O Brexit não afetou a economia. Ainda

Peter S. Goodman
© 2017 New York Times News Service

Londres – O mundo não acabou. Não há recessão a vista. Nove meses depois que o Reino Unido votou pela saída da União Europeia, ignorando alertas sobre as possíveis consequências econômicas, o país famoso por fazer suas coisas com tranquilidade parece já ter se resolvido.

À medida que a primeira-ministra Theresa May dava início oficial à saída da União Europeia – popularmente conhecida como Brexit – no dia 29 de março, a ausência de um desastre era alardeada pelos defensores da separação como um sinal de que o futuro será tranquilo.

“As pessoas faziam previsões sobre o que aconteceria com a economia caso o Reino Unido decidisse sair da União Europeia. Essas previsões se mostraram incorretas. A economia está robusta”, afirmou May ao Parlamento.

Mas a conversa não levou em conta um detalhe fundamental: até o momento não aconteceu nada.

May apenas deu início aos procedimentos de um divórcio complicado e politicamente delicado, com o qual será preciso resolver o relacionamento com os 27 membros da União Europeia. O custo do processo certamente será alto: o Reino Unido pôs em risco seu relacionamento comercial com a Europa, seu maior consumidor de produtos exportados, além de colocar em questão a posição de Londres como uma das capitais bancárias do planeta.

Os mercados basicamente deram de ombros. Embora a mudança fosse tão esperada quanto a próxima Copa do Mundo, a libra perdeu um pouco de valor, assim com as ações negociadas na bolsa de valores de Londres.

O impacto imediato da ação de May foi dar início às negociações em torno de futuros acordos comerciais com países da Europa. Essas negociações têm um prazo de dois anos. Se nenhum acordo for firmado antes disso, Reino Unido e Europa mergulhariam em um estado de incerteza caótica.

O comércio internacional passaria a se basear exclusivamente nas regras da Organização Mundial do Comércio, tornado as exportações britânicas vulneráveis a tarifas e outras barreiras comerciais na Europa, incluindo regras de saúde e segurança.

Os banqueiros de Londres ficariam irremediavelmente apartados da Europa, e muitas transações realizadas para clientes do continente europeu seriam consideradas ilegais.

Até o momento, esses problemas não passam de uma série de hipóteses, com os detalhes deixados para quando o governo britânico realizar de fato a separação. Mas esse dia chegou.

Embora o setor financeiro esteja se preparando por meio da mudança de trabalhadores para outras capitais financeiras, em antecipação à confusão causada pelo Brexit, outros setores esperam para ver. Agora, esses setores estão sendo pressionados a agir – mudando algumas linhas de atuação para capitais europeias, ou deixando de lado expansões planejadas para o Reino Unido.

Em breve, gigantes do mercado bancário global, como Citigroup, HSBC e JPMorgan Chase, terão que mudar parte de suas operações para centros financeiros no interior da União Europeia. O Goldman Sachs confirmou recentemente que está fechando centenas de vagas em Londres para expandir suas atividades em Frankfurt e Paris.

A Vodafone, gigante de telecomunicações, afirmou após o referendo que poderia retirar sua sede de Londres.

“O fato de dar início a essa contagem regressiva é importante, porque dois anos é tempo suficiente para as empresas se adaptarem, mas só se elas começarem a tomar decisões a partir de agora”, afirmou Nicolas Véron, economista e membro sênior do Bruegel, um instituto de pesquisa em Bruxelas. “Muito em breve começaremos a ver consequências muito concretas e observáveis do Brexit.”

O Reino Unido explorou sua inclusão no vasto mercado único europeu para se tornar um importante centro para empresas multinacionais de setores diversos como aviação, farmacêutico e de finanças. As empresas abriram fábricas, criaram equipes de marketing e pregões no Reino Unido, vendendo seus produtos para todo o continente, da Irlanda à Grécia, como se essa região geográfica – onde vivem 500 milhões de pessoas – fosse um único país.

Grande coisa.

Os líderes europeus reafirmaram em diversas ocasiões que, para permanecer no mercado único, os ingleses terão de aceitar o livre trânsito de pessoas. Isso se choca com o principal objetivo dos defensores do Brexit: restringir a imigração.

Depois de meses fingindo que seria possível encontrar um meio termo, em janeiro May declarou a escolha do governo: é hora de impor limites à imigração, adeus mercado único.

Muito antes desse banho de realidade política, os executivos de bancos multinacionais já estavam decidindo quais cargos iriam mudar de Londres para outras cidades na União Europeia, como Dublin, Frankfurt, Paris, Amsterdam e Luxemburgo.

“As pessoas terão que se mudar. Não há outra opção”, afirmou William Wright, fundador e diretor executivo do New Financial, instituto de pesquisa com sede em Londres.

Prever quantas vagas de emprego sairão do país se tornou um negócio rentável. A empresa de consultoria Oliver Wyman concluiu que, se as coisas continuarem nessa direção, as transações realizadas em Londres para clientes europeus serão drasticamente diminuídas e cerca de 35 mil postos de trabalho irão desaparecer do Reino Unido, levando um total de 24,8 bilhões de dólares em renda.

Após a votação do Brexit, May se reuniu com o executivo-chefe da Nissan para reafirmar que o governo faria tudo o que estivesse ao seu alcance para que a indústria automotiva continuasse a ser competitiva. A Nissan afirmou que iria continuar a fabricar SUVs em Sunderland, no norte da Inglaterra.

Os apoiadores do Brexit afirmaram que o resultado é uma indicação de como um governo britânico pragmático deve evitar que as empresas deixem o país – com cortes fiscais, leis mais amigáveis e firmando novos acordos. Contudo, se o Reino Unido prometeu qualquer coisa muito substancial à Nissan, provavelmente violou as regras da Organização Mundial do Comércio. A Nissan afirmou que continua a avaliar as incertezas econômicas do Reino Unido. Ford e BMW também estão reavaliando a permanência de suas fábricas na Inglaterra.

Por enquanto, o Reino Unido foi capaz de evitar as previsões econômicas mais assustadoras.

Antes do referendo em junho do ano passado, o Ministério da Fazenda Britânico previu que a saída do bloco poderia diminuir a economia nacional em até seis por cento ao ano nos dois primeiros anos.

A economia do país cresceu 1,8 por cento no ano passado. Os consumidores britânicos continuaram a gastar. As fábricas britânicas continuaram a produzir carros, aparelhos médicos e peças para aviões, e boa parte desses produtos tinha como destino o mercado europeu.

Em março deste ano, a Toyota anunciou planos de investir mais 297 milhões de dólares em sua fábrica em Derbyshire, embora tenha afirmado que precisa ter certeza de que poderá vender seus carros na Europa. A Snap, empresa que controla a mídia social Snapchat e arrecadou 3,4 bilhões de dólares em sua oferta inicial pública, recentemente escolheu Londres para instalar sua sede internacional.

Contudo, os gastos dos consumidores estão sendo cada vez mais fruto do endividamento. A libra esterlina perdeu 17 por cento de seu valor em relação ao dólar desde o referendo, aumentando o custo de produtos importados. Os investimentos também estão diminuindo.

A libra mais fraca pode até ajudar nas exportações, tornando os produtos britânicos mais baratos no mercado global. Contudo, as exportações também são beneficiadas justamente por aquilo que os britânicos querem dispensar: a inclusão no bloco europeu.

Os proponentes do Brexit costumam observar a Europa simplesmente como um lugar onde adultos desempregados voltam a viver com os pais. Em teoria, a nova era do Reino Unido se basearia no comércio com países inovadores e que crescem rapidamente, como os EUA.

Reino Unido e França terão de firmar um acordo comercial que servirá para evitar uma ruptura no comércio. Durante a campanha, os apoiadores do Brexit argumentavam que a Europa firmaria esses acordos, já que seu membro mais poderoso, a Alemanha, envia incontáveis BMWs, Audis e Volkswagens para o Reino Unido.

Contudo, as negociações comerciais são vulneráveis à manipulação de setores politicamente protegidos. Esse é um dos fatores mais complicados. Os líderes europeus enfrentam ameaças existenciais à união, com partidos políticos de todo o continente se mostrando cada vez mais hostis. Muitos querem usar o Reino Unido para ilustrar o que pode acontecer com um membro que deixa a união: só coisas ruins.

“Isso é puro bom senso”, afirmou Véron, o economista. “Não dá para permitir que alguém que saiu do grupo consiga acordos melhores do que alguém que faz parte do clube. Do contrário, o clube deixa de fazer sentido.”