O ímã das multinacionais

A receita irlandesa para se tornar o maior pólo de atração de empresas da Europa: investimentos em educação e faxina nas contas do governo

No início da década de 90, a Irlanda tinha problemas semelhantes aos enfrentados pelo Brasil na atualidade — dificuldade para atrair investimentos estrangeiros, uma enorme dívida pública e alta taxa de desemprego. O país, de maioria católica, era mais atrasado que a Irlanda do Norte (parte do Reino Unido) e mais conhecido por fornecer mão-de-obra ao IRA, Exército Republicano Irlandês. Esse panorama mudou completamente. Hoje, a Irlanda é referência positiva em qualquer ranking que se faça. Na lista das nações com economia mais globalizada do planeta, estudo realizado pela consultoria ATKearney, o país ocupa a segunda posição, atrás apenas de Cingapura. Também aparece na lista do Banco Mundial com a quarta maior renda per capita do mundo (32 000 dólares), atrás apenas de Estados Unidos, Luxemburgo e Noruega. É como um círculo virtuoso. Devido ao aumento de sua renda per capita, a sua maior qualificação e globalização, os irlandeses estão consumindo mais e a economia se expande a taxas asiáticas de crescimento. Além disso, a inflação tem caído e, hoje, obedece rigorosamente ao padrão europeu, em torno de 2,2% ao ano. “É uma façanha con ciliar crescimento galopante com redução de inflação”, diz Ernesto Lozardo, economista da Fundação Getulio Vargas. “Eles têm feito isso com maestria.”

Um dos aspectos que mais chamam a atenção no fenômeno irlandês é a incrível capacidade do país de atrair investimentos estrangeiros. Nos últimos 30 anos, o número de multinacionais presentes na Irlanda cresceu de 400 para 1 022 — um aumento de quase 200%. Um terço dos investimentos das companhias americanas na Europa está concentrado hoje no país. E engana-se quem pensa que todas essas empresas sejam apenas negócios de call centers ou outros serviços terceirizados, marcados pela baixa qualificação profissional. A Irlanda hoje destaca-se por atrair, sobretudo, empresas de alta tecnologia. Das 15 gigantes mundiais da indústria farmacêutica, 13 já possuem subsidiárias irlandesas. A área de computação é outro destaque. A Irlanda é a maior exportadora de softwares do mundo e, de cada três computadores vendidos na Europa, um é produzido no país.

Legião estrangeira
Presença de multinacionais na Irlanda
1974
400
1984
632
1994
906
2004
1022
Fonte: IDA Ireland

O caminho para se tornar um pólo de multinacionais foi longo. Primeiro, a Irlanda teve de provar à comunidade internacional que era um terreno seguro para os investimentos, com economia sob controle e regras claras e estáveis. As contas do governo foram saneadas e a participação do Estado na economia, reduzida. O grande desafio era equacionar o grave problema da dívida pública, em torno de 136% do PIB no final dos anos 80. Hoje, ela é de apenas 35% do PIB, uma das menores da União Européia. Foram feitos também grandes ajustes fiscais. Uma das medidas mais importantes nessa área consistiu na redução dos impostos cobrados das empresas, de 40% para 12,5%, um dos menores índices hoje entre as economias mais desenvolvidas do Velho Continente. Como resultado desse esforço, os impostos, como porcentagem do produto interno bruto, já são menores que os da liberal Inglaterra: em torno de 33%. “A Irlanda combinou crescimento com impostos baixos, dois fatores fundamentais para atrair multinacionais”, afirma o consultor Peter Koudal, que trabalha no escritório de Nova York da consultoria Deloitte e é autor de um recente estudo sobre investimentos diretos americanos em vários países do mundo.

A entrada da Irlanda na União Européia (então Comunidade Européia), em 1973, teve papel fundamental no desenvolvimento do país e na sua transformação em pólo de atração de investimentos. Muitas com panhias estrangeiras enxergaram naquele momento uma chance de utilizar o país como um trampolim para fazer negócios no Velho Continente. A favor da instalação de novas indústrias havia a questão da mão-de-obra barata. O governo irlandês soube aproveitar a oportunidade fazendo a lição de casa para construir a partir desse boom de investimentos as bases de uma política de crescimento sustentável. Usou grande parte dos 37 bilhões de dólares recebidos na forma de subsídios da União Européia para melhorar a infra-estrutura nos últimos 30 anos. Novas rodovias foram criadas, portos e aeroportos foram remodelados e o sistema de comunicação, modernizado. A Irlanda esteve no bloco dos primeiros países a contar com uma rede de telefonia digital.

Mas o segredo da formação de um pólo de tecnologia — o atual estágio em que o país se encontra — foi outro. Uma parte significativa do dinheiro recebido da União Européia foi investida em educação. Desde 1973, o governo irlandês injetou mais de 5 bilhões de euros em educação e qualificação de mão-de-obra. Os frutos de tal investimento foram colhidos nos anos 90, quando o país pôde desfrutar de uma força de trabalho jovem e qualificada. A Irlanda conta com a maior porcentagem mundial de estudantes cursando nível superior, em torno de 48% da população até 25 anos. Eles ocupam as carteiras de sete universidades e de 14 institutos de pesquisa. Além de oferecer ensino gratuito de qualidade, escolas centenárias têm hoje políticas para disseminar o vírus do empreendedorismo entre os alunos. Fundado há 400 anos, o Trinity College é o campeão em incentivo governamental para pesquisa e desenvolvimento de startups, nome dado às empresas recém-nascidas. A universidade tornou-se uma grande incubadora de novos negócios. Ela disponibiliza bolsas e salas para pesquisadores em troca de 15% de participação em empresas criadas. Já saíram de lá cerca de 50 companhias de alta tecnologia, caso da Iona Technologies, uma das primeiras a se formar na universidade. A empresa é hoje líder em desenvolvimento de softwares na Irlanda.

As maiores investidoras
Empresas que mais investiram na Irlanda nos últimos dois
anos
Wyeth Biopharma Laboratório 1,8 bilhão de euros
Intel Tecnologia 1,6 bilhão de euros
Centocor Laboratório 650 milhões de euros
Pfizer Laboratório 240 milhões de euros
Glaxosmithkline Laboratório 225 milhões de euros

Outro exemplo de adaptação a essa filosofia é o University College. Recentemente, essa instituição mudou seu campus para Belfield, ao sul de Dublin. Lá, criou um dos mais modernos centros de estudos na área de saúde, o Instituto de Pesquisa Biomolecular. Em volta do campus, ergueram-se prédios de escritórios e outras empresas. O governo irlandês vem realizando grandes esforços para levar o centro de pesquisas de multinacionais para o país — uma política que já apresenta resultados. A Microsoft anunciou recentemente o investimento de 165 milhões de dólares na construção de um centro de pesquisa na Irlanda. Outro grande negócio em fase de desenvolvimento é o centro de pesquisa em nanotecnologia da Intel, que deverá custar em torno de 1,6 bilhão de euros. Nos últimos 15 anos, a Intel investiu 5,5 bilhões de dólares em pesquisas e na ampliação das três fábricas instaladas no país. “A Irlanda é uma plataforma de exportação de produtos bem diferente da China”, afirma Lozardo, da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. “Emprega pouca mão-de-obra, em torno de 1,8 milhão de pessoas, e fabrica produtos de alto valor agregado.”

O reflexo dessa presença de multinacionais é extremamente positivo. Ao todo, as multinacionais injetam na economia irlandesa algo como 15 bilhões de dólares por ano. O fluxo constante desse investimento direto no país fez cair vertiginosamente, por exemplo, a taxa de desemprego. Estimado em 4%, esse índice hoje é um dos menores da Europa. Os cerca de 50 000 imigrantes que entram na Irlanda todos os anos já são insuficientes para preencher as vagas de trabalho oferecidas por um número cada vez maior de empresas, nacionais e estrangeiras. Para funções que não exigem qualificação, como açougueiro ou garçom, muitas empresas montaram postos de recrutamento de pessoal em países da África, da América Latina e do Leste Europeu.

A Irlanda é um caso clássico de sucesso econômico. No passado, era classificada como economia pobre baseada na agricultura. Tornou-se um dos países mais ricos e industrializados do planeta. Ao longo dos últimos anos, o “Tigre Celta”, como o país foi apelidado, cresceu a uma média anual de 8% e praticamente dobrou o seu PIB, hoje estimado em 164 bilhões de dólares. No mesmo período, as outras nações da União Européia registraram crescimento médio de apenas 2,1% anuais. Em 2004, o ritmo de ebulição da economia irlandesa diminuiu um pouco, registrando crescimento de 5,6% do PIB — o dobro da taxa registrada no mesmo período pelo grupo dos 30 países mais ricos do planeta. Além disso, o cenário internacional é de um leve desaquecimento. Mesmo assim, os irlandeses não descuidam da tarefa de azeitar as engrenagens que garantam um crescimento sustentável. Até 2006, o governo terá investido mais 50 bilhões de euros na melhoria do sistema de saúde e de transporte público, além de expandir créditos para a construção civil. É um cenário de causar inveja a economias como a brasileira, que continuam às voltas com os mesmos problemas que emperravam o desenvolvimento da Irlanda no começo dos anos 90. A conta do prejuízo brasileiro, aliás, já foi colocada no papel. Segundo cálculos do economista Lozardo, se o Brasil tivesse implantado uma política semelhante para atrair investimentos estrangeiros, hoje teríamos capacidade para exportar por ano mais 200 bilhões de dólares — quase o triplo do patamar atual. Trata-se da prova irrefutável do sucesso da fórmula irlandesa de desenvolvimento.