O geninho sob ataque

Lucas Amorim 

“As pessoas não estão debatendo as premissas do modelo. Elas simplesmente não gostam das conclusões”, escreveu em seu Twitter o estatístico Nate Silver nesta segunda-feira. Foi um dos mais gentis posts feitos por Silver desde sábado, quando ele foi acusado pelo site Huffington Post de estar manipulando os dados a favor do republicano Donald Trump. “Você não tem a menor ideia de o que está falando” e “este artigo é incrivelmente imbecil” foram suas primeiras reações.

Silver se viu, nos últimos dias, no centro de um debate inusitado, e importantíssimo, para as eleições marcadas para esta terça-feira. Afinal, qual a chance real de o republicano Donald Trump vencer as eleições presidenciais?

As mais recentes pesquisas dão mais de 80% de chances de vitória para a democrata Hillary Clinton. Para o New York Times, o número é 85%. Para o PredictWise, 89%. Para o Huffington Post, 98%. É um certo alívio para os leitores e para os jornalistas de grandes veículos – 49 dos 50 maiores jornais americanos declararam apoio a Hillary. Mas, segundo o Huffingont Post escreveu no sábado, há um fora da curva que “está causando pânico entre democratas e injetando doses de esperança nos eleitores de Trump”. “Ele pode até acertar, mas está apenas chutando”, escreveu Ryan Grim, chefe da sucursal do site em Washington. “Ele está brincando com a mesma indústria de previsões que ajudou a popularizar”.

O número de Silver, publicado em seu site de análises Fivethirtyeight (em referência aos 538 delegados que dão o voto final na disputa): 68% de chances para Hillary. No dia 25 de setembro, ele dava a corrida como praticamente empatada, com 54% das possibilidades para Hillary. “Tudo depende das suposições pessoais, mas eu acho que nossas suposições – uma liderança de Clinton, claro, mas muita incerteza – está repetidamente sendo validada pelas evidências nos últimos meses”, disse Silver recentemente ao site Politico.

Estatísticos são estrelas de primeira grandeza nas eleições americanas. Pudera: o sistema de disputa é fragmentado por estado, quem decide a parada não são os eleitores, mas os delegados, e há dados passados suficientes para traçar qualquer tipo de paralelo histórico. É um mercado dominado por um grupo de pesquisadores tradicionais que, há uma década, foi chacoalhado justamente por Silver, hoje com 38 anos.

Estatístico e jornalista formado em Chicago, ele fez carreira pesquisando sobre beisebol, um esporte que, segundo dizem muitos americanos, é um grande banco estatístico com alguns caras rebatendo bolas no mundo real. Entre 2003 e 2009, Silver revolucionou as análises do jogo com o uso intensivo de big data – que incluía até possibilidades de lesão e de atritos entre os integrantes de cada time. Em 2008, Silver se aventurou nas estatísticas eleitorais – e acertou em 49 dos 50 estados. Enquanto os institutos tradicionais insistiam em apontar a vitória do republicano John McCain, Silver cravou o novato democrata Barack Obama. Em 2012, já no New York Times, acertou os 50 estados. Depois, ele lançou o bestseller o Som e o Ruído, em que fala de previsões em diferentes campos de atividade. Enfim, num país em que os dados são venerados, Silver virou um fenômeno pop.

Nesta eleição, Silver está acompanhando o processo a serviço da ESPN (é isso mesmo). Nesta segunda-feira, ele fez questão de republicar em seu Twitter a metodologia de análise, que já se provou assertiva em duas ocasiões. Alguns pontos principais:

– As probabilidades são baseadas em dados de pesquisas desde 1972. Quando dizemos que um candidato tem 30% de chances de ganhar, apesar de estar caindo nas pesquisas, não estamos apenas safando nossa reputação. Essas estimativas refletem as incertezas das pesquisas.

– Todas as versões de nossas pesquisas analisam mais informações estaduais do que nacionais.

– Os erros tendem a ser correlacionados de estado para estado. Se um candidato supera as previsões em Ohio, por exemplo, ele tem grandes chances de fazer o mesmo na Pensilvânia.

– O modelo leva em conta também dados econômicos e dá menos peso a candidatos independentes, que tendem a cair nas pesquisas.

Silver ainda reforçou que seus modelos dão muito peso para eleitores indecisos. Nesta altura da corrida eleitoral, Hillary tem cerca de 45% das intenções de votos totais, quatro pontos a menos do que Obama tinha quatro anos atrás, o que dá um número três vezes maior de indecisos. E que, mais importante do que isso, sua vantagem é muito menor em estados decisivos. Por isso, ele afirma que as chances de o mapa eleitoral ser exatamente igual ao de 2012 é de apenas 0,2%.

Em New Hampshire, por exemplo, um estado em que o Fivethirtyeight afirmou há semanas que podia ser problemático para Hillary dado o número de indecisos, Trump assumiu a dianteira no final da semana passada segundo alguns institutos. O mesmo acontece num distrito de Maine, onde a demografia favorece Trump. Se perder esses dois estados, e mais Nevada, Flórida e Carolina do Norte, onde sua chance de vitória nunca é maior do que 55%, ela pode perder a eleição.

Vindas de Silver, as previsões são preocupantes para os democratas. Nesta segunda, ele afirmou que vai publicar nova pesquisa na manhã de terça-feira. Repercussão não deve faltar.