidente Bush em fazer alguma coisa importante depois do 11 de setembro para reduzir nosso uso de gasolina realmente resulta numa política de “não deixe nenhum mulá para trás”. James Woolsey, ex-diretor da Cia, acerta em cheio quando diz: “Estamos comprando a corda que será usada para nos enforcar”.

Não estou querendo quebrar a economia da Arábia Saudita, nem causar uma revolta islâmica lá. A sua liderança é mais moderada e pró-Ocidente do que seu povo. Mas a maneira que a família real Saudita pagou para manter na instituição religiosa no poder, não é saudável. Cortar o preço do petróleo pela metade podaria ajudar a mudar isso. Na década de 90, a redução de rendas do petróleo causou um debate entre os sauditas sobre menos religião e mais ciência nas escolas sauditas. Houve até experiências com eleições locais. Mas o recente aumento de rendas do petróleo abafou quaisquer discurso sobre reformas.

Isso se deve ao que eu chamo de “A primeira lei da Petro-política”: o preço do petróleo e o passo da liberdade sempre andam em direções opostas nos estados que são altamente dependentes das exportações do combustível para sua renda e que têm instituições fracas, ou governos autoritários. E isso é outro motivo que transformou a causa “verde” numa questão geo-estratégica. Os preços altíssimos do petróleo estão envenenando o sistema internacional ao fortalecer os regimes antidemocráticos no mundo.

Eis o que aconteceu: pensamos que a queda do muro de Berlin iria liberar uma enorme onda de mercados e povos livres, e durante mais ou menos uma década ocorreu exatamente isso. Mas aqueles anos coincidiam com o preço do petróleo na faixa entre 10 e 30 dólares o barril. Quando o preço do petróleo subiu para a faixa entre 30 e 70 dólares no inicio deste século, fez disparar uma contra-maré – uma maré de “petro-autoritarismo” – manifesto na Rússia, Irã, Nigéria, Venezuela, Arábia Saudita, Síria, Sudão, Egito, Chade, Angola, Azerbaijão e Turcomenistão. A elite eleita ou auto-eleita no poder desses estados usaram a abundância de dinheiro do petróleo para se afirmar no poder, comprar os oponentes e lutar contra a maré da queda-do-muro-de-Berlim. Se continuarmos financiando essa turma através da compra de petróleo, eles vão remodelar o mundo à sua imagem e semelhança ao redor de valores como os de Putin.

Dá para ilustrar a Primeira Lei da Petro-política com um gráfico simples. Em uma linha, está a evolução do preço do petróleo de 1979 até hoje; numa outra, a curva dos índices de liberdade da Freedom House ou do Fraser Institute para Rússia, Nigéria, Irã e Venezuela durante os mesmos anos. Quando você coloca as duas linhas no mesmo gráfico, dá para notar uma coisa surpreendente: o preço do petróleo e o passo da liberdade são correlacionados de maneira inversa. Quando os preços do petróleo sofreram uma queda no início dos anos 90, a competição, transparência, participação política e prestação de contas dos governantes daqueles países aumentaram – isso pode ser medido por eleições livres, novos jornais, eleição de políticos identificados com reformas, reformas econômicas iniciadas e empresas privatizadas. Isso é porque seus regimes petro-autoritários foram obrigados a se abrir para investimentos estrangeiros, além de investir mais na educação e liberdade de seus povos a fim de gerar mais rendas. Mas, quando os preços do petróleo subiram por volta de 2000, a liberdade de falar, a liberdade de imprensa, as eleições livres e a liberdade de formar partidos políticos e ONGs começaram a desaparecer em todos esses países. O lema da revolução americana era “nada de impostos sem representação”. O lema do petro-autoritarismo é “nenhuma representação sem impostos”: se não preciso de seus impostos, porque me basta o dinheiro proveniente dos poços de petróleo, então não preciso escutar você.

Não foi por acidente que, quando os preços do petróleo estavam baixos nos anos 90, o Irã elegeu um parlamento reformista e um presidente que pediu um “dialogo de civilizações”. Mas quando o preço do petróleo subiu para 70 dólares o barril, os conservadores do Irã expulsaram os reformistas e escolheram um presidente que disse que o holocausto é um mito. (Garanto a você que, se o preço do petróleo cair para 25 dólares o barril, o holocausto deixará de ser um mito.) Não foi por acaso que o primeiro estado do Golfo Pérsico que começou a ficar sem petróleo, o Bahrain, é também o primeiro estado árabe a ter eleições livres e justas, nas quais as mulheres podem se candidatar e votar. Ele é também o primeiro estado árabe a revisar suas leis trabalhistas para combater os índices de desemprego entre seu povo e o primeiro a fazer um acordo de livre comércio com os Estados Unidos.

As pessoas mudam quando precisam – não quando são aconselhadas a fazer isso – e a queda de preços de petróleo tem o poder de fazer com que elas sintam necessidade de mudar. Por isso, se estamos procurando um Plano B para o Iraque – um jeito de pressionar uma reforma política no Oriente Médio sem que seja necessária uma nova guerra -, não existe um instrumento melhor para isso do que reduzir o preço do petróleo. Quando a questão é fomentar a democracia entre os regimes petro-autoritários, não importa se você é um neoconservador ou um liberal radical. Se você não for também um “geo-Verde”, não vai dar certo.

A noção de que conservar energia é uma obrigação geo-estratégica agora está presente também no Pentágono, mas por motivos ligeiramente diferentes. Os generais estão se dando conta de que, quanto mais energia se economiza no calor da batalha, mais força eles podem projetar. Já é de alguns anos que o Pentágono está procurando melhorar sua eficiência no uso de energia para economizar dinheiro. Mas a guerra no Iraque originou um novo movimento entre os militares dos Estados Unidos: os “águias verdes”. Amory Lovins, do instituto Rocky Mountain, que está trabalhando para o Pentágono, me explicou a coisa da seguinte maneira: a guerra no Iraque obrigou os militares dos Estados Unidos a pensarem muito mais seriamente de como “comer sua cauda” – a encurtar suas linhas de suprimento ao serem mais eficientes no uso da energia. De acordo com Dan Nolan, que supervisiona projetos de energia para a Força Rápida de Equipar do Exército, esse processo começou a ocorrer no início do ano passado, quando um general-maior dos Marines, Anbar Province, disse para o Pentágono que ele queria fontes alternativas de energia, pois isso iria reduzir consumo de combustível no deserto iraquiano. Por que? Seus equipamentos funcionam com geradores portáteis — e os geradores utilizam diesel. O combustível chegava ao campo de batalha carregado por caminhões e os insurgentes estavam explodindo os veículos.

“Quando analisamos seu pedido, na verdade, era sobre o fato que seus soldados estavam sendo atacados nas estradas trazendo combustível e água”, disse Nolan. Então comer a cauda significa “pegando coisas que você precisa trazer para a unidade e tentar gerá-las no próprio local”. Para esse fim a equipe de Nolan está agora fazendo experiências com tudo, desde novos tipos de barracas que necessitam de 40% a menos de energia para manter o ar-condicionado a novos tipos de células de combustível que produzam água como subproduto.

Preste atenção: quando o exército americano se desintegrou, o país se desintegrou junto; quando o exército se torna verde, o país pode realmente se tornar verde. “Independência de energia é assunto de segurança nacional”, afirmou Nolan. “É o negócio certo para nós no momento… não estamos tentando mudar todo o exército. O nosso trabalho é focar naquele batalhão lá e dar aos seus comandantes as inovações tecnológicas que precisam para lidar com a missão de hoje. Mas, quando retornarem para casa, vão carregar de volta todas aquelas coisas.”

III.

O segundo motivo principal por que a causa verde faz parte hoje das preocupação de muita gente é porque o aquecimento global também se tornou um assunto discutido por todos. Uma década atrás, somente os especialistas se preocupavam com a perspectiva de que a mudança climática era real, na maior parte causada por humanos e com potencial para levar à perda de espécies e a uma crise do meio-ambiente. Agora todas as pessoas estão começando a se preocupar porque estão vendo coisas que nunca viram antes acontecer em seu próprio quintal e lendo coisas que nunca tinha lido antes nos seus jornais – como um recente relatório feito pelo painel intergovermental da Organização das Nações Unidas de 2 000 peritos sobre as mudanças climáticas. O documento concluiu que “as mudanças climáticas agora estão afetando os sistemas físicos e biológicos em todos os continentes”. Eu fui a Montana em janeiro e o governador Brian Schweitzer me disse: “Não temos tanta neve nas terras altas como antigamente e começa derreter mais cedo na primavera. O rio onde eu costumo pescar nos últimos 50 anos está mais quente em julho em cinco graus do que há 50 anos. Portanto, o ambiente ficou difícil para a população de trutas”. Eu fui a Moscou em fevereiro passado e meus amigos me disseram que haviam acabado de comemorar o primeiro natal sem neve. Parei em Londres na volta e não precisava de casaco. Em 2006, a temperatura media na região central da Inglaterra era a mais alta registrada desde que o Central England Temperatura (CET) começou a realizar esse tipo de medição em 1659.

Sim, ninguém sabe exatamente o que vai acontecer. Mas é cada vez mais difícil achar gente que acredita que não é preciso fazer nada a respeito. Numa conversa recente comigo, o governador Arnold Schwarzenegger, da Califórnia, resumiu toda essa nova onda sobre o clima da seguinte forma: “Se 98 médicos dizem que meu filho está doente e precisa de medicação e apenas dois falam ‘;não, ele não precisa, ele está bem,’; eu fico com os 98. É o que diz o bom senso – e o mesmo se aplica à questão do aquecimento global. Ficamos com a maioria, a grande maioria… A questão agora é: como foi a era industrial que criou o problema, o que temos de fazer agora é achar maneiras de reverter essa situação”.

Mas, como fazer isso? Agora chegamos ao primeiro empecilho para a causa “verde” mobilizar de fato todas as pessoas. A maior parte da população não faz idéia – nenhuma idéia – de qual seria o tamanho de um projeto industrial para evitar a mudança climática. Aqui temos duas pessoas que sabem: Robert Socolow, professor de engenharia, e Stephen Pacala, professor de ecologia, que juntos lideram o Carbon Mitigation Initiative em Princeton, um consórcio de pesquisas criado para elaborar soluções em larga escala para o problema climático. Num artigo publicado na revista “Science” em agosto de 2004, eles alertaram que nossa civilização tinha pouca margem a mais para emissão de carbono na atmosfera, sob o risco de chegarmos a um nível de dióxido de carbono (CO2) jamais atingido na historia geológica recente. Nessa situação, o sistema climático do planeta começa a entrar em colapso. Há um consenso cientifico, defendem os autores do artigo, de que os riscos da ocorrência de problemas aumentam rapidamente à medida em que os níveis de CO2 cheguem perto do dobro da concentração registrada na atmosfera no período pré-revolução industrial. Se isso ocorrer, teremos um padrão climático violentamente instável, geleiras derretendo e secas prolongadas, entre outras catástrofes.

“Pense na mudança de clima como se ela fosse um armário embutido. Atrás da porta, existe uma série de monstros, de todos os tipos – e essa lista é bem grande”, diz Pacala. “Todo nosso trabalho cientifico diz que os monstros mais perigosos vão sair detrás daquela porta quando atingirmos o dobro do nível de CO2”. Como me disse Bill Collins, que chefiou o desenvolvimento de um modelo usado no mundo inteiro para simular mudanças climáticas, “estamos realizando uma experiência descontrolada dentro da única casa que nós temos”.

Então aqui esta o nosso desafio, de acordo com Pacala: se não fizermos nada e as emissões globais de CO2 continuarem a crescer ao mesmo passo dos últimos 30 anos durante os próximos 50 anos, vamos ultrapassar o ponto crítico – uma concentração atmosférica de dióxido de carbono de 560 partes por milhão – por volta do meio do século. É preciso ainda deixar espaço para o crescimento dos países desenvolvidos, que devem reduzir seu ritmo de redução de carbono, e para a evolução de nações como Índia e China, que irão emitir o dobro ou triplo de carbono em relação a seus níveis atuais, até sair da pobreza e poder se tornar mais eficientes com a energia. Tudo isso vai requerer um enorme projeto industrial global de energia.

Para dar uma idéia da escala necessária, Socolow e Pacala criaram um gráfico em formato de uma torta com quinze fatias. Algumas das fatias representam tecnologias livres do carbono ou capazes de reduzir sua emissão; outras fatias representam programas de eficiência que podem levar à economia de grandes quantidades de energia e evitar novas emissões de CO2. Eles argumentam que o mundo precisa utilizar apenas sete das quinze fatias, ou quantias pequenas de todas as quinze fatias para chegar à mesma quantidade, a fim de sustentar o desenvolvimento econômico mundial e evitar o aumento perigoso dos níveis de CO2 na atmosfera. Cada fatia, pensando-se nos próximos 50 anos, tem o poder de evitar a liberação de 25 bilhões de toneladas de carbono. Com isso, teríamos uma redução total de 175 toneladas de carbono entre os dias de hoje e o ano de 2056.

Aqui está uma modelo de como podemos escolher as sete fatias: “substituir 1 400 grandes fábricas que usam carvão por unidades industriais do mesmo porte que utilizem gás; aumentar a economia de combustível de dois bilhões de carros de 30 para 60 milhas por galão; dobrar o uso de energia nuclear para substituir o carvão; dirigir dois bilhões de carros com etanol, usando apenas um sexto da terra para o cultivo de sua matéria-prima; aumentar o uso de energia solar em 700 vezes para substituir carvão; reduzir o uso de eletricidade nas casas, escritórios e lojas em 25%; instalar sistemas de captura e de seqüestro de carbono em 800 grandes usinas de carvão”. As oito fatias que restam não são menos fáceis de serem viabilizadas. Elas incluem, por exemplo, parar de cortar e queimar florestas, já que o desmatamento causa cerca de 20% das emissões de CO2 no mundo. “Nunca houve um projeto industrial na história tão grande como esse”, afirmou Pacala. Combinando o aumento do uso de tecnologias limpas para a geração de energia e medidas de economia, “temos que nos livrar de 175 bilhões de toneladas de carbono nos próximos 50 anos – e ainda continuar a crescer. É possível realizar tudo isso se começarmos hoje. Mas, a cada ano que demoramos para iniciar esse processo, o trabalho se torna mais difícil – e se demoramos mais uma década ou duas, talvez se torne impossível evitar o nível crítico de carbono”.

IV.

Em novembro do ano passado, eu fui de Xangai a Pequim através da Air China. Ao pousar em Pequim, a comissária de bordo chinesa disse no alto-falante, enquanto o avião se encaminhava para o terminal,: “Acabamos de pousar em Pequim . A temperatura é de 8 graus Celsius, 46 graus Fahrenheit e o céu esta limpo”. Quase caí na gargalhada. Através da minha janela, dava para ver que a poluição e neblina estavam tão espessas que mal dava para enxergar todo o prédio do terminal. Mas, quando cheguei em Pequim, meus amigos da cidade disseram que o ar estava melhor do que o normal. Por quê? A China foi anfitriã de uma reunião de cúpula de 48 governantes africanos. Segundo a revista Time, as autoridades de Pequim tinham “ordenado que meio milhão de carros oficiais ficassem fora de circulação e afirmaram que outros 400 000 motoristas tinham se oferecido voluntariamente a não usar seus veículos” a fim de limpar o ar para os visitantes africanos. Tão logo eles saíram, os carros voltaram e o ar de Pequim voltou a se tornar “insalubre”.

A situação também chegou a esse ponto por causa do fim do comunismo, da ascensão do computador pessoal e da popularização da internet, que abriram o campo econômico global para um número enorme de pessoas, todas elas com suas próprias versões do sonho americano – uma casa, um carro, uma torradeira, um forno microondas e uma geladeira. É uma benção ver tantas pessoas saindo da pobreza. Mas quando o estilo de vida de 3 bilhões de pessoas deixa de ter um impacto desprezível em termos ambientais e passa a representar um patamar significativo, tornar-se uma tarefa urgente encontrar maneiras mais limpas de realizar os sonhos dessas pessoas, escreveu Jared Diamond no livro Collapse (colapso, em português). De acordo com Lester Brown, fundador do Earth Policy Institute, se a China crescer a um ritmo de 8% ao ano, até 2031 a renda per capita dos 1,45 bilhão de chineses será igual à dos americanos em 2004. Atualmente, a China tem uma média de um carro para 100 pessoas. Segundo as projeções de Brown, quando a população do país asiático alcançar o nível americano de renda e copiar o padrão de consumo registrado nos Estados Unidos, também terá três carros a cada grupo de quatro pessoas, ou 1,1 bilhão de veículos. A frota total do mundo hoje é de 800 milhões de veículos!

É por isso que o McKinsey Global Institute prevê que os países em desenvolvimento vão ser responsáveis por quase 80 por cento do crescimento da demanda por energia até 2020. Desse total, a China deve representar 32% e Oriente Médio 10%. Em função disso, se “China Vermelha” não se transformar na “China Verde” não será possível mantermos nossos monstros climáticos escondidos atrás da porta. Alguns dias atrás, segundo divulgou a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, quase 25% da concentração de poluição no ar de Los Angeles são provocados por usinas e fábricas que usam carvão na China. A fumaça dos escapamentos dos carros na China e a poeira provocada por secas e desmatamento na Ásia também contribuem para o problema.

A boa notícia é que a China sabe que precisa crescer de uma maneira ambientalmente sustentável – ou não vai crescer nada. Em setembro do ano passado, um jornal do país divulgou que o Ministério do Meio-Ambiente da China e a agência nacional de estatísticas haviam feito uma análise aprofundada dos números do PIB da China em 2004. Eles concluíram que os problemas de saúde, a degradação do meio-ambiente e os dias perdidos no trabalho por causa da poluição representaram um custo de 64 bilhões de dólares para a China, ou 3,05% de sua produção econômica de 2004. Alguns peritos acreditam que o numero verdadeiro esteja perto de 10%. Assim a China tem uma forte motivação para limpar seu ar dos piores poluentes. As principais substâncias são óxidos de nitrogênio, óxidos de enxofre e o mercúrio responsável por chuva ácida, fumaça e neblina – muitos dos quais vêm da queima de carvão. Mas é mais fácil falar sobre a necessidade de limpar o ar do que fazer. A legitimidade do partido comunista e a estabilidade do país inteiro dependem muito da habilidade de Pequim em aumentar os padrões de vida de um número cada vez maior de chineses.

Então, se você é um prefeito na China e tem que escolher entre aumentar empregos e cortar poluição, com certeza vai escolher empregos: trabalhadores com tosse representam menos perigo político do que trabalhadores desempregados. Isso explica os resultados do 10o Plano Qüinqüenal da China. Ele começou a ser colocado em prática em 2000, estabelecendo uma meta de redução de 10% no dióxido de enxofre emitido no ar do país. Quando esse plano foi concluído em 2005, a poluição de dióxido de enxofre na China tinha aumentado em 27%. Mas se a China tem dificuldade hoje para limpar seus óxidos de nitrogênio e enxofre – coisa que pode ser feita de uma forma relativamente barata instalando filtros nas chaminés das usinas que utilizam carvão – imagine o que vai acontecer quando a China precisar diminuir seu CO2, do qual o país é hoje o segundo maior emissor mundial, depois dos Estados Unidos. Para chegar a um modelo de usina que captura, separa e seqüestra de forma segura o CO2 no chão antes que ele suba até a chaminé, é preciso realizar alterações caras ou instalar um sistema completamente novo. A construção e operação desse sistema novo vai representar um custo adicional de 40% – e vai produzir 20% a menos de energia, segundo o estudo “O Futuro do Carvão”, realizado recentemente pelo MIT. A China – que está construindo por semana o equivalente a duas usinas de carvão com potência de 500 megawatts – não vai pagar esse preço. Lembre-se: CO2 é um gás invisível, inodoro, sem sabor. Sim, ele provoca o aquecimento global – mas não faz mal para ninguém na China hoje. E se livrar dele custa caro e não tem nenhuma compensação financeira. A atual estratégia da China diante da questão das emissões de CO2 é dizer que esse problema foi gerado pelo Ocidente. “É bom destacar que a mudança climática foi provocada pelas emissões dos países desenvolvidos ao longo de muito tempo e suas altas taxas de emissões per capita”, declarou em fevereiro Jiang Yu, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China. “Os países desenvolvidos têm uma responsabilidade sobre o assunto que eles não podem negar”.

Agora chegamos à essência do problema: a causa “verde” não vai mobilizar as pessoas nos Estados Unidos como deveria se o mesmo não acontecer em países como China, Índia e Brasil. Para que a causa “verde” seja capaz de provocar mudanças nessas nações em desenvolvimento, os preços dos sistemas alternativos de energia – eólicos, biocombustíveis, nucleares, solares ou seqüestração de carvão – terão que chegar ao “valor da China”. Ele é basicamente o valor que aquele país paga hoje para obter eletricidade a partir de carvão. Atualmente, a China não esta preparada a pagar um preço mais alto por energia, sacrificando seu crescimento e estabilidade, apenas para se livrar do CO2 proveniente da queima de carvão.

“O ‘;valor da China’; é a referência que tudo mundo está tentando alcançar”, afirmou Curtis Carlson, CEO de SRI Internacional, empresa que está desenvolvendo tecnologias de energia alternativa. “Jamais os chineses vão aceitar pagar 10% a mais por energia quando existem por lá dezenas de milhões de pessoas vivendo com menos de 1 000 dólares por ano”. Carlson continua: “Nós temos uma quantia enorme de inovações que precisam ser colocadas em prática para atingirmos um valor que China e Índia vão poder pagar. Mas isso também representa uma oportunidade”.

V.

A única maneira que vamos ter as inovações capazes de reduzir os custos para o “valor da China” – inovações em eletrodomésticos, luzes e materiais de construção que economizam e em combustíveis e usinas que não fazem emissões de CO2 – é mobilizando as forças de mercado do capitalismo. Tão poderosa quanto a “Mãe Natureza” é o “Pai Ganância”. Até certo ponto, o mercado já está trabalhando nesse projeto – isso porque alguns capitalistas de risco e empresas entendem que tecnologia limpa vai ser a próxima grande indústria global. Tome-se como exemplo o Wal-Mart. O maior varejista do mundo acordou para esse assunto há pouco tempo, disse-me Lee Scott, o CEO da empresa. Segundo ele, a rede se deu conta de que seus consumidores tinham expectativas em relação ao comportamento ambiental da empresa muito maiores do que a dos executivos da própria companhia. Então Scott contratou um perito de sustentabilidade, Jib Ellison, para orientar a empresa nessa questão. A primeira lição que Ellison ensinou foi que aderir à causa verde representava uma nova maneira para o Wal-Mart cortar custos e aumentar os lucros. Scott ouviu de Ellison o seguinte: “Lee, a coisa que você precisa perceber é que todas estas coisas que as pessoas não querem que sejam colocadas no meio-ambiente representam algum tipo de desperdício – e, além do mais, você está pagando por isso!”.

Então Scott iniciou um programa junto os fornecedores do Wal-Mart para a redução de 5% nos materiais usados nas embalagens até 2013. Os avanços obtidos até agora já têm um impacto em termos de economia para a empresa. “Criamos equipes para trabalhar em todos os setores da empresa”, afirmou Scott. “Era um trabalho voluntário. No começo, alguém conseguiu uma fórmula para reduzir o material utilizado numa embalagem. Em seguida, outra pessoa nos mostrou que poderíamos reciclar mais plástico. De repente, quando nos demos conta, estávamos economizando o equivalente a 1 milhão de dólares por trimestre”. O Wal-Mart opera 7 000 grandes caminhões Classe 8, com um rendimento de aproximadamente 2,6 quilômetros por litro. A empresa fez uma solicitação aos fabricantes dos veículos para conseguirem dobrar a eficiência energética da frota até 2015. O Wal-Mart é como a China entre as empresas, então, “se fizermos um pedido, podemos criar um mercado” para inovações na área de energia, explicou Scott.

Outro exemplo: o Wal-Mart usa suas gôndolas para criar um mercado gigante para lâmpadas fluorescentes compactas, que usam 25% da energia de uma lâmpada incandescente para produzir a mesma luz e durar 10 vezes mais tempo. “A rede pode ter um impacto revolucionário no mercado de tecnologias verdes, apenas fazendo o que sabe fazer de melhor – economizar dinheiro para os clientes e cortar custos”, diz Glenn Prickett da Conservação Internacional, um consultor do Wal-Mart. “Se cada um dos 100 milhões de clientes da empresa nos Estados Unidos comprarem apenas uma lâmpada fluorescente, que economiza energia, ao invés de uma lâmpada incandescente tradicional, poderiam cortar emissões de CO2 em 21 bilhões de quilos e economizar mais de 3 bilhões de dólares”.

Esse tipo de economia demonstra algo que é freqüentemente esquecido: que o caminho mais rápido para chegar ao “valor da China” para a energia limpa é sendo mais eficiente no uso da energia. A usina mais barata, mais limpa, com menos emissões no mundo, é aquela usina que não é construída. Ajudar a China a adotar programas avançados de incentivo à eficiência no uso de energia, como na Califórnia – tais como recompensar fornecedores de eletricidade pela quantidade de redução de consumo que conseguem convencer seus clientes a fazer – poderia ter um impacto enorme. Alguns peritos estimam que a China poderia cortar sua necessidade de usinas novas em 50% com investimentos agressivos em eficiência energética. Uma outra força que está nos ajudando a avançar para o “valor da China” são os próprios empresários chineses. Eles sabem que Pequim não vai fazer tão cedo restrições às emissões de CO2, mas os países desenvolvidos vão, então isso vai ser um negócio global – e eles querem uma fatia. Gostaria de introduzir a vocês o homem identificado pela revista Forbes no ano passado como a sétima maior fortuna da China, com patrimônio estimado em 2,2 bilhões de dólares. Seu nome é Shi Zhengrong e ele é o maior fabricante de painéis solares de silicone, feitos para converter a luz do sol em eletricidade.

“Pessoas em todos os níveis na China ficaram mais sensibilizadas para a questão do meio-ambiente e para as alternativas energéticas”, disse Shi, cuja empresa, a Suntech Power Holdings, tem ações na Bolsa de Valores de Nova York. “Há cinco anos, quando comecei a empresa, as pessoas diziam: ‘;Por que precisamos de energia solar? Temos energia de sobra à base de carvão.’; Agora é diferente: as pessoas se deram conta de que a energia solar tem um futuro brilhante. Mais, todavia, ainda é muito cara… Temos que reduzir os custos o mais rápido possível – os nossos concorrentes são na verdade o carvão e a energia nuclear”.

A maior parte da operação de Shi é realizada na China, mas ele exporta cerca de 90% de seus produtos, porque eles têm preços muito altos para o mercado interno. Quanto mais ele conseguir reduzir o preço dos painéis, o que vai possibilitar o crescimento de seu negócio dentro da China, mais ele tem chances de ganhar musculatura para dominar o mercado global. Graças ao sucesso da Suntech na China “há uma corrida de empresários entrando nesse setor, mesmo que ainda não tenhamos um mercado aqui”, acrescentou Shi. “Muita gente do governo agora diz: ‘;Isso é uma indústria!’;” E, se der certo, a China pode fazer com painéis solares a mesma coisa que fez com produtos como os tênis – ou seja, reduzir tanto o valor que todo mundo pode ter acesso ao produto.

VI.

Tudo isso parece legal – mas lembra-se daquelas sete fatias? Para alcançarmos a escala necessária de energia livre de emissões, serão necessárias grandes usinas nucleares ou de carvão limpo, fazendas eólicas e fazendas solares, sendo que todo esse sistema precisa estar conectado a uma grande rede de transmissão nacional – isso sem falar ainda em combustíveis limpos para nossos carros e caminhões. E o mercado sozinho, da forma como ocorre hoje nos Estados Unidos, não vai conseguir escala de produção desses sistemas alternativos a ponto de chegar ao “valor da China” com suficiente rapidez. O professor Nate Lewis, químico notável de Caltech e perito em energia, explicou as razões disso com ajuda de uma analogia. “Imagine que você inventou o primeiro celular”, ele diz. “Você podia cobrar 1 000 dólares por aparelho porque muita gente estava pronta a pagar muito dinheiro para um telefone que podia carregar no bolso”. Com aqueles lucros, você, o inventor, além de pagar os acionistas, teria fôlego para continuar investindo em pesquisa. Dessa forma, poderia continuar crescendo no mercado, vendendo celulares melhores e mais baratos.

No caso da energia, porém, ocorre algo diferente, explicou Lewis: “Se eu chego a você e digo ‘;hoje as luzes de sua casa vêm de uma energia gerada a partir de carvão sujo; se você me pagar mais 100 dólares por mês, vou usar energia solar para gerar eletricidade para sua casa,’; provavelmente você iria dizer: ‘;desculpe, Nate, mas, na verdade, não quero saber de onde vem a minha energia, apenas não quero ficar sem ela. Não vou pagar mais 100 dólares por mês por causa de um sistema de energia solar. Um novo celular melhora a minha vida. Já uma maneira diferente de acender as luzes não me traz beneficio algum’;”. “Então construir uma infra-estrutura de energia livre de emissões não é igual a mandar um homem para a Lua”, prossegue Lewis. “Com a viagem para a Lua, dinheiro não era um problema – tudo o que tínhamos que fazer era chegar lá. Mas, hoje, já temos energia barata de carvão, gás e petróleo. Então obrigar as pessoas a pagar mais por combustíveis limpos é como tentar conseguir verbas para NASA construir uma nave para ir à Lua – quando a Southwest Airlines já voa para lá e ainda dá amendoim de graça aos passageiros! Eu já tenho uma viagem barata para a Lua, e uma viagem é uma viagem. Para a maioria das pessoas, eletricidade é eletricidade, não importa como ela é gerada”.

Se começar a faltar carvão ou petróleo, o mercado irá pressionar gradativamente os preços para cima. Isso vai estimular o investimento em inovação em sistemas alternativos. Mais cedo ou mais tarde, ocorrerá uma troca, e os alternativos vão tomar lugar dos sistemas tradicionais, começar a ter mais importância e seus preços tendem a ser reduzidos. Mas o que aconteceu com a energia nos últimos 35 anos? A cotação do petróleo passou por períodos de alta, estimulado subsídios do governo e alguns investimentos em alternativos. Mas, sempre que a cotação do produto, o governo perde interesse, os subsídios expiram e os investidores em alternativos desaparecem.

A única maneira de estimular a escala de um investimento sustentado em pesquisa e desenvolvimento de uma energia sem emissões de CO2 para chegar ao “valor da China” é se os países desenvolvidos, que têm condições de fazer, obrigarem sua população a pagar todos os custos econômicos e geopolíticos de usar gasolina e carvão sujo. Os países que assinaram o Protocolo de Kyoto estão começando a fazer isso. Mas os Estados Unidos ainda não. Até agora, disse Lester Brown, que é o presidente do Earth Policy Institute, nós, enquanto sociedade, “estamos nos comportando como a Enron no auge de sua fantasia contábil”. Estamos trazendo lucros fantásticos e melhorando os números do PIB a cada ano, e tudo parece muito bem no papel “porque estamos escondendo alguns custos fora dos livros”. Se não colocamos um preço no CO2 que estamos gerando, ou o nosso vício por petróleo, nunca vamos ter que arcar com a inovação que precisamos para viabilizar alternativas energéticas.

Jeffrey Immelt, presidente do conselho da General Electric, trabalha há 25 anos na empresa. Certa vez, ele me disse que já viu sete gerações de inovação no setor de equipamento médico da G.E. – aparelhos como M.R.I. ou tomografia – porque incentivos do mercado de saúde impulsionaram as pesquisa. Com energia, ocorre exatamente o oposto. “Hoje, no setor de energia”, ele disse, “ainda estamos vendendo as mesmas usinas básicas que utilizam carvão da época em que comecei a trabalhar na empresa. Agora, elas são um pouco mais limpas e eficientes, mas não diferem muito dos modelos antigos”.

A única área de energia limpa na qual a GE participa é a terceira geração de turbinas eólicas. “Isso ocorre graças à União Européia”, disse Immelt. Países como Dinamarca, Espanha e Alemanha impuseram a seus concessionários o uso de energia eólica e ofereceram mais subsídios, criando um mercado grande para fabricantes de turbinas eólicas na Europa ao longo da década dos 80. Nesse mesmo período, os Estados Unidos abandonaram os investimentos em energia eólica porque a cotação do petróleo havia caído. “Crescemos no mercado de energia eólica na Europa”, disse Immelt. Do jeito que estão as coisas atualmente nos Estados Unidos agora, disse Immelt, “o mercado não funciona para esse tipo de energia”. A escala de investimentos de muitos bilhões de dólares que estão pedindo que uma empresa como GE faça para poder desenvolver novas tecnologias de energia limpa ou que estão pedindo dos concessionários públicos para construir usinas para seqüestrar carvão ou plantas nucleares nunca vai ser atendida pelo mercado – a não ser que as companhias saibam que o carvão e o petróleo vão ter preços suficientemente altos para não minar novos investimentos daqui a alguns anos com a queda de preços de combustíveis fósseis. “Carvão precisa ter um valor”, enfatizou Immelt. “Hoje, nos Estados Unidos e na China, ele não tem valor”.

Visitei recentemente na companhia de Christopher Crane, presidente da Exelon Nuclear, uma das usinas do grupo, a Three Mile Island. Nesse local, ocorreu um grave acidente em 1979. Crane disse que, se a Exelon quiser iniciar a construção de uma usina nuclear hoje, as exigências de licenciamento, projeto, planejamento e construção são tantas que o projeto não poderia estar pronto antes de 2015 – ou até mais. Mas, mesmo que a Exelon tivesse todos os alvarás, teria sérias dificuldades para viabilizar o negócio, “pois o custo de capital para uma usina nuclear hoje e proibitivo”.

Isso se deve ao fato que a taxa de juros em qualquer banco comercial para um empréstimo para uma usina nuclear seria tão alto – por causa de todos os riscos de processos ou de estouros de orçamento – que seria impossível para uma empresa como a Exelon assumir esses encargos. Uma usina nuclear padrão custa hoje aproximadamente 3 bilhões de dólares. A única maneira de estimular mais inovação nuclear, disse Crane, seria tendo uma garantia do governo federal de que ele iria se empenhar para reduzir o custo do capital para alguém disposto a fazer investimentos nessa área.

A lei de energia de 2005 criou tais garantias de empréstimos, mais ainda não resolveu todos as detalhes. “Nós iríamos necessitar um programa robusto para fazer a indústria nuclear ‘;pegar no tranco’;”, disse Crane – uma indústria que basicamente está estagnada desde o acidente em 1979 na Three Mile Island. Com dinheiro mais barato, acrescentou Crane, a energia nuclear poderia ser “muito competitiva”.

Pense nas implicações. Three Mile Island tinha dois reatores, o TMI-2, que fechou por causa do acidente de 1979, e o TMI-1, que ainda está em operação, suprindo de eletricidade limpa cerca de 800 000 casas, com quase zero de emissões de CO2. Se não tivesse acontecido o acidente na TMI-2, ela também teria fornecido energia limpa para outras 800 000 residências nos últimos 28 anos. Ao invés disso, toda a energia necessária para suprir esses consumidores acabou vindo do carvão com emissões de CO2. Esse sistema, a propósito, ainda é responsável por 50% da eletricidade nos Estados Unidos.

Cálculos parecidos se aplicam à produção de etanol. “Nós temos por volta de 100 cientistas trabalhando no etanol de celulose”, me disse Chad Holliday, CEO da DuPont. “A minha aposta é que poderíamos dobrar esse número e acrescentar mais 50 especialistas focados apenas na tarefas viabilizar a comercialização do produto. Provavelmente, iria custar menos de 100 milhões de dólares para aumentar a escala. Mas eu não estou pronto para fazer isso. Hoje, eu apenas consigo estimar sobre quanto esse projeto vai me custar e qual seria o preço do produto no mercado, mas será que realmente teremos um mercado para isso no futuro? Quais serão as regulamentações? Será que os subsídios para o etanol serão reduzidos? Será que vamos colocar um imposto sobre o consumo do petróleo para fazer do etanol um produto mais competitivo? Se eu tivesse hoje respostas a essas questões, poderia planejar melhor os investimentos. Sem isso, não sei como vai estar o mercado no futuro e meus acionistas não têm como avaliar o custo benefício desse tipo de investimento… Precisamos ter um pouco de certeza no que diz a respeito a incentivos e ao mercado que teremos, porque estamos falando de investimentos de longo prazo. São bilhões de dólares. O retorno desse dinheiro vai levar muito tempo e não vamos acertar em todas as apostas”. Resumindo o problema, Immelt de GE disse que estão pedindo para as grandes companhias na área de energia “programar uma decisão de 40 anos com base nos sinais emitidos no mercado nos últimos 15 minutos. A coisa simplesmente não funcione assim… O governo dos Estados Unidos deve decidir: o que desejamos que aconteça no mercado? Quanto de carvão limpo, quanto de energia nuclear vamos precisar e qual é a melhor maneira de incentivar as pessoas a mudar seus sistemas atuais para alternativas limpas?”

Ele tem todo razão. Não podemos depender apenas das forças de mercado. O governo deveria impor padrões altos, deixar o mercado chegar lá e, em seguida, elevar novamente as metas. É assim que vamos conseguir ter uma escala de inovação para chegarmos ao “valor da China”. O governo pode fazer isso impondo padrões de eficiência cada vez mais altos para edifícios e eletrodomésticos, estipulando que os concessionários gerem uma certa quantia de eletricidade sistemas renováveis – como a energia eólica e solar. Ou exigir que a indústria automobilística produza carros cada vez mais econômicos ou um sistema para limitar a emissão de CO2 por parte das fábricas. Ou pode oferecer aval para empréstimos e licenciamento rápido para quem quer construir uma nuclear. Ou – meu favorito, e a opção mais simples – pode impor um imposto sobre carbono que vai estimular o mercado a se afastar de combustíveis com alta taxa de emissões de CO2 e investir em alternativas mais limpas. O ideal seria fazer todas essas ações, simultaneamente. Mas quaisquer que sejam as opções escolhidas, elas somente vão funcionar se as regras forem transparentes, simples e de longo prazo – com rígida fiscalização, supervisão regulatória e duras punições financeiras para violações.

O político que conseguiu implantar uma política semelhante foi um cara chamado George W. Bush, quando era governador do Texas. Ele pediu e assinou um mandado de energia renovável em 1999. O documento estipulou que as empresas de energia do Texas tinham que produzir 2 000 novos megawatts de eletricidade usando alternativas renováveis, na maior parte energia eólica, até 2009. O que aconteceu? Uma dezena de novas empresas entraram no mercado de Texas e construíram turbinas de vento para obedecer ao mandado, tantos que a meta de 2 000 megawatts foi atingida já em 2005. Então o governo do Texas aumentou a meta para 5 000 megawatts até 2015, e todo mundo sabe ela será atingida. Resultado: naquele estado americano, a energia eólica está se tornando tão competitiva quanto o carvão. Hoje, graças à intervenção no mercado feita pelo governador Bush, o Texas é o estado que mais usa energia eólica nos Estados Unidos.

O presidente Bush, não é igual ao governador Bush. (será o efeito Dick Cheney?) O presidente Bush afirma que ele esta protegendo empresas americanas ao não impor duros mais padrões de economia, de uso de energia limpa e de limitação para a emissão de poluentes dos automóveis. Na prática, com essa política, ele está ajudando as companhias americanas a perderem a corrida para a próxima indústria global. O Japão tem alguns dos impostos mais altos sobre gasolina e padrões bastante rígidos sobre eficiência energética dos veículos – e tem a empresa automotiva mais lucrativa e inovadora do mundo, a Toyota. Não é uma mera coincidência.

Os políticos dos Estados Unidos que captaram melhor essa mensagem são os governadores americanos. Ignorando Washington, eles já começaram a estabelecer seus próprios padrões de energia e trazendo os benefícios para seus estados. Como Schwarzenegger me disse, “nós vimos na Califórnia o número de empresas que foram criadas para trabalhar apenas em coisas que têm a ver com meio-ambiente limpo”. Graças aos padrões impostos pela Califórnia, o consumo de energia per capita no estado permaneceu praticamente inalterado nos últimos 30 anos. Enquanto isso, no resto do país, esse índice aumentou 50%. “Existem muitas indústrias que estão florescendo agora por causa desses novos padrões”, completou Schwarzenegger.

VII.

John Dineen é o chefe da GE Transportation, unidade da empresa que fabrica locomotivas. Sua planta industrial está sediada em Erie, Pennsylvania, empregando 4 500 pessoas. Quando o tema é como enfrentar a concorrência de mercados com mão-de-obra barata, Dineen gosta dizer, “A nossa cidadezinha tem superávit com a China e México.” Como poderia ser? A China fabrica locomotivas que são 30% mais baratas do que as da G.E. Mas as da empresa americana levam vantagem, pois são as mais eficientes do mundo no aproveitamento de energia, com menores emissões e melhor taxa de economia de combustível por tonelada transportada – “e não param nos trilhos,” acrescentou Dineen. Então a China também esta comprando de Erie – e também Brasil, México e Cazaquistão. Qual é o segredo? Eles conseguiram um produto ambientalmente sustentável ao “valor da China”.

“Tornamos a vida deles mais fácil,” diz Dineen. “Ao produzir maquinas com emissões mais baixas no sentido clássico (Nox) e emissões mais baixas no sentido futuro (CO2), aliadas a uma melhor eficiência energética. Com isso, diminuímos o custo total do ciclo de vida do produto.” O Ocidente não pode impor seus padrões climáticos ou de poluição sobre a China, explicou Dineen, mas quando uma empresa como a GE faz uma máquina ótima e econômica, que reduz a poluição, e com tudo isso, emite menos CO2, a China acaba se tornando cliente. “Se apenas tentássemos exportar unidades com emissões mais baixas, sem os benefícios de economia de combustível, iríamos ficar no prejuízo,” diz Dineen. “Mas quando o ‘;verde’; é para valer – melhor economia de combustível, junto com reduções de emissões – vemos taxas de aceitação rápidas.”

Um motivo que tornou a GE Transportation tão eficiente nessa área foi a obrigação de obedecer o velho padrão americano sobre poluição de NOx, diz Dineen. A empresa fez isso através de inovação tecnológica. À medida em que os preços de petróleo foram aumentando, as pesquisas se concentraram em melhorar a economia do veículo. O resultado foi uma locomotiva mais limpa, mais eficiente. Dineen descreva sua fábrica como se fosse um “campus de tecnologia”. Segundo ele explica, “as instalações da GE Transportation parecem as de uma fábrica centenária. Mas, dentro daqueles prédios velhos, existem engenheiros de ponta trabalhando com tecnologia da próxima geração.” Ele também comenta que os funcionários em sua fábrica ganham quase o dobro da média salarial da cidade de Erie – ao vender para a China!

Então, podemos reduzir assim a essência da questão da seguinte forma: a tecnologia limpa fortalece os Estados Unidos porque fazer coisas como locomotivas mais leves e mais inteligentes requer muito conhecimento – e não apenas mão de obra barata. Por isso, embutir o conceito de sustentabilidade em tudo o que projetamos e fabricamos é uma maneira de reviver os Estados Unidos como uma potência em fabricação. “Seja que for que esta fazendo, se você puder acrescentar uma dimensão verde ao negócio – fazer mais eficiente, mais saudável e mais sustentável para gerações futuras – terá um produto que não pode ser feito mais barato na Índia ou na China,” diz Andrew Shapiro, fundador de GreenOrder, um grupo de estratégias de negócios focado em meio-ambiente. “Se você criar um ‘;gueto verde’; em sua empresa, significa que não captou direito a idéia. Esse conceito precisa estar integrado ao DNA de toda a sua empresa.”

Transplantando essa discussão para o nosso país, isso explica a razão porquê precisamos de um Novo Acordo Verde – acordo no qual o papel do governo não é apenas dar verbas para projetos, como ocorreu na época do New Deal, mas também ajudar pesquisas básicas, dando aval para empréstimos quando necessário e estabelecendo padrões, criando impostos e incentivos que vão fazer nascer 1 000 GE Transportations para todo tipo de energia limpa.

Bush não vai fazer um New Deal verde, mais seu sucessor terá que levar à frente essa idéia se a América pretende manter sua liderança e padrão de vida. Lamentavelmente, os presidenciáveis de hoje se limitam a fazer fumaça no que diz a respeito às discussões sobre energia e clima. Nenhum deles está propondo alguma coisa além disso, como um imposto sobre carbono ou gasolina.