Na Síria, uma guerra termina, outra começa

Guerra da Síria deixou de ser nacional para se tornar local e com disputas globais

A guerra na Síria entrou numa nova fase. Com a derrota do Estado Islâmico, os diversos países e grupos envolvidos — Síria, Turquia, Irã, Rússia, EUA e Israel, xiitas, curdos, árabes seculares e radicais islâmicos — partem agora para consolidar o domínio de territórios, e assegurar seus interesses.

Ela deixa de ser uma guerra civil, no sentido estrito, e se torna uma guerra regional, com a interferência de potências globais. Como no Líbano, entre 1975 e 1990. Se você achava a situação complexa nesses quase sete anos de guerra civil, prepare-se: você não viu nada.

Na terça-feira, forças do governo sírio, apoiadas pela aviação russa, lançaram uma ofensiva para a retomada de Ghouta Oriental, uma área adjacente à capital, Damasco, dominada por rebeldes desde 2012.

Em dois dias de bombardeios intensos (“os morteiros e bombas estão caindo como chuva”, disse um morador), ao menos 250 pessoas morreram e 1.200 ficaram feridas, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos.

A entidade, que se baseia em uma rede de 300 informantes que fazem uma minuciosa verificação antes de divulgar seus números, informou que foi a maior matança no intervalo de 48 horas desde o ataque com armas químicas do regime em Ghouta em 2013.

Sete hospitais, alguns deles instalações subterrâneas improvisadas por voluntários, foram atingidos pelos bombardeios: seis por aviões sírios e um por russos.

A última vez em que o governo sírio permitiu a entrada de um comboio humanitário em Ghouta Oriental foi em novembro. Os moradores estão passando fome: o preço do pão é 22 vezes mais caro que na média do resto do país, e 12% das crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição severa.

O desabastecimento causado pelo cerco militar é uma arma — usada antes em cidades do norte, como Alepo, Homs e Idlib — para enfraquecer os rebeldes antes da invasão e retomada por terra. Que só acontece depois de um bombardeio aéreo e de canhões, que deixa a terra arrasada. É nessa fase que a campanha de Ghouta se encontra.

Atualmente, o grupo dominante é o Jeish al-Islam (Soldados do Islã). Mas o Hayat Tahrir al-Sham (Organização para a Libertação do Levante), uma frente jihadista liderada pela Al-Qaeda, também opera na região. A Turquia, que desde o início da rebelião na Síria, em 2011, voltou-se contra o regime de Bashar Assad, apoia os rebeldes.

O envolvimento turco no conflito abriu outra frente e, nesta semana, um realinhamento absolutamente inusitado. As forças turcas realizam desde o mês passado uma ofensiva contra os guerrilheiros curdos no norte da Síria, ao longo da fronteira com a Turquia.

A operação, batizada, um pouco ironicamente, de Ramo de Oliveira, busca evitar a formação de um corredor entre os curdos do norte da Síria e os do sudeste da Turquia, que lutam pela criação de um Estado independente, ou pelo menos por autonomia.

O presidente Recep Tayyip Erdogan, que chegou a negociar com os curdos e esteve a ponto de indultar o seu líder, Abdullah Ocalan, condenado a prisão perpétua, acusa-os de serem “terroristas”, por causa de seus ataques contra policiais e militares.

No início da semana, os curdos pediram ajuda ao governo sírio, evocando sua responsabilidade sobre a integridade territorial da Síria, ameaçada pela presença turca.

O regime sírio, dominado pela minoria alauíta (uma seita xiita), mandou para lá não tropas regulares — até porque ele praticamente não as tem, desde que a maioria dos sunitas desertou do Exército —, mas milicianos xiitas apoiados pelos Guardas Revolucionários iranianos.

“O governo sírio respondeu ao chamado do dever e enviou unidades militares que ficarão posicionadas ao longo da fronteira, e participarão da defesa do território sírio”, celebrou Nouri Mahmoud, porta-voz do grupo guerrilheiro curdo YPG (Unidades de Proteção Popular).

A força-tarefa partiu de Alepo e chegou à região curda de Afrin na terça-feira, enfrentando resistência turca. “Eles foram forçados a recuar sob fogo de artilharia”, vangloriou-se Erdogan, referindo-se aos milicianos pró-sírios, em entrevista coletiva em Ancara. “Organizações terroristas têm de pagar um preço alto quando cometem erros.”

As TVs e as redes sociais na Síria, no entanto, exibiram imagens de moradores comemorando a retomada de Afrin pelas forças sírias, na praça principal da cidade, com cartazes de Assad e de Ocalan. Conhecendo Erdogan, isso não deve ficar assim. Ele telefonou para os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e do Irã, Hassan Rouhani, advertindo para que não permitissem a incursão síria em Afrin.

No final de janeiro, durante a (tentativa de) conferência de paz para a Síria em Sochi, na Rússia, boicotada pelos rebeldes, milícias patrocinadas pelo Irã dispararam artilharia contra um comboio turco, levando a uma ruptura das negociações entre os dois países.

Os guerrilheiros curdos são treinados e equipados por militares americanos. Pela primeira vez nesses sete anos, Estados Unidos e Síria, e seu aliado, Irã, ficaram do mesmo lado do conflito.

Não foi o que aconteceu em outra frente, na província de Deir az-Zour, no leste da Síria. Cerca de cem combatentes leais ao regime sírio foram mortos por um bombardeio americano, destinado a dar apoio aos guerrilheiros curdos. Entre esses combatentes, havia “várias dezenas de russos”, admitiu o Ministério das Relações Exteriores em Moscou, ressaltando que não se tratava de forças regulares.

A Rússia tem empregado mercenários na Síria, assim como na Ucrânia. Parentes desses russos mortos na Síria contam que receberam pagamentos de seguro de vida de representantes de “empresas privadas militares” — ou foi assim que se apresentaram.

A chancelaria russa lavou as mãos: “Tem sido apontado que certos cidadãos russos na Síria têm chegado lá por livre e espontânea vontade, e por diferentes motivos. O Ministério do Exterior não tem a autoridade de medir a validade e legalidade de suas decisões”.

De acordo com o Pentágono, o quartel-general dos guerrilheiros curdos, que fazem parte das Forças Sírias Democráticas (SDF), apoiadas pelos EUA, estava sob ataque, e os americanos intervieram para protegê-lo.

Os militares americanos dizem que as forças pró-sírias avançaram sobre uma linha de demarcação informal, ao longo do Rio Eufrates. A margem ocidental é controlada pelo regime e a oriental, pela SDF. O Departamento de Defesa americano afirmou ter estado em constante contato com as autoridades russas antes da operação. O governo sírio chamou o incidente de “massacre” e prometeu se queixar na ONU.

Os israelenses também têm intensificado suas ações na Síria, para conter a influência militar do Irã e sua transferência de armas para a milícia xiita libanesa Hezbollah, que travou uma guerra com Israel em 2006.

No dia 10, um drone de reconhecimento iraniano invadiu o espaço aéreo israelense e foi abatido. Caças israelenses em seguida invadiram o espaço aéreo sírio e bombardearam a base de onde o drone era controlado.

Um dos aviões foi atingido por um míssil sírio e caiu em Israel. Os israelenses reagiram destruindo parte da artilharia antiaérea síria. A Rússia mediou entre Israel e Síria, para evitar uma escalada. O embate durou seis horas.

Quando russos e americanos entrarem em confronto, quem vai mediar?