O legado ambiental de Obama

Daniel Barros, de Nova York

O assessor especial de Obama para questões ambientais, Brian Deese, tem um slide favorito, que ele invariavelmente mostra em qualquer apresentação sobre o seu trabalho na Casa Branca. Trata-se de um gráfico que mostra queda nas emissões de CO² a partir de 2009 em paralelo à retomada do crescimento da economia americana após a Grande Recessão. “Esse gráfico rompe com a noção de que crescimento econômico e emissões de CO² precisam andar lado a lado. A administração Obama mostrou que esse conceito é ultrapassado”, disse Deese em um evento na Universidade Columbia, em Nova York.

No dia 12 de outubro, a Agência de Informações sobre Energia do governo federal americano divulgou relatório mostrando que, nos primeiros seis meses de 2016, o país teve a mais baixa emissão de CO² para o período nos últimos 25 anos – informação que serviu para coroar o raciocínio de Deese, principalmente porque o crescimento no segundo trimestre foi revisado de 1,1% para 1,4% no fim de setembro, bem acima dos 0,8% do trimestre anterior. Os Estados Unidos devem crescer 1,5% em 2016, de acordo com previsão da consultoria internacional Conference Board.

Deese é um dos assessores mais jovens e mais próximos de Barack Obama – ele tem 38 anos e sua sala fica localizada entre o Salão Oval e o escritório do chefe de gabinete do presidente. Ele foi o principal responsável pela negociação do acordo climático de Paris na equipe do presidente americano. O acordo de Paris, definido em dezembro de 2015, foi o mais ambicioso de todos os tempos para conter o aquecimento global: o compromisso dos países signatários é agir para que o aumento da temperatura do planeta seja inferior a 2°C até 2100. Obama teve papel central na negociação – costurando o apoio das principais lideranças no mundo, principalmente a dos países em desenvolvimento, que são responsáveis por dois terços das emissões de gases do efeito estufa no planeta. De lá para cá, vários passos foram dados para que Paris não fique apenas no campo das ideias.

Estados Unidos e China, os dois maiores poluidores, formalmente ratificaram o acordo em setembro deste ano, na cidade de Hangzhou, na China. Obama passou por cima do Senado e tratou a decisão como medida executiva, que não precisa da autorização dos legisladores – uma interpretação particularmente controversa. O acordo só entra em vigor quando pelo menos 55 países ratificarem o compromisso, o que deve acontecer até o final do ano. Se a previsão estiver correta, o acordo fechará com chave de ouro o segundo mandato do presidente americano mais dedicado à causa ambiental da história da maior economia do planeta.

Logo depois de voltar de Paris no final de 2015, Obama assinou lei que renova os cortes de impostos para geração de energia solar, eólica e hidrelétrica até 2020. Essa lei é original de 2009, primeiro ano de Obama como presidente, e ajudou a garantir que, de lá pra cá, a geração de energia solar aumentasse em 30 vezes e de eólica em três. Entre o primeiro semestre de 2015 e o mesmo período de 2016, a geração de eletricidade por meios renováveis cresceu 9%.

É verdade que a mínima histórica de emissões atingida em 2016 tem a ver com um inverno menos rigoroso em vários estados americanos, o que por sua vez resulta em menos consumo de combustível para o aquecimento de casas e prédios. Mas é inegável que o governo Obama e o próprio presidente têm se empenhado em criar uma economia mais sustentável. No último dia 15, mais de 170 países chegaram a um acordo em Kigali, Ruanda, para reduzir a emissão dos HFCs, gases associados ao funcionamento de aparelhos de ar-condicionado e geladeiras. O Secretário de Estado John Kerry se comprometeu que os Estados Unidos irá congelar suas emissões desse gás até 2019 e a partir daí começará a reduzi-las. O Brasil e outros 100 países seguirão o exemplo a partir de 2024. A Índia se comprometeu com 2028. O resultado do esforço será um aquecimento global 0,5°C menor até 2100. O acordo de Kigali foi o primeiro passo efetivo no bojo do compromisso feito em Paris no ano passado.

Obama também esteve na remota base de Midway, da marinha americana no Havaí, e no extremo norte do Alasca (que nunca havia sido visitado por um presidente no exercício do cargo) para mostrar os potenciais efeitos do aquecimento global. Essas viagens foram amplamente divulgadas na imprensa americana. É a tentativa do presidente de usar os seus índices de popularidade crescentes em prol de uma causa nobre, porém intangível.

Ao New York Times, Obama disse que o aquecimento global não está no topo da lista de prioridades do americano médio, mas que ele confia que a maioria da população do país está de acordo com incentivos para a redução dos impactos ambientais dos Estados Unidos desde que seja possível continuar melhorando os seus padrões de vida.

Mas quem não tem sido aliado de Obama são os outros poderes em Washington. O Senado barrou propostas de legislação feitas por ele para limitar emissões. E em fevereiro, a Suprema Corte barrou plano do presidente para obrigar usinas de energia a reduzir emissões para nível 32% menor que os de 2005 até o ano de 2030. A decisão ainda não é final porque há um assento vazio na Suprema Corte devido à morte do juiz conservador Antonin Scalia. A regulação, chamada Clean Power Plan (Plano de Energia Limpa), seria uma das principais medidas do presidente na área de energia. Se entrar em vigor, afetará a indústria de carvão em cheio, mas terá um impacto duradouro nas emissões de poluentes dos Estados Unidos – usinas termelétricas são, de longe, os maiores emissores do país.

Observadores mais céticos dizem que as intenções de Obama são boas, mas algumas das tendências de usos de energia mais limpas acontecem independentemente de suas políticas. A substituição de carvão por gás natural em usinas térmicas tem acontecido mesmo sem o plano barrado na Suprema Corte. A produção de veículos elétricos também tem aumentado naturalmente – o consumo de petróleo para transporte nos EUA em 2015 foi 35% mais baixo do que o previsto pelo próprio governo americano em 2003. O surpreendente é que Brian Deese concorda com essa avaliação. Para ele, a administração de que participa está apenas acelerando esse processo. E é por isso que ele é otimista ao dizer que dificilmente um presidente conservador como Donald Trump teria capacidade de retroceder profundamente em conquistas realizadas durante a gestão de seu chefe, Barack Obama. Talvez por isso, o atual presidente dos Estados Unidos considere sua contribuição no campo ambiental como um dos seus legados mais importantes e pretende continuar o lobby por uma economia mais verde quando não estiver mais ocupando a presidência.