O contraditório candidato Evo Morales

Candidato à reeleição está a nove anos no comando do governo da Bolívia

La Paz – Evo Morales, que há nove anos governa a Bolívia e pretende se manter no poder até 2020, é hoje um homem de discurso contraditório e personalista, muito longe do humilde e combativo líder sindicalista que foi eleito o primeiro presidente indígena de seu país.

Prestes a completar 55 anos – no dia 26 deste mês -, ele ataca quase diariamente os Estados Unidos, mas concede bolsas de estudos para Harvard. Sonha com qualificados especialistas, mas aceita o trabalho infantil.

Reprova a violência machista, mas defende um candidato de seu partido que disse que as jovens que se vestem de forma provocante “se expõem ao crime”.

Os paradoxos do líder se intensificaram nos últimos anos no mesmo ritmo em que foi exercendo o poder de uma forma cada vez mais personalista, como ilustram as fotografias gigantes com sua imagem em cada uma das obras que inaugura.

Inclusive as moedas de chocolate vendidas nos supermercados bolivianos têm sua face.

Críticos e opositores o acusam de exercer o poder com uma crescente soberba que se reflete, por exemplo, em sua taxativa rejeição em debater frente a frente com seus oponentes.

No entanto, esta personificação do poder se traduz também em apoio popular em massa: as pesquisas mostram que ele tende a ganhar a eleição com quase 60% dos votos, e disso ele nunca duvidou.

Na Bolívia, as pessoas não votam no Movimento para o Socialismo, o partido governista. Na Bolívia, as pessoas votam “em Evo”.

Morales não pode ser acusado de perder contato com a realidade nem de deixar a opulência durante seus anos de governo. Se há um candidato do povo, esse é Evo Morales.

O líder, que recentemente afirmou que quando se aposentar quer ser garçom em seu próprio restaurante, percorre quase diariamente cada canto da Bolívia – um país que tem quase a mesma extensão do estado de Minas Gerais -, com uma intensa agenda que o faz muitas vezes dormir apenas duas horas por noite.

Nascido na região andina de Oruro em uma humilde família aimara, Evo Morales trabalhou desde criança e desempenhou todos os ofícios imagináveis, de pastor de lhamas a trompetista, e posteriormente líder “cocalero” (de produção de coca), cargo que ainda exerce.

Morales atribui sua força física ao fato de que quando criança caminhou “bastante”, o que lhe deu “resistência muscular”. Também é conhecida sua paixão pelo futebol.

O governante não perde uma oportunidade de disputar uma partida ou visitar os estádios nos lugares por onde viaja, e garante que desde bebê engatinhava atrás de uma bola.

Em maio deste ano, chegou a ser contratado “oficialmente” por um time de futebol da primeira divisão da Bolívia. O processo, contudo, não andou por conta de uma avalanche de críticas, entre elas sua idade e seu peso.

Em seu partido, ele continua com seu protagonismo político e ninguém lhe faz sombra em sua liderança no governo. Ele mesmo confessou há poucos dias sua preocupação por não ver um sucessor claro na legenda.

Em poucas ocasiões ao longo destes anos de governo, Morales perdeu sua impassibilidade andina, nem sequer quando no ano passado ficou parado no Aeroporto de Viena porque vários países europeus bloquearam a passagem de seu avião oficial, por conta de uma crise diplomática sem precedentes entre Bolívia e Europa.

Por outro lado, veio abaixo quando morreu o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, amigo, mentor e “irmão”, como o chamava.

Morales se viu arrasado pela dor, e é notável que a sintonia com o novo governante venezuelano, Nicolás Maduro, é muito menor.

A compostura presidencial não impede que ele diga o que lhe vem à cabeça em público e em particular. Seus comentários foram, inclusive, passados ao livro intitulado “Evadas – 100 frases célebres de Juan Evo Morales Ayma”.

A publicação apresenta da vinculação que fez entre a ingestão de frango e o homossexualismo a seu nulo interesse pela leitura, embora em uma viagem oficial à China tenha entrado em contradição mais uma vez e garantido que, quando criança, enquanto pastoreava ovelhas, lia “O Livro Vermelho”, de Mao Tsé-Tung.

Essa naturalidade é vista com ironia pela imprensa, à qual o líder não parece apreciar muito. No entanto, quando concede uma entrevista, o faz de coração aberto e às claras, com gracejo, como quando no ano passado afirmou a uma revista que “a mulher, para o homem, é a substituta da mãe”.

Uma substituta que Evo Morales, que se diz “casado com a Bolívia”, não encontrou, já que o presidente, pai de dois filhos de mães diferentes, continua solteiro, e se de fato ocorrer o que dizem todas as pesquisas, terá pela frente pelo menos mais cinco anos de casamento com seu país. EFE