Na semana de Obama, China também anuncia presidente

Xi Jinping poderá estar à frente da China quando ela ultrapassar os Estados Unidos e se tornar a maior economia do mundo

São Paulo – A eleição americana não foi a única dessa semana. Hoje começa o 18º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, que vai definir o comando da China para os próximos dez anos. Apesar da certeza sobre quem será o próximo presidente e o primeiro ministro, ainda não está claro o que a nova liderança chinesa vai defender, segundo o relatório China’s Leadership Handover, elaborado pela Economist Intelligence Unit.

Xi Jinping deve assumir a presidência do partido e, em março, tornar-se presidente da China. Li Keqiang é cotado para primeiro ministro. Possivelmente, Jinping estará à frente da China quando ela ultrapassar os Estados Unidos e se tornar a maior economia do mundo. 

No plano internacional, a nova liderança precisará preparar o terreno para esse momento de mudança. “O grande desafio é fortalecer a influência internacional e manter a estabilidade do sistema”, disse Oliver Stuenkel, professor adjunto de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, para quem o novo presidente vai tentar convencer o mundo de que a ascensão chinesa não significa uma ruptura. “Vamos ver o presidente engajado em mostrar o lado positivo da ascensão chinesa, dizer que a China é um país amigo”, disse. 

Pouco se sabe, de verdade, sobre Jinping ou Keqiang. Especula-se Jinping poderia adotar uma postura mais leve com o sistema financeiro, tendo em vista a experiência dele em Fujian e Zheijiang, que mostrou simpatia a reformas nos mercados. As províncias onde ele construiu sua carreira são empreendedoras, com setores privados relativamente dinâmicos e alta exposição a investimentos estrangeiros. O pai de Jinping era liberal e foi responsável por estabelecer a zona de economia especial de Shenzhen nos anos 1980. “Tudo isso sugere que Xi dará espaço a uma forte ênfase à liberalização, mais do que Hu Jintao, que era guiado – pelo menos no discurso – por prioridades do bem-estar social”, diz o relatório da Economist. 

“Há quem diga que Jinping pode impulsionar a abertura e outros acham que ele terá que responder a questões nacionalistas cada vez mais fortes, inclusive dos jovens”, disse Stuenkel. Mas o que se sabe sobre Jinping é majoritariamente baseado em sua biografia. “Pode-se saber muito dos candidatos americanos. Sobre Jinping, no fundo, tudo é especulação, podemos analisar o currículo dele, como ele viveu e como isso pode influencia-lo, mas no fundo ninguém sabe. Ele nunca participou de um debate”, disse Stuenkel. 


Além disso, Xi Jinping vai operar dentro de um sistema que não necessariamente lhe dá liberdade de transformar a politica doméstica ou interacional. O mesmo relatório que fala sobre o lado liberal lembra que mesmo que Jinping seja um reformador econômico por convicção, não há garantias de que ele poderá implementar grandes políticas de reestruturação. 

Transição

A transição de poder em países como a China é o momento mais frágil – quando os cidadãos podem questionar a legitimidade do processo, segundo Stuenkel. A coincidência com a semana das eleições presidenciais americanas não é exatamente boa. “Ter esses dois exemplos na mesma semana é uma certa ironia que mostra para alguns cidadãos chineses que eles não tem esse direito”, afirmou o professor. 

Além disso, esse é um momento delicado para o partido comunista. Recentenmente, Bo Xilai, que era considerado um nome ascendente na política chinesa, perdeu o cargo após acusações de corrupção e depois de sua esposa ser condenada por assassinato.

Tudo isso ajuda a aumentar a pressão sobre o novo presidente para entregar crescimento. A economia da China deve crescer 7,8% neste ano, segundo estimativas do FMI (em 2011, o crescimento do PIB havia sido superior a 9%). Segundo Stuenkel, o governo chinês precisa entregar crescimento para os cidadãos para manter a estabilidade política. “No contexto de declínio da competitividade das exportações e anos de investimento excessivo, a China terá que encontrar novos guias do crescimento na próxima década”, afirma o relatório. 

E não é só a economia que importa, outros desafios para o próximo governante são a poluição, a corrupção e o equilíbrio demográfico, segundo Stuenkel. O relatório da Economist acrescenta a essa lista a reforma do sistema Hukou e indica que também espera avanços nas reformas do setor financeiro nos próximos dez anos. 

O novo governo ainda terá que lidar com a reforma da governança das empresas estatais, segundo o relatório. Li Keqiang é geralmente lembrado como um firme defensor do atual presidente, Hu Jintao, e suas políticas mas, recentemente, ele tomou posições ousadas sobre questões como a reforma da governança das empresas estatais. O relatório questiona qual a versão de Keqiang que vai prevalecer agora.

Comentários recentes do governo sugerem uma disposição maior para permitir a competição do setor privado para as empresas estatais em setores importantes que vão de telecomunicações a finanças, assim como a reestruturação do atual sistema para o gerenciamento das grandes estatais chinesas, segundo o relatório. “Quão longe essa liberalização poderia ir permanece uma questão em aberto”, afirma o material. 


O cenário que Jinping e Keqiang têm pela frente é de maiores pressões populares, segundo o relatório. “Mas o partido vai continuar cauteloso, tentando evitar movimentos que reduzam sua habilidade de controlar a sociedade e a economia até que as alternativas não sejam palatáveis”, diz o estudo.

Jinping tem pela frente o plano econômico de cinco anos da China, que vai até 2015, depois, ele teria que convencer os grupos que se opõe a reformas. “Hu escolheu não confrontar esses interesses, Xi pode determinar que as necessidades da economia lhe oferecem pouca escolha. Isso abre a possibilidade de a China se mover em direção a um padrão de crescimento mais sustentável, mas também pode profetizar um período difícil da reforma no curto prazo”, afirma o relatório.  

Na área política, a perspectiva de reformas é mais obscura. O relatório sinaliza apenas uma esperança de que a próxima administração vai colocar no lugar da atual uma estrutura política que é melhor para lidar com as crises internacionais do que a atual.