O julgamento de Harvey Weinstein, o pioneiro do #MeToo

Não é fácil achar um júri isento para o ex-produtor de Hollywood. Mesmo que escape das acusações em NY, já há outro processo contra ele em Los Angeles

São Paulo — Dos 120 cidadãos convocados como potenciais jurados para o julgamento do ex-produtor de Hollywood Harvey Weinstein, iniciado na segunda-feira em Nova York, um terço se declarou impedido, por já ter opinião formada sobre o caso. Não é para menos.

Duas reportagens sobre agressões sexuais de Weinstein, em 2017, deflagraram a campanha #MeToo, nos Estados Unidos (e em seguida pelo mundo), com milhões de postagens de mulheres que se declararam vítimas de assédio sexual no trabalho – e alguns casos notórios de homens poderosos demitidos ou presos. A lista de acusadoras de Weinstein passa de 80; mas o julgamento iniciado esta semana é por apenas dois ataques.

Na tarde de ontem, foram separados 30 candidatos ao júri, entre os que se declararam aptos a julgar o acusado com isenção. Eles deverão voltar na semana que vem para uma nova avaliação, até a formação de um grupo de 12 jurados e seis suplentes. Weinstein, em liberdade condicional após o pagamento de uma fiança de 2 milhões de dólares, acompanhou os procedimentos, usando um andador para ampará-lo, após uma recente cirurgia nas costas. Quase foi mandado de volta à prisão, por desobedecer as ordens do juiz de não usar o celular (ele usou dois, ao mesmo tempo).

Pelas agressões, Weinstein pode ser condenado a até 25 anos de prisão. Se for comprovado um padrão de comportamento abusivo, a pena pode ser de prisão perpétua. Várias de suas supostas vítimas deverão testemunhar, para garantir que ele pegue a pena máxima.

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Apesar de toda a má fama que Weinstein adquiriu, o resultado do julgamento é imprevisível, dada a dificuldade de estabelecer culpa em casos específicos de estupro. Ainda que se safe, porém, Weinstein dificilmente ficará livre. No mesmo dia em que ele ia ao tribunal de Nova York, foi aberto um novo julgamento contra ele em Los Angeles, por outros dois casos. Por que tão poucos, se há mais de 80 vítimas?

Porque é difícil construir um processo forte, diz a promotora Jackie Lacey, responsável pelas acusações de Los Angeles. Ela diz ter passado dois anos investigando mais de 40 casos, mas a maioria foi menosprezada por ter ocorrido há tempo demais, ou por falta de evidências críveis. De oito histórias em condições de condenar Weinstein, segundo ela, três foram descartadas porque o prazo para abrir processo expirou e outras três ainda estão em análise.

Weinstein se tornou um ícone de mau comportamento, mas ele próprio parece não estar convencido disso. No final de dezembro, concedeu uma entrevista em que disse ter sido um grande promotor da causa das mulheres, um pioneiro em dar oportunidades a diretoras de cinema, um incentivador de talentos. Queixou-se pela carreira perdida. Diz-se inocente. Parece estar criando uma obra de ficção para consumo próprio.