O partido democrata

Carol Oliveira

Se a nomeação de Donald Trump como candidato republicano é vista como um ponto fora da curva nas eleições americanas, o mesmo não pode ser dito sobre Hillary Clinton, oficializada candidata à presidência na convenção democrata que aconteceu ao longo desta semana, na Filadélfia. Bem-vista pelo mercado financeiro e pelo partido, a ex-secretária de Estado é dona de um sobrenome já muito conhecido e representa o tradicionalismo da política estadunidense, ao mesmo tempo em que traz consigo as posições mais moderadas que vêm sendo marca dos democratas nas últimas décadas.

Legenda mais antiga do mundo em atuação, o Partido Democrata nasceu em 1828, resultado de uma fatia dissidente do então Partido Democrata-Republicano, fundado por Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos e autor da declaração de independência do país. À época, essa legenda dominava o cenário político estadunidense ao lado do extinto Whig. O primeiro líder da história democrata foi Andrew Jackson, que em 1829 se tornaria o primeiro presidente eleito pelo partido. Com Barack Obama, 15 democratas já passaram pela presidência.

Em 1830, a outra ala do Partido Democrata-Republicano se juntaria ao Whig para formar o que conhecemos por Partido Republicano, dando início ao bipartidarismo que vigora até hoje. Embora também defendessem um estado mínimo e fossem igualmente conservadores em muitos aspectos, os republicanos tinham na igualdade uma de suas principais bandeiras – e, por isso, foram a principal voz pela libertação dos escravos e pelos direitos de nativos indígenas e mulheres.

As origens democratas

Se hoje o partido democrata tem se destacado por pregar respeito às minorias, conseguiu eleger o primeiro presidente negro dos Estados Unidos e até mesmo apoia alguma intervenção do Estado em busca do bem-estar social, no século 19, a história era outra. Os democratas nasceram como representantes dos fazendeiros sulistas, desconfiavam de qualquer participação estatal e eram ferrenhos defensores do regime de escravidão, ainda que apoiassem a abertura à imigração, a expansão das fronteiras e a liberdade religiosa.

“O Partido Democrata era visto como representante das pessoas comuns, mas naquela época, as pessoas comuns eram os homens brancos”, explica o historiador Marc Kruman, diretor do Centro de Estudos de Cidadania da Universidade Estadual de Wayne e autor de diversos artigos sobre a política partidária americana. Ali no século 19, os democratas e seus apoiadores sulistas rejeitaram a eleição do republicano Abraham Lincoln e suas tentativas de garantir a libertação dos escravos, o que culminaria na Guerra de Secessão (1861-1865) entre o norte e o sul dos Estados Unidos.

No século 20, contudo, o Partido Democrata foi passando por mudanças que o aproximariam do posicionamento centrista no qual se encontra hoje. O grande momento dessa virada foi o governo do presidente Franklin Roosevelt, responsável por comandar o país após a crise de 1929. Para reverter a recessão, Roosevelt apostou em políticas de bem-estar social baseadas no pensamento keynesiano – que prega investimento estatal em serviços sociais e infraestrutura para alavancar o crescimento.

Os democratas praticamente dominaram o Congresso entre 1930 e 1994, e ao longo do século 20, foram construindo uma ideologia que defende – com menor ou maior força – o livre-comércio, os ideias imperialistas tipicamente americanos e a pouca interferência estatal, mas que, ao mesmo tempo, vende uma imagem de diversidade, respeito às minorias e de luta por certa igualdade social e por serviços parcialmente financiados pelo Estado.

Dessa forma, o eleitor democrata deixou de ser o homem branco sulista para dar espaço a mulheres, latinos, afro-americanos e arrematar a população mais intelectualizada. A diversidade dos apoiadores é reflexo da própria diversidade entre os membros do partido: não à toa, Hillary Clinton se tornou a primeira candidata mulher já nomeada no país, logo após Barack Obama fazer história ao se tornar o primeiro presidente negro.

 

Esquerda?

Para o historiador Michael Kazin, especialista em política americana e movimentos sociais na Universidade Georgetown, os oito anos de Obama marcaram a volta de uma versão mais forte da social-democracia. E, com as posições radicais de Donald Trump do outro lado, a tendência é que esse movimento continue. “Estas são as eleições em que as diferenças ideológicas entre os partidos estão mais perceptíveis desde 1964”, afirma. Naquele ano foi assinada a Lei dos Direitos Civis pelo presidente John Kennedy – e os dois partidos estavam totalmente divididos em torno dessa questão.

A cada nova convenção partidária, o lugar dos democratas no espectro político americano é passível de alterações. Mas se existe uma máxima que o partido defende, é: à esquerda dos republicanos, sempre. “Num sistema bipartidário como o que vigora nos Estados Unidos desde 1830, um partido geralmente é mais à esquerda que o outro – o que, nos séculos 20 e 21, significa ser ideologia social-democrata mais forte”, diz Kazin.

Nada mais democrata que o Affordable Care Act (Lei de Proteção e Cuidado ao Paciente, em português), conhecido popularmente como Obamacare. Baseada numa parceria público-privada, a lei sancionada em 2010 ajuda a população de baixa-renda a obter planos de assistência médica por menores preços – um serviço que, ao contrário do SUS brasileiro, não é universal e gratuito nos Estados Unidos. Com o Obamacare, há a tentativa para ajudar os menos favorecidos do país, mas sem sonhar com qualquer tipo de serviço universal. O mesmo princípio vale para a ajuda financeira para que os jovens paguem suas faculdades, uma das propostas de Bernie Sanders que foi abraçada por Hillary Clinton em sua plataforma. Ajudar, sim. Gratuidade, jamais.

“Se olharmos com atenção, veremos que o Partido Democrata vem operando nesse consenso de economia dirigida pelo mercado desde a década de 1990”, afirma a socióloga Heather Gautney, professora da Universidade Fordham e apoiadora da campanha de Sanders. “Hillary e Sanders são fundamentalmente diferentes: ele defende universalização dos serviços, enquanto ela apóia parcerias público-privadas e privatização de serviços públicos. Isso é o que os Clinton sabem fazer”, diz.

A ascensão de Sanders, aliás, é outro fator que pode levar os democratas mais para a esquerda nos próximos anos. Sua legião de fiéis seguidores não pode ser ignorada, e o partido está de olho nessa fatia do eleitorado. “A participação do Sanders foi crucial para o direcionamento do partido na campanha. Ele conseguiu colocar na plataforma democrata uma série de programas mais voltados ao social, como auxílio aos estudantes e maior abertura da previdência”, afirma Rubens Barbosa, embaixador brasileiro em Washington entre 1999 e 2004 e membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (GACint) da USP.

Por ora, os democratas ainda sabem os eleitores que agradam: na reeleição de Obama, em 2012, ele recebeu votos de 60% dos jovens entre 18 e 29 anos, de 55% das mulheres, 93% dos negros, 73% dos asiáticos e 71% dos latinos. Enquanto isso, o republicano Mitt Romney teve o apoio de 62% dos homens brancos e 56% das mulheres brancas. Os democratas têm pela frente o desafio conciliar sua diversa base de apoiadores para continuar sobrevivendo. Para Hillary, equilíbrio, sensatez e inclusão se destacam como as palavras da vez – e ela aparentemente já as abraçou.