O fôlego de Maduro

Como se fosse possível, a crise política na Venezuela fica cada dia mais grave. Para esta quinta-feira, estava marcada uma marcha em Caracas rumo a Miraflores, residência oficial do chefe de governo. Porém, por recomendação do Vaticano, as manifestações foram suspensas, devido às tentativas do presidente Nicolás Maduro de negociar com a oposição ao longo desta semana. Neste momento, o governo tem contornado bem a crise: uma greve geral havia sido marcada para a semana passada, mas teve baixa adesão popular e, desde terça-feira, governistas ocupam a área externa do palácio, numa espécie de muralha de proteção contra protestos.

Dentre os avanços na negociação, estão a liberação de cinco presos políticos (só no último protesto mais de 140 pessoas foram presas) e a postura aberta ao diálogo de Maduro — que lhe garantiu até suspensão de julgamento no Congresso de maioria opositora. Um dos principais partidos de oposição, o Vontade Popular, se nega a participar das discussões, provocando um racha na coligação Mesa da Unidade Democrática (MUD). Isso porque o principal líder de oposição ao governo venezuelano, Leopoldo López, continua preso desde fevereiro de 2014. Nesta quarta-feira, a ativista Lilian Tintori, esposa de López, denunciou que está desde sexta-feira sem qualquer notícia marido. Ela se nega a abandonar a caminhada até Miraflores.

O governador do estado de Miranda e principal nome para assumir a presidência caso Maduro seja deposto do cargo, Henrique Capriles, tem negociado com o governo. Em entrevista nesta quarta-feira, afirmou que está tentando conversar para encaminhar, junto ao governo, soluções rápidas para reestabelecer a economia do país. Faltam medicamentos e alimentos e alguns estabelecimentos preferem pesar o dinheiro em vez de contá-lo, de tão irrisória que se tornou a moeda local.

De acordo com Capriles, o prazo para avanço nas conversas é 11 de novembro. Até lá, o governo deve apresentar um plano claro em relação à libertação dos presos políticos e a uma alternativa eleitoral. Esse, pelo menos, era o plano até Maduro furar a trégua e chamar, ontem, Capriles de “rei da cocaína”. Mais uma prova de que a Venezuela está muito, muito longe da normalidade.